nov/2023

Entrevista: Black Pantera

Por André Barcinski

Entrevista: Black Pantera

Por André Barcinski

Depois de quase uma década de vida dura na cena underground, a banda mineira Black Pantera parece ter finalmente conquistado um lugar de destaque no rock brasileiro, expandindo seu fã-clube além do nicho do heavy metal: “A Pitty diz que curte o nosso som, o Samuel Rosa, do Skank, também”, diz o baixista e cantor Chaene da Gama. “E o Dinho disse que ouve nossos discos no camarim do Capital Inicial. Isso nos deixa muito emocionados”. Não são apenas músicos brasileiros que curtem a banda: depois de ver o Black Pantera tocando num festival, o cantor Mike Patton (Faith No More, Mr. Bungle) virou fã a ponto de posar para fotos vestindo camisetas de banda.

O Black Pantera surgiu em 2014 em Uberaba, Minas Gerais, e tem, além de Chaene, o irmão Charles Gama (vocal e guitarra), e Rodrigo Pancho (baixo). Três músicos negros que vêm se destacando pela energia alucinante de seus shows e por músicas que tratam de racismo e preconceito. Em 2023, pela primeira vez, os três conseguiram sobreviver financeiramente do Black Pantera. Charles pôde, enfim, largar o emprego num lava-jato, Chaene pediu demissão da gráfica que o empregava, e Rodrigo passou a recusar convites para tocar em bailes de sertanejo e forró. “Nossa vida agora é 100% Black Pantera”, diz Chaene.

A banda acaba de dar um passo importante para expandir ainda mais seu público: lançou um EP de cinco músicas, “Griô”, primeiro disco cantado totalmente em inglês. “Foi uma necessidade”, diz Rodrigo. “Já havíamos gravado algumas músicas em inglês e tocado em grandes festivais, como Rock in Rio, Lollapalooza e Knotfest, mas sentimos que mais pessoas precisavam entender a mensagem de nossas músicas”.

A mensagem do Black Pantera é clara: é uma banda antirracista, mas que faz um tipo de som ainda muito associado à cultura branca. “O metal é muito branco”, diz Charles. “Quando eu era mais novo e comecei a ouvir heavy metal, ficava fuçando nas revistas para ver se encontrava algum músico negro, mas era difícil. Lembro quando ouvi Living Colour [banda norte-americana formada em 1984] pela primeira vez. Eu pirei no som, mas a capa do disco não tinha foto da banda. Aí, um amigo disse que era uma banda preta. Eu não acreditei, fiquei louco com aquilo”.

A admiração pelo Living Colour aumentou ainda mais em 2022, quando o Black Pantera foi convidado para tocar no Rock in Rio e atraiu a atenção dos ídolos gringos: “A gente estava ensaiando no local do show, e de repente o Charles começou a errar as letras”, lembra Chaene. “Eu olhei pra porta, e o Corey [Glover, cantor] e o Doug [Wimbish, baixista], estavam vendo o nosso ensaio. Depois, o Vernon [Reid, guitarrista do Living Colour] falou de nós durante uma entrevista ao Multishow. Cara, que coisa surreal!”

Se o Black Pantera foi inspirado por bandas negras mais antigas – os três citam Renato Rocha (Legião Urbana), Clemente (Inocentes), Canibal (Devotos) e Derrick Green (Sepultura) como exemplos importantes de músicos negros – agora são os mineiros que influenciam novas gerações. “É muito lindo olhar o público de nossos shows e ver a variedade de gente”, diz Rodrigo. “Outro dia, em um show nosso, havia uma mãe com um menino preto, os dois coladinhos na grade, e o menino parecia extasiado, foi uma coisa muito bonita de ver”.

Os três esperam que “Griô” ajude a abrir as portas do mercado internacional, mas já preparam um novo disco, o quarto LP, que deve sair em 2024, e continuam a cumprir uma agenda de shows cada vez mais cheia. “A cena underground no Brasil está efervescente”, diz Charles. “O Brasil está recheado de bandas incríveis. Outro dia, tocamos em Brasília com uma banda chamada Desonra, e os caras eram tão bons que eu fiquei até com medo de subir no palco depois. Os caras moeram”.

