mar/2024

Entrevista: Brian Molko (Placebo)

Por André Barcinski

Entrevista: Brian Molko (Placebo)

Por André Barcinski

Depois de dez anos, a banda Placebo volta ao Brasil para um show único. Será no Espaço Unimed, em São Paulo, no domingo, 17 de março. “Não vejo a hora de voltar”, diz por telefone o cantor Brian Molko, diretamente da Bélgica, país-natal de Molko, onde a banda ensaia para a turnê, que passa por alguns países da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Colômbia), pelo México, e depois segue para Austrália e Nova Zelândia. O show que desembarca no Brasil ainda faz parte da turnê do álbum de 2022, o elogiado “Never Let Me Go”.

Molko diz ter grandes lembranças dos shows do Brasil: “Nossos fãs brasileiros são muito especiais. Uma vez, eu estava conversando com meu amigo Robert Smith [do The Cure], isso lá no início de nossa amizade, há muitos anos. Na época, da América Latina, eu só havia tocado no México, mas nunca na América do Sul. Robert me disse: ‘Brian, você tem que conhecer o resto da América Latina e a América do Sul, eles têm os góticos mais cool da face da Terra!’ Quando fomos à América do Sul pela primeira vez, percebi que o Robert tinha razão!”

Para esse show em São Paulo, Molko só tem um pedido aos fãs: deixem o celular em casa. “Gostamos de encorajar nossos fãs a não usar celulares durante nossos shows”, diz o cantor. “Acreditamos que a experiência de um concerto só funciona quando ela é interativa, quando há uma troca entre a banda e o público. Somos só seis no palco, temos um sistema de som muito alto, e queremos dividir nossa música com o público, criando uma sensação de euforia coletiva. Quando, num show, você levanta um celular na sua cara, está criando uma barreira entre você e o artista, e isso acaba com a interação. Quando você está diante de uma pintura abstrata, de um quadro de Rothko, por exemplo, é preciso chegar perto, vê-lo de todos os ângulos possíveis, para captar a essência daquela obra. Acho que ir num show é a mesma coisa”.

Molko se diz cético também com relação a redes sociais: “Acho engraçado que as pessoas parecem esquecer que nós tivemos uma vida antes da Internet, antes de telefones celulares, e estava tudo bem”. Molko tem um filho de 18 anos, com quem divide dicas musicais, e acha que a nova geração tem uma relação saudável e mais eclética com a música: “Meu filho gosta muito de música, toca vários instrumentos, é um cara muito antenado em música e arte, e gosta de ouvir discos em vinil. Na nossa época, éramos muito fechados em nichos: ou você era gótico, ou era punk, só se ouvia um tipo de som. Percebo, na geração dele, uma disposição a ser eclético e de não ter nenhum tipo de barreira, seja de ouvir músicas de determinada época ou estilo. Ele ouve bandas dos anos 60 e coisas novas, ouve músicas de vários gêneros, e eu acho isso fantástico”.

Para a música contemporânea. Molko não tem palavras tão elogiosas: “Boa parte do pop moderno tem letras tão descartáveis e insípidas, que, ao ouvir qualquer coisa com gravidade, beleza e raiva, as pessoas se surpreendem. O Placebo sempre se preocupou muito com as letras, em falar de coisas que nos interessam e nos preocupam, e acho que as pessoas percebem isso e nos respeitam. Dizem que o público atual não está mais interessado em letras profundas e políticas, mas acaba de sair um disco ótimo de uma banda britânica, o Idles, que chegou a número um nas paradas. E o Idles é uma banda de letras extremamente fortes e, à sua maneira, políticas. Numa época de letras tão insípidas, talvez bandas como Idles e Placebo se destaquem”.

Perguntando se percebe a influência do Placebo em outras bandas contemporâneas, Molko diz: “Música é difícil explicar. O que é retrô hoje são bandas dos anos 90, com as quais nós crescemos. É igual a nós, nos anos 90, ouvindo bandas dos anos 60. De novo: não percebo, na geração do meu filho, essa preocupação temporal. Me divirto vendo ele e os amigos com camisetas do Smashing Punpkins, é que nem nós usando camisetas do The Doors. Quanto a sermos influência para outras bandas, só posso dizer que fico lisonjeado quando ouço alguém dizer isso”.

