set/2021

Dolly Parton ri por último

Por André Barcinski

Dolly Parton ri por último

Por André Barcinski

A Netflix exibe “Dolly Parton: Here I Am” (2019), um documentário sobre a carreira da cantora e compositora norte-americana. O filme usa um artifício engenhoso: conta a vida de Dolly por meio de suas músicas.

O que muita gente não sabe é que, por trás daquele visual espalhafatoso de Barbie caipira – seios imensos, cabelos armados, roupas que parecem tiradas de um episódio de “Dallas” – existe uma das maiores compositoras da música pop norte-americana, uma artista que escreveu canções autobiográficas dilacerantes.

Em mais de 50 anos de carreira, Dolly Parton compôs cerca de 3 mil canções, incluindo uma balada que escreveu aos 28 anos de idade, chamada “Will Always Love You”. A música chegou a primeiro lugar na parada country duas vezes: a primeira no lançamento, em 1974, e a segunda em 1982, quando Dolly a regravou para a trilha da comédia “A Melhor Casa Suspeita do Texas”. Alguns anos depois, Whitney Houston regravaria a canção e venderia perto de 20 milhões de cópias do compacto, além de 17 milhões de LPs com a trilha do filme “O Guarda-Costas”, até hoje a trilha sonora mais vendida da história da música.

Em “Dolly Parton: Here I Am”, várias compositoras, amigas e admiradoras, como Linda Perry, Jane Fonda e Kylie Minogue, analisam as letras e contam como elas refletem a vida e inspirações de Dolly. Assim, entendemos as histórias por trás de obras-primas como “Jolene” (traições amorosas), “Coat of Many Colors” (a pobreza na vida rural do Tennessee), “Nine to Five” (assédio sexual no trabalho) e “The Bridge” (suicídio adolescente).

Para quem não conhece Dolly Parton, o filme é uma revelação. Descobrimos que seu visual extravagante esconde uma mulher profundamente preocupada com a privacidade. Quase caí da cadeira ao ver músicos que tocam com Dolly há décadas dizendo que nunca sequer viram o marido da cantora, Carl Dean, com quem ela é casada há 57 anos.

A história de vida da família Parton é impressionante. Os Parton tiveram uma vida difícil. Moravam numa área rural e pobre no interior do Tennessee. Antes de completar 35 anos, a mãe de Dolly, Avie, havia dado à luz 12 crianças. Dolly começou a cantar em igrejas e rádios locais, e aos 18 anos mudou-se para Nashville, capital da música country, onde fez uma carreira de compositora e rapidamente atraiu atenção de cantores e gravadoras. Antes de fazer 21 anos, ela já havia composto sucessos para Hank Williams Jr., Skeeter Davis e Kitty Wells.

Quando lançou seu primeiro LP próprio, em fevereiro de 1967, ela incluiu uma canção que era uma verdadeira declaração de princípios: “Dumb Blonde” (“Loura Burra”):

“Quando você me deixou, achou que eu ficaria sentada / achou que eu esperaria / achou que eu choraria / me chamou de loura burra / ah, mas de alguma maneira eu sobrevivi / e aprendi uma coisa / que as louras se divertem mais (…) só porque sou loura / não pense que sou burra / porque essa loura burra não é trouxa”.

Talvez seja a música mais autobiográfica que Dolly não tenha escrito. “A canção é de Curly Putnam”, diz Dolly no filme. “Mas eu poderia muito bem tê-la composto, é a minha cara”. A letra reflete perfeitamente a personalidade de Dolly Parton: uma mulher inteligentíssima e controladora, mas que prefere fingir ser apenas uma menina ingênua e um rostinho bonito.

Dolly Parton é tão discreta sobre sua vida que o filme praticamente não fala de um aspecto importante de sua carreira: a filantropia. A Biblioteca da Imaginação, fundação que ela inaugurou em 1996 em homenagem ao pai, que morreu analfabeto, passou do número espantoso de 100 milhões de livros doados gratuitamente para crianças pobres nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália.

A Biblioteca da Imaginação envia para as casas de famílias um livro por mês, até a criança completar cinco anos. A ideia, segundo Dolly, é que a criança, depois de ser alfabetizada, tenha à disposição uma coleção de bons livros. A seleção dos títulos é feita por uma comissão de especialistas em literatura infantil. A inspiração para a Biblioteca da Imaginação, segundo Dolly, foi seu pai, Lee, um operário e trabalhador rural que morreu aos 79 anos, sem aprender a ler. “Vi como isso marcou a vida de meu pai”, disse a cantora.

Que mulher.

Um ótimo fim-de-semana!

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