Mesmo fazendo um som muito rápido e pesado, os integrantes do Black Pantera têm visto uma presença feminina cada vez maior em seus shows. “É impressionante a quantidade de mulheres que estão ouvindo Black Pantera”, diz Chaene. “Em nossos shows, há o momento da ‘roda das minas’, e é muito bonito ver que muitas delas estão entrando numa roda punk pela primeira vez. Não é raro elas dizerem que aquilo foi um momento muito libertador, achamos isso lindo. A cena brasileira precisa de mais ecletismo, precisa de mais bandas femininas, LGBT, de mais artistas indígenas”.

Publicado na “Folha de S. Paulo”.

6 comentários em "Entrevista: Black Pantera"

  • Imagem de perfil do usuárioImagem de perfil do usuário
    Cleibsom Carlos Alves Cabral

    Essa banda é ouvível, apesar de genérica demais! Se os integrantes fossem brancos, tenho certeza de que o BLACK PANTERA passaria batido. Digamos que a banda está se utilizando de sua “cota racial” no mercado. O que me espanta é a ingenuidade dos caras de acharem que estão combatendo o sistema, quando na verdade o estão reforçando encapando o discurso identitário do jeitinho que os engravatados querem. Guardadas as devidas proporções, o discurso vazio do BLACK PANTERA não se difere muito do efetuado pela porcaria BARBIE, por exemplo!!!PS.: Barça, e essa história de que uma de suas bandas favoritas, THE BRIAN JONES MASSACRE, quebrou o pau em pleno palco?

      • Imagem de perfil do usuárioImagem de perfil do usuário
        Cleibsom Carlos Alves Cabral

        Os integrantes do BLACK PANTERA são negros dóceis, cordeirinhos que se acham lobos, e só por isso repercutem tanto na grande mídia! Se os caras fossem raivosos e chutassem o balde de verdade, nunca que teriam o mesmo espaço. De resto, o som da banda é comum e não tem nada demais. É EMICIDA no rap, DJAMILA RIBEIRO e ITAMAR VIEIRA JR na literatura, LÁZARO RAMOS e TAÍS ARAÚJO nas artes cênicas e, santa hipocrisia, MAJU COUTINHO na Globo, todos se beneficiando da “cota informal” que a mídia concede às negras e aos negros bonzinhos e comportados! Não é com o discurso fajuto desse gente, que eu chamo de “ativismo classe média” e no qual o BLACK PANTERA se inclui, que as coisas vão mudar de verdade!!!MILTON SANTOS, há mais de 30 anos atrás, e JESSE SOUZA e NANCY FRASER colocam o dedo nessa ferida de forma contundente e por isso são escanteados por essa mesma mídia que repercute faceira e alegre negras e negros inofensivos. De resto, o som do BLACK PANTERA não justifica tanto auê e é o seu discurso que o faz repercutir! Discurso esse, como já citei, que é justamente aquele que o status quo deseja…PS.: Sugiro que você assista a entrevista do mito MILTON SANTOS no Roda Viva (de 1997!!!!!!!!!!) que, na antevisão do fato e já naquela época, colocava esse pessoal em seu devido lugar.

  • Acho o Black Pantera foda e muito necessário! Curto demais o som e a mensagem!
    André, e o que foi a briga no palco do Anton Newcombe com o guitarrista… relatos dizem que o cara estava muito doido desde o início do show.

  • Imagem de perfil do usuárioImagem de perfil do usuário
    Joao Gilberto Monteiro

    André, para quem acha que o Rock Brasileiro morreu com os Los Hermanos, depois da morte do Chorão ou com a ascensão e queda dos Emos, o Black Pantera dá uma porrada bem dada nos ouvidos, misturando a potência do heavy Metal e um discurso direto, sem papas na língua!!!!
    Uma ótima banda e que merece todo o sucesso!!!!

Deixe seu comentário

Ir para o topo