Quando algum artigo sobre a história do punk nova-iorquino fala na “cena punk do clube CBGB’s”, tenho calafrios. Que cena punk? A turma do CBGB’s era muito mais unida por uma questão de coincidência temporal do que afinidade sonora.
A rigor, entre as bandas mais importantes da cena, só os Ramones preenchem os requisitos de uma autêntica banda punk. Patti Smith, Richard Hell and the Voidoids, Talking Heads e Television foram nomes fundamentais, mas não podem ser considerados punks. E dessa turma, apenas um grupo fez sucesso mundial e realmente invadiu o “mainstream”: o Blondie.
O Blondie sempre foi uma unanimidade: uma banda pop-bubblegum querida por punks, new waves, fãs de discoteca e, depois, até por fãs de rap, por causa de faixas como “Rapture”. Numa carreira curta – de 1974 a 1982, quando se separou por quase 20 anos – o grupo liderado pelo casal Debbie Harry e Chris Stein e pelo baterista Clem Burke fez música pop de incrível qualidade e sex-appeal.
Acaba de sair na gringa o primeiro “box set” do Blondie: “Against the Odds: 1974-1982”, uma coleção vendida em várias configurações. A mais abastada (“Super Deluxe”) traz dez LPs em vinil, incluindo os seis discos de estúdio remasterizados (veja aqui todas as versões da caixa). No total, são 124 faixas.

Mas o atrativo mais salivante, pelo menos para quem já conhece a obra do Blondie, são os três CDs (ou quatro vinis) de raridades, que incluem 36 faixas inéditas garimpadas de uma coleção de mais de cem fitas de rolo que o guitarrista Chris Stein guardou desde que chegou a Nova York, no início dos anos 70, e começou a tocar com Debbie Harry e uma encarnação primitiva do Blondie no clube CBGB’s, em meados de 1974.
Ouça a versão do Blondie para “Moonlight Drive”, dos Doors:
A caixa saiu sexta-feira passada, e a seleção de raridades já pode ser ouvida nas plataformas digitais. É uma quantidade bestial de material, então não consegui ouvir tudo, mas há quatro dias estou chafurdando que nem porco na lama, ouvindo as demos, faixas inéditas e versões de canções conhecidas, mas que não entraram nos discos.
Há desde canções inéditas produzidas por Giorgio Moroder a demos caseiras, passando por músicas em idiomas diferentes (que tal “Sunday Girl” em francês?) e versões primitivas de canções que depois fariam sucesso (“X Offender”). É fascinante ouvir os discos na ordem e perceber a evolução da banda e a busca por novas sonoridades, característica marcante do grupo.
Enfim, “Against the Odds” é um presentão. Fugindo da chatíssima tradição recente de caixas que trazem 37 versões de uma mesma música e só apelam a fanáticos, vai interessar – e não entediar – a qualquer fã do Blondie.
Uma ótima semana a todas e todos.
3 comentários em "Encaixotando o Blondie"
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Eu tenho o Parallel Lines em cd, e adoro! Daqueles discos redondinhos, que se ouve do início ao fim sem pular nenhuma faixa.
André, para quem não conhece muito o Blondie, por onde começar a ouví -los?
Cara, começa pela coletânea “The Best of Blondie”, sem dúvida.