Do Arquivo: Nelson Gonçalves e o disco mais engraçado do mundo
Tem dias em que acordo e a única coisa que quero ouvir é Nelson Gonçalves. Os coitados aqui de casa já sabem: vão passar pelo tormento de me ouvir, por horas e horas, cantando em cima de gravações clássicas de Nelsão. Minha filha já sabe algumas de cor: “Normalista”, “Maria Bethânia”, “Pensando em Ti”, “Deusa do Maracanã” e, claro, “A Volta do Boêmio”.
Quando a BMG relançou o catálogo de Nelson Gonçalves em CD, no fim dos anos 90, comprei todos que achei nas lojas, uns 40. Desses, há um, em especial, que alegra nosso dia, mas pelas razões erradas: é “Ainda é Cedo”, seu último álbum, lançado em 1997, um ano antes de sua morte.
No disco, Nelson interpreta sucessos do pop-rock brasileiros dos anos 80 e 90: “Faz Parte do Meu Show” (Cazuza), “Meu Erro” (Paralamas), “Caso Sério” (Rita Lee), “Bem Que se Quis” (Marisa Monte), “Me Chama” (Lobão), “Como Uma Onda” (Lulu Santos) e outros. A direção artística foi de Jorge Davidson e a produção musical, de Robertinho de Recife.
“Ainda é Cedo” é o caso clássico de ingredientes bons que não se misturam. De um lado, temos o vozeirão de Nelson, fragilizado pela idade, mas ainda capaz de pôr no chinelo qualquer um. Do outro, um repertório popular, de canções queridas por muitos. O resultado, no entanto, foi um desastre.
E não foi um desastre qualquer: é um daqueles abacaxis clássicos, tão esdrúxulos que chegam a ser engraçados. Tipo o filme em que Jerry Lewis interpreta um palhaço preso num campo de concentração nazista, ou Orson Welles fazendo narração para disco do Manowar. Imagine Bruce Dickinson cantando Lupicínio Rodrigues. O estranhamento seria semelhante.
Ouvir Nelson cantando versos “descolados” de Cazuza como “Vivo num clipe sem nexo / um pierrot retrocesso / meio bossa nova e rock and roll” é engraçado demais. Na mesma “Faz Parte do Meu Show”, só de imaginar o cantor pegando a menina na escola e enchendo sua bola, é o suficiente pra cair na gargalhada.
E quem acredita que uma menina ensinou a Nelsão quase tudo que ele sabe, como canta em “Ainda é Cedo”? Dá para imaginar Renato Russo aprendendo tudo com uma garotinha, mas Nelsão? Que menina é essa? E pior: a gata ainda diz que Nelson tinha medo, e ele, em vez de largar a sirigaita e correr pra esbórnia na Lapa, como fez em tantas canções, responde, cordeirinho: “Quem tem medo é você!”
“Ainda é Cedo” e “Meu Erro” viraram boleros de churrascaria, com direito a corinhos femininos “Tchurá-tchurá” e percussão latina. No primeiro, Nelson ainda erra a letra: em vez de cantar “a ela como ela me ajudou”, mandou “Ah… como ela me ajudou!”
Mas a melhor faixa do disco é “Caso Sério”. Nelson nunca foi conhecido pelo humor, então ouvi-lo cantando coisas como “empapuçados de amor”, “Dose dupla … românticos de Cuba (Nelson esquece de cantar o “libre”)” e, principalmente, “Misto quente / sanduíche de gente” é de rolar no chão de rir. Minha filha sempre pede: “Papai, põe a música do sanduíche de gente?” Alegra qualquer dia. Confira:
Publicado em 19 de março de 2014
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
15 comentários em "Do Arquivo: Nelson Gonçalves e o disco mais engraçado do mundo"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
Lembro da propaganda na TV desse disco, muito engraçada de tão constrangedora
Para mim, nesse disco, nada supera Bem Que Se Quis.
O Nelson cantando pausadamente “agora vem para perto, vem / vem de pressa, vem sem fim / dentro de mim”, isso é inacreditável.
Sou fã do Nelsão desde criança, fui influenciado pelo meu pai Seu Aloísio. Ouvíamos muito nas noitdas com ele nos bregas de Slavador/BA (minha mãe sempre desconfiou, mas deixava quieto). Gostou um monte desta coletânea. Para mim o Nelson deu um upgrade nas músicas.
Sensacional esse disco existir, fico imaginando as fas do Nelson acampando na porta das lojas americanas esperando o dia do lancamento!
Barça, lembro que na época do Eddie Murphy no SNL ele fez um quadro onde ele imitava o Stevie Wonder e o outro comediante Joe Piscopo imitava o Frank Sinatra e eles fazem um dueto mudando totalmente a letra de Ebony and Ivory deixando mais suingada. Ai pesquisando mais sobre esse Joe Piscopo, ele tem um disco onde canta musicas imitando o Sinatra e uma delas é I Love Rocj ‘N Roll da Joan Jett mas no rítmo daqueles standards dos anos 40… Ilário.
Cara, Joe Piscopo era engraçado DEMAIS.
Eu tinha um amigo que me emprestou esse cd, e falei pra ele que achei bem estranho ouvir o Nélson cantando essas canções, e o cara se ofendeu, só faltou me dizer que eu não sabia nada da vida. Enfim…
Esse seu texto é clássico pra mim! Sou fã do nersão… vez ou outra o domingão é regado nuns discos dele e umas cachacinha. Seus filhos ainda gostam dessas versões ?
Eu gosto mais que eles, por isso são obrigados a ouvir!
Bizarro. É verdade que Nelson deixou muita gravação só com a vóz , para continuar lançando discos após sua morte?
Legal essa história, não conheço.
Eu amo esse disco! É o equivalente musical ao Monty Pyton em busca do Cálice Sagrado, ou seja, um risada a cada 10 segundos.
E toda vez que eu escuto Nelsão dizendo que uma menina lhe ensinou tudo o que ele sabe, eu fico imaginando que tem que ser, no mínimo, a Suzane Richthofen
Sim, que menina é essa?
Realmente “Misto quente / sanduíche de gente” é surreal. Ouvi esse disco algumas vezes e gosto da versão de “Estácio, holly Estácio”. As outras ficaram, no mínimo, bem estranhas.
Abração
Surreal é pouco. Abraço.