mar/2023

Do Arquivo: “A Qualquer Custo” revive o grande cinema dos 70

Por André Barcinski

Do Arquivo: “A Qualquer Custo” revive o grande cinema dos 70

Por André Barcinski

Publicado originalmente em 2018

Entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1980, o cinema norte-americano viveu uma fase excepcional. Diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Sidney Lumet fizeram dramas, filmes policiais e “thrillers” detetivescos que capturaram o espírito conturbado da época e revelaram atores como Al Pacino, Dustin Hoffman, Robert De Niro e Gene Hackman, anti-heróis que fugiam dos estereótipos dos galãs hollywoodianos que os precederam. “A Qualquer Custo” (que está na Netflix e Now) lembra os filmes daquela época.

O filme é um faroeste moderno: no Texas, os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster) realizam uma série de assaltos a pequenos bancos. Os crimes atraem a atenção dos Texas Rangers, uma força policial civil texana, e dois oficiais são destacados para o caso: Marcus (Jeff Bridges), um veterano que está prestes a se aposentar, e Alberto (Gil Birmingham), um descendente de índios e alvo habitual das piadas politicamente incorretas de seu parceiro Marcus.

A ação do filme se divide entre essas duas duplas. O diretor escocês David Mackenzie gasta um bom tempo explorando as relações entre os irmãos Toby e Tanner e os colegas Marcus e Alberto, e isso dá ao filme uma profundidade emocional que o diferencia de um “thriller” policial qualquer. Todos os personagens são interessantes e complexos.

A relação entre os dois irmãos é especialmente rica: Toby é o mais cerebral e responsável, enquanto Tanner, recém-saído da prisão, é explosivo e violento. O roteiro de Taylor Sheridan, autor do ótimo “Sicario” (2015), vai revelando, pouco a pouco, as dolorosas histórias da família, que ajudam a compreender – compreender, não justificar – a opção dos irmãos pela vida de crimes.

O elenco é de primeira, com destaque para dois atores excepcionais de diferentes gerações: Jeff Bridges, 67, e Ben Foster, 36. O primeiro é um remanescente da turma de Pacino e De Niro, cuja carreira começou justamente naquele período de ouro do cinema norte-americano; já Foster tem se destacado em papéis coadjuvantes, nos quais, invariavelmente, rouba o filme. Foi assim como o psicopata de “Alpha Dog” (2006), o bandoleiro de “Os Indomáveis” (2007) e, especialmente, no drama “O Mensageiro” (2009), em que interpreta um militar cuja missão é avisar as famílias de soldados mortos em combate.

Voltando ao cinema dos anos 70: os grandes filmes do período – “Um Dia de Cão” (Sidney Lumet, 1975), “A Conversação” (Coppola, 1974), “A Trama” (Alan J. Pakula, 1974), “Taxi Driver” (Scorsese, 1976) – conseguiam, mesmo em pequenas histórias pessoais, explorar o clima e as circunstâncias de suas épocas. Era um cinema político, mas não panfletário. Sem querer comparar a qualidade de “A Qualquer Custo” com a desses filmes clássicos, é evidente que David Mackenzie conseguiu contar uma história que diz muito sobre a América dos anos 2010, com a decadência financeira do interior dos Estados Unidos, o difícil relacionamento do país com sua população indígena e a desesperança de muitas famílias arruinadas pela crise de 2008. Mas quem preferir ver o filme como um simples faroeste vai se divertir: as cenas de tiroteios e perseguições de carro são muito bem feitas.

“A Qualquer Custo” foi indicado a quatro Oscar – filme, ator coadjuvante (Bridges), edição e roteiro original – todos merecidos. Ficaram faltando só as indicações de David Mackenzie a melhor diretor e, principalmente, a de Ben Foster como ator coadjuvante. Ficam para a próxima.

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