jul/2023

Do Arquivo: No tempo dos ETs comunistas

Por André Barcinski

Do Arquivo: No tempo dos ETs comunistas

Por André Barcinski

Publicado originalmente em 2012

“Vampiros de Almas” (“Invasion of the Body Snatchers”), que Don Siegel dirigiu em 1956, não só é um dos melhores filmes de terror e ficção-científica já feitos, mas um dos maiores exemplos de uma vertente muito popular do cinema hollywoodiano: a dos filmes anticomunistas.

No filme, uma pequena cidade é invadida sorrateiramente por seres do espaço, que crescem em casulos semelhantes a vagens gigantes e viram clones dos habitantes locais. Esses são, pouco a pouco, substituídos e viram pessoas frias e desprovidas de sentimentos. Um clássico da paranóia.

O cinema norte-americano sempre combateu o comunismo. Em 1919, apenas dois anos depois da Revolução Soviética, Hollywood já fazia críticas ao regime comunista, como na comédia pastelão “Bullin’ the Bolsheviki”.

Pelos 70 anos seguintes, centenas de filmes foram produzidos nos Estados Unidos – dramas, ficções-científicas, documentários, comédias – que pregavam a superioridade de Tio Sam e ridicularizavam a União Soviética.

O auge desse tipo de cinema ocorreu nas décadas de 1950 e 60, quando a Guerra Fria ameaçava o planeta.

E tome filmes sobre invasões alienígenas, ameaças atômicas e espiões infiltrados na imaculada América do Norte.  “O Dia em que a Terra Parou” (1951), “Invasores de Marte” (1953) e “Sob o Domínio do Mal” (1962), cada qual a seu modo, mostravam o que poderia acontecer em caso de uma vitória vermelha. Grandes cineastas como Roger Corman, John Frankenheimer e Don Siegel embarcaram na onda.

No início dos anos 70, Hollywood descobriu que a ameaça estava mais perto do que se imaginava: em meio à Guerra do Vietnã e a protestos sociais e raciais no próprio país, o cinema parou de se preocupar tanto com os russos e voltou suas armas, literalmente, para o próprio povo americano, em especial para os hippies, maconheiros e “bandidos” que protestavam contra o governo em universidades e nas ruas das metrópoles.

Foi a época de “Dirty Harry” (1971) e “Desejo de Matar” (1974), em que Clint Eastwood e Charles Bronson encarnaram John Wayne e pregavam a volta a uma América ordeira e obediente.

O cinema anticomunista voltaria com força nos anos 80, junto com a onda conservadora que levou Ronald Reagan à Casa Branca.

Foi a época em que Sylvester Stallone, na pele de Rambo, pirou ao ter “flashbacks” das torturas que sofreu nas mãos dos vietcongues, e quando Rocky desafiou para uma luta o campeão soviético, o sanguinolento Ivan Drago (Dolph Lundgren).

Foi quando John Milius dirigiu “Amanhecer Violento” (“Red Dawn”, 1984), em que Patrick Swayze e Charlie Sheen lideram um grupo de estudantes de uma pequena cidade americana que resistem à invasão de soldados russos, cubanos e nicaragüenses. Um delírio paranóico que hoje só provoca gargalhadas. Passa de vez em quando na TV.

Não achei “Vampiros de Almas” em streamings nacionais, mas o colega Moacir Loureiro fez o grande favor de enviar esse link onde o filme pode ser visto, com legendas em português. Muito obrigado ao Moacir.

Tenham um ótimo sábado.

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