jul/2022

Do Arquivo: o filme que “Psicose” destruiu

Por André Barcinski

Do Arquivo: o filme que “Psicose” destruiu

Por André Barcinski

Acaba de estrear, na plataforma MUBI, “Peeping Tom” (“A Tortura do Medo”), de Michael Powell. Republico aqui um texto que escrevi em outubro de 2014, quando o filme foi lançado em DVD.

Já escrevi bastante aqui no blog sobre filmes que quase acabaram com as carreiras de seus respectivos diretores, como “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” (Sam Peckinpah), “Comboio do Medo” (William Friedkin) e “Cão Branco” (Samuel Fuller).

Foram filmes ousados demais e populares de menos, que prejudicaram as carreiras dos cineastas e dificultaram o financiamento de projetos posteriores, mas que acabaram redescobertos depois e hoje são clássicos.

Pode somar a essa lista “A Tortura do Medo” (“Peeping Tom”), de Michael Powell, que acaba de sair em DVD no Brasil.

Quando fez “A Tortura do Medo”, em 1960, Michael Powell (1905-1990) era um dos diretores mais respeitados do cinema inglês, graças a sucessos como “The Life and Death of Colonel Blimp” (1943), “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948) e “Os Contos de Hoffman” (1951), feitos em parceria com Emeric Pressburger (aliás, se você não viu “Os Sapatinhos Vermelhos”, assista de qualquer maneira, é um desses filmes inesquecíveis).

“A Tortura do Medo” conta a história de Mark Lewis (Carl Boehm), um aspirante a cineasta e membro de uma equipe de filmagem. Lewis é um sujeito tímido e calado, que vive sozinho e não tem amigos. Na verdade, é um poço de repressão sexual e neuroses, um assassino serial cuja obsessão é filmar as expressões de horror no rosto de suas vítimas.

Dizer que o filme foi mal recebido pela crítica não é justo; ele foi escorraçado. Os adjetivos eram de “nojento” pra baixo: um famoso crítico sugeriu jogar os negativos no esgoto; outro disse que era “mais nauseabundo e deprimente que colônias de leprosos no Paquistão”. Powell foi chamado de pervertido e doente. O filme saiu rapidamente de cartaz na Inglaterra e foi lançado nos Estados Unidos em pouquíssimas salas e cópias cortadas e em preto e branco.

Dois meses depois do lançamento de “A Tortura do Medo” na Inglaterra, Alfred Hitchcock lançaria outro filme sobre um assassino atormentado por neuroses de infância: “Psicose”. O sucesso deste acabou jogando ainda mais terra na cova do filme de Powell.

No início da década de 70, no entanto, uma cópia completa – e colorida – de “A Tortura do Medo” começou a circular nas escolas de cinema de Nova York. Um jovem Martin Scorsese assistiu, boquiaberto, e começou a falar sem parar sobre o filme. “Tudo que você precisa saber sobre a arte do cinema está em dois filmes: ‘Oito e Meio’, de Fellini, e ‘A Tortura do Medo’, de Michael Powell”. Anos depois, Scorsese iniciaria uma longa parceria com a editora Thelma Schoonmaker, que em 1984 casaria com Powell.

Hoje, “A Tortura do Medo” é considerado um clássico do terror psicológico. É um daqueles filmes – como “O Despertar da Besta”, de José Mojica Marins – em que você não sabe onde começa a loucura voyeurística do personagem e termina a do diretor. Um pesadelo neurótico e atormentado, inundado de obsessões freudianas e tão perturbador quanto um “snuff movie” (filme de violência real), mesmo filmado em um tecnicolor irreal e lúdico. De entortar a cabeça.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

7 comentários em "Do Arquivo: o filme que “Psicose” destruiu"

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