Do Arquivo: Adeus a Omar Sharif
Omar Sharif, que morreu dia 10 de julho de 2015, aos 83 anos, surgiu na vida de muitos cinéfilos como uma miragem. A mesma miragem que Lawrence, interpretado por Peter O’Toole em “Lawrence da Arábia”, julgava estar vendo no deserto, quando um pequeno ponto surgiu no horizonte. O ponto se aproximou. Era Sharif, montado num camelo e com o rosto coberto por um turbante negro. Nascia um astro.
A ascensão de Omar Sharif em Hollywood durou pouco mais de seis anos. Nesse período, fez três filmes de grande sucesso – “Lawrence da Arábia” (1962), “A Queda do Império Romano” (1964) e “Funny Girl” (1968) – e um, “Doutor Jivago” (1965), que está entre as dez maiores bilheterias da história do cinema. Em números ajustados pela inflação, “Jivago” ficaria em oitavo lugar, espremido entre “Tubarão” (1975) e “O Exorcista” (1973).
Nesse período, o egípcio Sharif foi estereotipado como o bonitão exótico de dos olhos negros e sorriso largo. Para Hollywood, ele virou um “estrangeiro”, que poderia fazer personagens de quaisquer raças e origens. Ele interpretou mexicanos, russos e até alemães. Fez o guerreiro mongol Genghis Khan e o guerrilheiro argentino Che Guevara. Contanto que o personagem tivesse sotaque, os produtores estavam felizes.
No Egito, essa “internacionalização” de Omar Sharif não foi muito bem aceita. Quando ele, um cristão que se convertera ao Islã no início dos anos 1950 para casar com a atriz muçulmana Faten Hamama, fez par romântico com Barbra Streisand em “Funny Girl” (1968), muitos egípcios o criticaram por beijar uma judia conhecida por suas posições pró-Israel.
Nascido Michel Demitri Chalhoud em Alexandria, Sharif teve uma vida confortável e privilegiada. O pai era um rico comerciante do setor madeireiro e amigo do Rei Farouk. Sharif formou-se em matemática e física na Universidade do Cairo e depois foi estudar arte dramática na Royal Academy, em Londres.
Começou a carreira no cinema egípcio nos anos 1950, e já era conhecido no país quando foi convidado pelo cineasta inglês David Lean para interpretar Sherif Ali em “Lawrence da Arábia”, depois que a primeira opção de Lean, o francês Alain Delon, recusou o papel ao saber que teria de atuar com lentes de contatos marrons.
“Lawrence” e “Jivago” tornaram Sharif um astro do cinema, mas ele nunca conseguiria se livrar do estigma do galanteador exótico, e a carreira sofreu. No início dos anos 2000, Sharif disse a um jornalista australiano: “Passei os últimos 25 anos fazendo porcarias”. Para piorar, Sharif era viciado em jogo e corridas de cavalo, e aceitava qualquer papel para financiar o vício.
Mas nem todos os filmes eram “porcarias”. Em 2003, fez sucesso na Europa com “Monsieur Ibrahim”, filme que lhe valeu um César, espécie de Oscar do cinema francês, e um prêmio no Festival de Veneza. Foi o último grande papel do eterno galã.
Publicado originalmente em 12 de julho de 2015
10 comentários em "Do Arquivo: Adeus a Omar Sharif"
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Esse lance do cara ter de fazer filmes ruins pra pagar as contas é triste, mas as vezes rende umas pérolas do humor involuntário. Não há como não se divertir com o hilário “Che”. Na cena que o Che Guevara de Omar Shariff arranca um dente do Fidel Castro interpretado por Jack Palance dá impressão que os dois estão prontos pra cair na gargalhada.
Preciso rever esse abacaxi!
O Omar Sharif nessa foto tá a cara do Oscar Isaac…
Nenhuma CGI consegue chegar perto da beleza visual de Lawrence da Arábia. André, quais os seus 5 filmes preferidos do Sharif?
Acho que não tem muito como fugir de “Lawrence”, “Jivago”, “Funny Girl” e “A Noite dos Generais”. Mais recentemente, aquele “Monsieur Ibrahim” é bem legal.
Muito obrigado!
Pô Xará, realmente os filmes que mencionou são fantásticos. Grande atores das antigas acabaram sucumbindo a papéis estranhos a partir dos anos 80. Um dos primeiros filmes que vi quando criança foi “no calor da noite” e aquele xerifão com cara de mau, mas depois foi melhorando, me impressionou, Rod Steiger.!! Depois fez algumas bombas como coadjuvante a partir dos anos 80. O último filme que vi com o Omar foi o simpático “hidalgo”. Bom fds!
Entrevistei o Steiger nos anos 90 quando ele fez uma porcaria com Stallone, nem lembro o nome.
Caramba, que demais!! O filme é o especialista, com a Sharon Stone e o irmã canastrão da Julia Roberts rsrsrs. Outro que lembrei agora foi o James Caan em “queima de arquivo” com o Schwarzenegger.
Isso, uma bomba!