Do Arquivo: Monty Python é o auge do humor na TV
Publicado originalmente em 2018
Um dos grandes programas cômicos da TV está finalmente disponível, na íntegra, ao público brasileiro: a Netflix incluiu em seu catálogo os 45 episódios de “Monty Python’s Flying Circus”, do grupo humorístico britânico Monty Python (N.A.: Ainda estão disponíveis!)
Exibido pela BBC em quatro temporadas, entre 1969 e 1974, “Flying Circus” inovou o humor televisivo com seu humor surrealista e nonsense. Na contramão da comédia de TV da época, em “Flying Circus” não havia bordões ou imitações de políticos ou celebridades; piadas não acabavam, mas eram cortadas abruptamente por desenhos animados esquisitíssimos, em que freiras tiravam a roupa e policiais voavam pelos ares como pássaros.
O Monty Python era um sexteto formado por cinco britânicos – John Cleese, Eric Idle, Michael Palin, Terry Jones e Graham Chapman (1941-1989) – e um norte-americano, Terry Gilliam. Todos cursaram universidades prestigiosas: Jones e Palin se conheceram em Oxford; Cleese, Chapman e Idle, em Cambridge. Gilliam se formou em Ciências Políticas no Occidental College, em Los Angeles, e conheceu John Cleese em Nova York, quando Cleese participava da turnê de um grupo estudantil de teatro de Cambridge.
Depois de um tempo atuando e escrevendo para grupos de teatro de Oxford e Cambridge, os integrantes do que viria a ser o Monty Python passaram por empregos de redatores e roteiristas em programas de rádio e TV, até receberem a incumbência da BBC de criar um novo programa humorístico para as noites de domingo.
O primeiro episódio estreou às 23h de domingo, 5 de outubro de 1969, e foi um desastre de audiência. Em reuniões internas, executivos da BBC classificaram o programa de “nojento” e “acima do limite do aceitável”. Por pouco, “Flying Circus” não foi cancelado depois de apenas um episódio. Mas a emissora insistiu, e o público inglês começou a captar a estranheza do programa.
Os comediantes reconhecem a ousadia da BBC. No livro de entrevistas “Monty Python, Uma Autobiografia”, Terry Jones diz: “A BBC orgulhosamente não só ignorava os roteiros como não conferia os episódios antes de serem transmitidos (…) Nenhuma outra organização teria deixado o Python impune”. Michael Palin completa: “Dava para tirar proveito desse nível de audácia e liberdade. Lembro que fazia muito bem para o nosso estado de espírito, era o que queríamos fazer há anos. Nem tudo funcionou, mas o sentimento geral era de que dava para imaginar de tudo, de que quase toda ideia era factível. Não havia regras nem limites”.
“Flying Circus” era diferente de tudo que se tinha visto em TV até então. Humor daquele tipo, bizarro e surrealista, já existia no rádio, especialmente num programa genial da BBC chamado “The Goon Show”, com Spike Milligan e Peter Sellers, que durou de 1951 a 1960 e influenciou muito a trupe dos Pythons. Mas ninguém havia levado essa estranheza para a TV daquela forma.
O programa era tão diferente que telespectadores ligavam para a BBC reclamando de cortes que o tornavam ininteligível. Mas o programa era assim mesmo, com um quadro emendado no outro, e muitos deles sem conclusão. Uma cena de tribunal poderia ser interrompida pela entrada de Genghis Khan ou Napoleão. Nada era estranho demais para o Monty Python.
Mas até a ousadia cansa, e os integrantes da trupe, especialmente John Cleese, logo perceberam que estavam se repetindo. Cleese abandonou “Flying Circus” depois da terceira temporada, e a quarta teve apenas seis episódios. Mas o fim do programa de TV incentivou o sexteto a investir no cinema, o que resultou em três comédias extraordinárias: “Monty Python e o Cálice Sagrado” (1975), “A Vida de Brian” (1979) e “O Sentido da Vida” (1983). Os filmes também entraram para o acervo na Netflix.
CURIOSIDADES SOBRE O MONTY PYTHON:
A palavra “spam”, referindo-se a lixo virtual, foi inspirada por um quadro clássico do Monty Python em que um casal (Eric Idle e Graham Chapman) discute com a dona de um bar (Terry Jones) que só quer servir “spam” (uma espécie de carne de porco enlatada).
Quando Terry Gilliam soube que a BBC estava prestes a apagar as fitas originais do programa para reutilizá-las, comprou as fitas com seu próprio dinheiro.
Um dos maiores fãs do Monty Python era George Harrison. O ex-Beatle virou grande amigo de Eric Idle e ajudou a financiar a produção do longa-metragem “A Vida de Brian” (1979).
Um dos quadros mais famosos do grupo é o do “Papagaio Morto”, em que John Cleese volta a uma loja de animais para reclamar que o dono do lugar (Michael Palin) o vendeu um papagaio morto. O texto ficou tão famoso que até a Primeira-Ministra Britânica, Margaret Thatcher, não exatamente um ícone da comédia, replicou trechos inteiros num discurso em 1990, ironizando o pássaro do logotipo do Partido Liberal Democrata.
Em 1985, o paleontólogo australiano Mike Archer descobriu o fóssil de uma cobra gigante de sete metros e 15 milhões de anos. Grande fã do Monty Python, Archer o batizou de Montypythonoides riversleighensis.
Um ótimo sábado a todas e todos!
4 comentários em "Do Arquivo: Monty Python é o auge do humor na TV"
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George Harrison hipotecou sua mansão para financiar “A Vida de Brian”, e até fez uma ponta no filme, como repórter, se não me engano…
Em 2002, o Monty Python se reuniu (com Tom Hanks no lugar do Graham Chapman) para homenagear o George no “Concert For George”, show tributo organizado pelo Eric Clapton.
O episódio do quiz comunista é impagável. Anos estes lokos https://m.youtube.com/watch?v=xqZ5h-Zohlk
Minha caixa de DVDs com todos os episódios do Python é dos maiores tesouros do meu pequeno acervo. Gênios.
Lembrei da história do debate na teve britânica entre John Cleese e Michael Palin de um lado, o jornalista convertido ao catolicismo Thomas Malcolm Muggeridge e o bispo Mervyn Stockwood do outro, sobre a polêmica besta que envolveu o filme A Vida de Brian.