ago/2023

“Ed Wood” é a obra-prima de Tim Burton

Por André Barcinski

“Ed Wood” é a obra-prima de Tim Burton

Por André Barcinski

Esses dias, o cineasta Tim Burton completou 65 anos. Admiro Burton e sua visão sempre criativa, mas não sou exatamente um grande fã de seus filmes. Com uma exceção: “Ed Wood” (1994), que considero não só a melhor obra dele, mas uma das cinebiografias mais bonitas e inventivas do cinema. É um filme perfeitamente escrito, atuado e dirigido, e um que sempre revejo como inspiração.

Ed Wood (1924-1978) foi um personagem fascinante e um cineasta de quinta categoria. Dirigiu muitos filmes ruins, mas um, em especial, se destacou: “Plan Nine From Outer Space” (1957), votado em muitas enquetes como o pior filme de todos os tempos.

Wood era um idealista, um Dom Quixote que acreditava na própria genialidade e montou uma trupe de adoráveis fracassados como ele, que atuavam em seus filmes tenebrosos. Morei por um tempo em Los Angeles, nos anos 90, e tive a sorte de conhecer pessoalmente alguns deles, como Dolores Fuller (namorada de Wood e atriz de alguns de seus filmes), Conrad Brooks, Paul Marco (o policial Kelton) e a “Fantasma Branca”, Valda Hansen. Mais de 30 anos depois de trabalhar com Wood, eles ainda viviam da venda de fotos e objetos dos filmes, tamanho o fascínio que o cinema Z de Wood provocava em cinéfilos.

Voltando ao filme de Burton: o roteiro, escrito por uma dupla genial, Larry Karaszewski e Scott Alexander, especializada em cinebiografias de personagens excêntricos, como “O Povo Contra Larry Flynt” (1996), “O Mundo de Andy” (1999) e o recente “Meu Nome é Dolemite” (2019), se concentra em dois ou três anos da vida de Ed Wood, quando ele está tentando botar de pé o projeto “Plan Nine From Outer Space”. Johnny Depp, em sua melhor atuação no cinema, faz um Wood genial.

A vida de Wood é uma bagunça: ele namora a gata Dolores (Sarah Jessica Parker), mas esconde dela que, secretamente, gosta de se vestir de mulher e tem predileção por roupas de angorá. Sem grana para bancar o filme, monta um verdadeiro Exército de Brancaleone pra ajudá-lo, incluindo a drag Bunny Breckinridge (Bill Murray, impagável), o vidente Criswell (Jeffrey Jones) e o gigante Tor Johnson (interpretado pelo lutador de telecatch George “The Animal” Steele). Mas falta um astro para o filme.

Wood encontra esse astro – aliás, um ex-astro – morando num casebre nos arredores de Hollywood, esquecido, falido e viciado em morfina: ele é Bela Lugosi, o ator conhecido pelo papel de Drácula no cinema. E o relacionamento entre os dois é o pilar emocional do filme. A atuação de Martin Landau como Bela Lugosi é, certamente, uma das maiores da história. Ganhou um Oscar de lavada.

Já perdi a conta de quantas vezes revi “Ed Wood”. Amo tudo nesse filme: o carinho com que Burton trata seus personagens, a entrega dos atores em papéis em que interpretam atores muito menos talentosos, o clima lúdico e farsesco, enfim, é uma comédia biográfica perfeita, abrilhantada com uma fotografia Expressionista em preto e branco de Stefan Czapsky (parceiro habitual de Burton) que homenageia os filmes de horror da Universal dos anos 1930. Uma ode ao cinema, que está no catálogo da Star+ e merece ser visto e revisto.

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