Do Arquivo: Max Martin, o mago do pop
Publicado originalmente em 2015
Ontem foi lançado nos Estados Unidos um livro que promete ser formidável: “The Song Machine: Inside the Hit Factory”, de John Seabrook, repórter da revista “The New Yorker”. O livro fala da música pop dos últimos 20 anos e do sucesso de artistas inventados em laboratório como Britney Spears, Beyoncé, Rihanna, Katy Perry e Kelly Clarkson. Mas os grandes personagens da narrativa são nomes pouco conhecidos do grande público: Max Martin, Dr. Luke, Stargate e Ester Dean, bruxos de estúdio que inventaram esses Frankensteins sonoros. Já encomendei meu exemplar e escreverei sobre o livro aqui no blog.
Semana passada, John Seabrook publicou um aperitivo no site da “New Yorker”: um curto perfil de um sueco de 44 anos chamado Karl Martin Sandberg, mais conhecido por Max Martin. Escreve Seabrook: “Martin é o Cyrano de Bergerac da cena pop atual, o poeta escondido embaixo da sacada, sussurrando as melodias que fizeram as carreiras de muita gente: ‘Baby One More Time’, de Britney Spears, ‘Since U Been Gone’, de Kelly Clarkson, e ‘I Kissed a Girl’, de Katy Perry. As músicas que ele coescreveu ou coproduziu para Taylor Swift, incluindo seus oito sucessos mais recentes, a transformaram de uma cantora popular em uma popstar capaz de lotar estádios (a recente turnê ‘1989’já faturou 150 milhões de dólares)”.
Martin, um fã de pop dos anos 80 (Depeche Mode, Bangles) e do rock pesado do Kiss, é responsável por 21 músicas que lideraram a parada da revista “Billboard”. Seabrook diz que o som característico das produções de Martin é uma “mistura dos acordes e texturas pop do ABBA, refrãos do rock de arena dos anos 80 e grooves de R&B norte-americano dos anos 90”.
Outro dado impressionante do artigo: segundo pesquisas, 25% das músicas que chegaram ao Top 10 da “Billboard” em 2014 foram compostas ou produzidas por suecos como Max Martin, Andreas Carlsson, Jörgen Elofsson e Per Magnusson. Um número incrível para um país de apenas 10 milhões de habitantes.
O que leva a uma questão que sempre intrigou fãs de música pop: como a Suécia pode ter tantas bandas e produtores de sucesso? Desde os anos 70, a lista só cresce: ABBA, Roxette, Europe, Ace of Base, Cardigans, Robyn e, mais recentemente, Swedish House Mafia, Icona Pop e Avicci.
Seabrook tem explicações muito interessantes: em primeiro lugar, ele credita um eficiente e abrangente sistema de educação musical em escolas públicas (o próprio Max Martin é um exemplo, tendo estudado diversos instrumentos na escola).
Em segundo lugar, diz Seabrook, as canções folclóricas e hinos suecos trazem elementos melódicos simples e muito “apelativos” (o autor diz que até o hino nacional sueco lembra uma música pop).
Some-se a isso o altíssimo número de suecos que falam inglês (cerca de 90% da população), uma xenofilia explícita, especialmente em relação a culturas anglo-americanas, o grande interesse da população por tecnologia e a extraordinária infraestrutura de Internet do país, e você tem condições ideais para o surgimento de muitos profissionais da música.
Mas Seabrook vai além: segundo ele, embora a grande maioria dos suecos fale inglês, muitos o fazem de maneira simplória, sem arriscarem metáforas, duplos sentidos ou ironias. Isso faz com que as letras produzidas soem muito simples, quase infantis, o que pode explicar sua acessibilidade. De fato, toda letra de música do ABBA parece ter sido escrita por um adolescente.
“Suecos são mais inclinados a encaixar as sílabas nas melodias sem se preocupar se os versos fazem algum sentido”, escreve Seabrook. Esse método foi aperfeiçoado cientificamente por Max Martin, que tem uma grande equipe para auxiliá-lo no que chama de “matemática melódica”, um método de construção de letras em cima da base sonora.
Resumindo: os hinos pop adolescentes cantados por Katy Perry e Taylor Swift não refletem os anseios e desejos das teenagers americanas, mas versões desses anseios, imaginados por um sueco quarentão que mais parece cantor de banda de metal farofa. Isso é pop.
Um ótimo sábado a todas e todos!
6 comentários em "Do Arquivo: Max Martin, o mago do pop"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
Sim. Claro.
Essa semana no twiter (agora X), o Álvaro Pereira Jr. estava reclamando que não pode comentar sobre filme de boneca, sobre o Nolan, sobre o político e etc. Eu lembrei da vez que você fez uma análise do Led Zeppelin e disse que o Jimmy Page montou o Led Zeppelin como uma boy band. Lembro de ter ficado furioso com essa análise. Acho que você estava no R7. Eu fiquei uns dois dias indignado. Depois desses dois dias resolvi ler sua coluna novamente. Nessa segunda leitura eu compreendi o que era óbvio. Page montou a banda segundo preceitos musicais. Eram músicos extraordinários. A biografia do Led Zeppelin escrita pelo Mick Wall confirma isso. Ele não fala em boy band mas confirma que o Jimmy Page escolheu a dedo os caras. Era uma polemica vazia. Aliás, o Regis Tadeu gostou tanto dessa coluna que recentemente falou que o Angra foi formado como uma boy band. hahahahaha. Um abraço.
Sim, mas foi mesmo montado igualzinho a uma boy band, não?
Então Barcinski, sobre o Angra como banda boy band acredito parcialmente na visão do Régis Tadeu (embora o Rafael Bittencourt, guitarrista da banda, discorde desse ponto).
Concordo em partes porque o Angra iniciou sua trajetória com 3 integrantes (Andre Matos, Rafael Bittencourt e Andre Bastos), foi adicionado Marco Antunes (baterista) e Luis Mariutti (baixista), o Andre Bastos (guitarra) saiu da banda e entrou Andre Hernandes, que também saiu (os dois por não se adequarem ao virtuosismo exigido pela gravadora japonesa da banda a JVC), daí entra o Kiko Loureiro e eles vão gravar seu primeiro disco, o Marco Antunes e o Rafael Bittencourt não conseguem gravar suas partes, mas só o baterista é mandado embora (o Rafael fica por ser um dos compositores principais), um músico de estúdio grava a bateria e o Kiko grava as guitarras do Rafael, depois entra o Ricardo Confessori para a banda para tocar na turnê e vira membro.
Então concordo com o Régis do Angra ser uma boy band, mas no sentido não de ter caras bonitos e tudo mais, mas caras que se adaptassem ao que era exigido sonoramente pela gravadora JVC e o empresário da banda para fazerem sucesso.
Obrigado pelo esclarecimento, não conhecia a história da banda.
Sim, a história da banda é uma gangorra de sucesso e situações absurdas em quantidades cavalares, que beira ao surrealismo, mas mostra como o metal brasileiro é nas suas entranhas.