Eles inventaram a estética do rock dos anos 70
Um dos documentários musicais mais bonitos dos últimos tempos não trata de nenhum músico ou compositor: é “Squaring the Circle”, de Anton Corbijn, que conta a história do Hipgnosis, uma dupla de designers que criou boa parte da iconografia do rock e do pop dos últimos 50 anos, fazendo capas antológicas para Pink Floyd, Led Zeppelin, Paul McCartney, T-Rex, Black Sabbath, Peter Gabriel, 10cc e centenas de outros.
O filme acaba de ser postado no Youtube, com legendas em inglês. Mesmo que seu inglês não seja perfeito, vale muito a pena ver, até para apreciar a beleza das capas e encartes criados pela dupla.
Corbijn é um grande fotógrafo e cineasta, famoso por trabalhos com Joy Division, New Order, Depeche Mode e U2. Ele fez um filme simples, mas emocionante, centrado no membro remanescente do Hipgnosis, Aubrey “Po” Powell.
Em meados dos anos 1960, Po, que tinha interesse em fotografia, conheceu um designer e artista plástico chamado Storm Thorgerson. Eles dividiam paixão pela arte e LSD, e um ódio absoluto a convenções e autoridade. Começaram a trabalhar juntos em plena efervescência da “Swinging London”, a versão britânica da contracultura hippie.
Em 1968, o Pink Floyd comissionou a dupla para fazer a capa do segundo LP da banda, “A Saucerful of Secrets”. Storm e Po criaram uma colagem psicodélica que misturava fotos e imagens roubadas de livros e gravuras. Foi o início de uma longa parceria com a banda, que resultaria em capas históricas como a vaca em “Atom Heart Mother” (1970), o prisma em “Dark Side of the Moon” (1973) e o homem de terno pegando fogo em “Wish You Were Here” (1975).
Para o Led Zeppelin, Storm e Po criaram o delírio lisérgico da capa de “Houses of the Holy” (1973), o intrincado “Easter Egg” da escultura preta da capa de “Presence”, e a cena do bar decadente em “In Through the Out Door” (1979). “A capa era melhor que o disco”, brinca Jimmy Page, um dos entrevistados.
A lista de depoimentos é impressionante: Page, Plant, McCartney, Peter Gabriel, David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters, além de fãs como Noel Gallagher e o designer Peter Saville, famoso pelas capas da gravadora britânica Factory. Saville conta como se inspirou no prisma de “Dark Side of the Moon” para criar sua capa mais famosa, a de “Unknown Pleasures”, do Joy Division: “A exemplo de ‘Dark Side’, usei uma imagem científica como ilustração, porque imagens científicas não envelhecem”.
Hipgnosis foi “o” estúdio de design dos anos 1970, época de bonança inédita na indústria da música, e são muitas as histórias de capas que custaram fortunas: depois de clicar a inesquecível imagem de capa para “Band on the Run”, Storm e Pop assinaram outras seis capas para Paul McCartney e o Wings.
Para fazer a capa de “Wings Greatest”, que mostrava uma estátua numa paisagem de neve, Po, responsável pelas fotografias do estúdio, levou uma imensa equipe para o cume de uma montanha na Suíça. A imagem escolhida foi clicada de dentro de um helicóptero. “Alguém me perguntou por que nós simplesmente não fizemos a foto num estúdio em Londres, substituindo a neve por um monte de sal”, diz McCartney. “Bom, realmente teria saído bem mais barato. Mas não era a forma como fazíamos as coisas nos anos 70”.
Outra história que mostra a pujança e exorbitância dos orçamentos de discos do período é a da capa de “Look Hear” (1980), do 10cc. Para obter a imagem de um carneiro deitado num divã de psicanalista numa praia, Po levou a equipe ao Havaí. Depois de gastar uma fortuna com a fotografia, ele e Storm decidiram que a imagem seria publicada na capa no tamanho original de um quadro de um filme de 35mm, ou seja: 2,4 cm por 3,6 cm. Na capa de “Elegy”, do The Nice, o Hipgnosis foi ao deserto do Saara levando 60 bolas vermelhas.
Veja nesse link uma lista de quase todas as capas criadas pelo Hipgnosis.
A fama e fortuna do Hipgnosis durou até o início dos anos 1980, quando a chegada da MTV e a guinada na direção de videoclipes mudou a indústria da música. Antes disso, em meados dos 1970, a empresa ganhou um novo sócio, Peter Christopherson, conhecido também como membro de bandas industriais-eletrônicas como Throbbing Gristle, Psychic TV e Coil. Na década de 1980, diminuíram as verbas para capas e encartes de discos e, com isso, a importância dos designers. O escritório do Hipgnosis fechou em 1983. Christopherson morreu em 2010 e Storm, três anos depois. Po continua trabalhando com o Pink Floyd e David Gilmour.
Veja aqui “Squaring the Circle”:
Um ótimo dia a todas e todos.
5 comentários em "Eles inventaram a estética do rock dos anos 70"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
André,
Sabe dizer se o filme foi retirado do Youtube?
Parece que foi, mas botaram de novo. Veja logo…
https://youtu.be/RO238OvVRGo?si=d3EE0uEDZAqnAFuG
Mas eles continuaram trabalhando fazendo capas certo? Mars Volta, Audioslave e Muse foram algumas das bandas que tiveram capas de Storm.
Sim, mas em carreira solo.
Uau!!! Imperdível! Pra muitos pode não ser nada, mas pra mim, uma capa bem feita é um tempero muito especial num disco. Qual sua capa de disco favorita, André?
P.S. vamos esperar o Cleibsom vir botar defeito no doc.