Um assunto que não pode falar em nenhuma conversa com Brian Molko é David Bowie. O Placebo teve uma longa relação com Bowie, abrindo shows do Camaleão por cinco ou seis anos, e Bowie inclusive convidou a banda para abrir o megashow de aniversário de 50 anos dele, em Nova York, em 1997, que contou com participações de pesos-pesados como Lou Reed, Robert Smith, Billy Corgan, Dave Grohl e Sonic Youth: “Que noite! Certamente uma das mais marcantes da minha vida”, lembra Molko. “Nunca vi tanta gente famosa nos camarins, todo mundo queria estar perto de Bowie: Christopher Walker, Naomi Campbell, os bastidores estavam fervilhando de celebridades, e nós lá, de olhos abertos, tão contentes de simplesmente ser parte daquilo”.

Molko diz que excursionar com Bowie foi uma lição de vida: “Nunca vou esquecer aquilo. Simplesmente observar como ele se relacionava com as pessoas – e todas as pessoas, do maior astro à pessoa mais humilde – foi uma aula de como ser uma pessoa melhor e mais empática. Não é exagero, mas ele podia estar conversando com Bono ou com o garçom, e sempre tratava a pessoa com o mesmo respeito e atenção. Que homem gracioso!”

O cantor lembra uma passagem curiosa nesse show de 50 anos de David Bowie: “Eu estava lá, zonzo de felicidade, e de repente Bowie chega: ‘Brian, quero te apresentar ao Lou’. E ali, na minha frente, estava Lou Reed. Eu congelei. Lou foi extremamente simpático – até ele era gracioso na presença de Bowie! – e eu falei a maior besteira da minha vida: ‘Nossa, você é muito mais simpático do que eu imaginei que fosse!’, e Lou me devolveu, na hora, com aquele jeito ácido típico de Lou Reed: ‘Você tem certeza que era isso que queria dizer para mim’?” Molko surpreende ao revelar quem tem a agradecer por ter tido a chance de conhecer David Bowie: “Tenho que agradecer a Morrissey! [ex-líder do grupo The Smiths]. Ele estava abrindo uma turnê do Bowie na Europa, quando um dia deu um piti e simplesmente abandonou a turnê, entrou no ônibus e mandou o motorista levá-lo para a Escócia. Bowie chegou na manhã seguinte, sem saber de nada, e perguntou: ‘Cadê o Morrissey?’, e avisaram que ele tinha se mandado. Por uma dessas coincidências inacreditáveis, tínhamos o mesmo agente de turnês, e meu telefone tocou no pequeno apartamento de merda em que eu me escondia em Londres: ‘Vocês querem sair em turnê com David Bowie?’ Achei que era uma piada”.

Uma ótima semana a todas e todos!

9 comentários em "Entrevista: Brian Molko (Placebo)"

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    Eveli Cristina Lovo De Siqueira

    Brian foi muito legal com você, o Divo geralmente não é a pessoa mais simpática do mundo. Amo a banda desde a minha adolescência, Brian foi meu primeiro crush hahahahah. Fui ao show em março de 2024, perfeito como sempre. Molko não se ajeita mesmo com celulares, não adianta insistir, o Divo fica bravíssimo. Adorei a entrevista. Parabéns!

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    Eveli Cristina Lovo De Siqueira

    Fui ao show, Brian é engraçado, se irritava com os celulares, mas compreendo, eles já tinham pedido para evitar hahahahah. Mas foi um excelente show. Me senti realizada em ver mais um show de umas das minhas bandas preferidas e suspirar por Brian Molko o meu primeiro crush na adolescência. Hahaha. Gostei muito da entrevista, Molko foi muito simpático com você.

  • Até o primeiro show tinha dois discos deles e nem lembrava, quando fui na primeira apresentação, em 2005, fiquei fã, os timbres “enferrujados” da guitarra, a bateria precisa e pesada, a voz que considerava parecida com a do Geddy Lee, tornou-se única. Em 2010 fui novamente, não gostava do jeito de tocar (estilo animal dos muppets) do baterista, mas me rendi a sua batida.

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, a entrevista com o Brian Molko ficou bem legal, mas taí uma banda que eu não consigo gostar e acho que tem um nome auto-explicativo, para não é uma banda de rock, é um placebo…

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