Do Arquivo: o filme que “Psicose” destruiu
Acaba de estrear, na plataforma MUBI, “Peeping Tom” (“A Tortura do Medo”), de Michael Powell. Republico aqui um texto que escrevi em outubro de 2014, quando o filme foi lançado em DVD.
Já escrevi bastante aqui no blog sobre filmes que quase acabaram com as carreiras de seus respectivos diretores, como “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” (Sam Peckinpah), “Comboio do Medo” (William Friedkin) e “Cão Branco” (Samuel Fuller).
Foram filmes ousados demais e populares de menos, que prejudicaram as carreiras dos cineastas e dificultaram o financiamento de projetos posteriores, mas que acabaram redescobertos depois e hoje são clássicos.
Pode somar a essa lista “A Tortura do Medo” (“Peeping Tom”), de Michael Powell, que acaba de sair em DVD no Brasil.
Quando fez “A Tortura do Medo”, em 1960, Michael Powell (1905-1990) era um dos diretores mais respeitados do cinema inglês, graças a sucessos como “The Life and Death of Colonel Blimp” (1943), “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948) e “Os Contos de Hoffman” (1951), feitos em parceria com Emeric Pressburger (aliás, se você não viu “Os Sapatinhos Vermelhos”, assista de qualquer maneira, é um desses filmes inesquecíveis).
“A Tortura do Medo” conta a história de Mark Lewis (Carl Boehm), um aspirante a cineasta e membro de uma equipe de filmagem. Lewis é um sujeito tímido e calado, que vive sozinho e não tem amigos. Na verdade, é um poço de repressão sexual e neuroses, um assassino serial cuja obsessão é filmar as expressões de horror no rosto de suas vítimas.
Dizer que o filme foi mal recebido pela crítica não é justo; ele foi escorraçado. Os adjetivos eram de “nojento” pra baixo: um famoso crítico sugeriu jogar os negativos no esgoto; outro disse que era “mais nauseabundo e deprimente que colônias de leprosos no Paquistão”. Powell foi chamado de pervertido e doente. O filme saiu rapidamente de cartaz na Inglaterra e foi lançado nos Estados Unidos em pouquíssimas salas e cópias cortadas e em preto e branco.
Dois meses depois do lançamento de “A Tortura do Medo” na Inglaterra, Alfred Hitchcock lançaria outro filme sobre um assassino atormentado por neuroses de infância: “Psicose”. O sucesso deste acabou jogando ainda mais terra na cova do filme de Powell.
No início da década de 70, no entanto, uma cópia completa – e colorida – de “A Tortura do Medo” começou a circular nas escolas de cinema de Nova York. Um jovem Martin Scorsese assistiu, boquiaberto, e começou a falar sem parar sobre o filme. “Tudo que você precisa saber sobre a arte do cinema está em dois filmes: ‘Oito e Meio’, de Fellini, e ‘A Tortura do Medo’, de Michael Powell”. Anos depois, Scorsese iniciaria uma longa parceria com a editora Thelma Schoonmaker, que em 1984 casaria com Powell.
Hoje, “A Tortura do Medo” é considerado um clássico do terror psicológico. É um daqueles filmes – como “O Despertar da Besta”, de José Mojica Marins – em que você não sabe onde começa a loucura voyeurística do personagem e termina a do diretor. Um pesadelo neurótico e atormentado, inundado de obsessões freudianas e tão perturbador quanto um “snuff movie” (filme de violência real), mesmo filmado em um tecnicolor irreal e lúdico. De entortar a cabeça.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
7 comentários em "Do Arquivo: o filme que “Psicose” destruiu"
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André, achei o filme no youtube, legendado e em ótima qualidade: https://www.youtube.com/watch?v=tYo9LabOgwE
Excelente!
Quero muito ver desde quando você recomendou pela primeira vez!
P.S. Estou curtindo demais te seguir no instagram.
Barcisnski, saiu Peckinpah ao invés de Fuller ao se referir a “Cão Branco”. Sobre o filme, acho que o desconforto principal se dá pelo efeito Humbert Humbert – a narração é feita do ponto de vista do criminoso, o que gera alguma empatia com o público. O público deve ter odiado simpatizar com um psicopata.
Obrigado, já mudei.
Amo muito esse filme. E é interessante também o surgimento da expressão “Peeping Tom”: https://amavelleitor.blogspot.com/2018/12/peeping-tom.html
Excelente dica, valeu.