Do Arquivo: “A Qualquer Custo” revive o grande cinema dos 70
Publicado originalmente em 2018
Entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1980, o cinema norte-americano viveu uma fase excepcional. Diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Sidney Lumet fizeram dramas, filmes policiais e “thrillers” detetivescos que capturaram o espírito conturbado da época e revelaram atores como Al Pacino, Dustin Hoffman, Robert De Niro e Gene Hackman, anti-heróis que fugiam dos estereótipos dos galãs hollywoodianos que os precederam. “A Qualquer Custo” (que está na Netflix e Now) lembra os filmes daquela época.
O filme é um faroeste moderno: no Texas, os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster) realizam uma série de assaltos a pequenos bancos. Os crimes atraem a atenção dos Texas Rangers, uma força policial civil texana, e dois oficiais são destacados para o caso: Marcus (Jeff Bridges), um veterano que está prestes a se aposentar, e Alberto (Gil Birmingham), um descendente de índios e alvo habitual das piadas politicamente incorretas de seu parceiro Marcus.
A ação do filme se divide entre essas duas duplas. O diretor escocês David Mackenzie gasta um bom tempo explorando as relações entre os irmãos Toby e Tanner e os colegas Marcus e Alberto, e isso dá ao filme uma profundidade emocional que o diferencia de um “thriller” policial qualquer. Todos os personagens são interessantes e complexos.
A relação entre os dois irmãos é especialmente rica: Toby é o mais cerebral e responsável, enquanto Tanner, recém-saído da prisão, é explosivo e violento. O roteiro de Taylor Sheridan, autor do ótimo “Sicario” (2015), vai revelando, pouco a pouco, as dolorosas histórias da família, que ajudam a compreender – compreender, não justificar – a opção dos irmãos pela vida de crimes.
O elenco é de primeira, com destaque para dois atores excepcionais de diferentes gerações: Jeff Bridges, 67, e Ben Foster, 36. O primeiro é um remanescente da turma de Pacino e De Niro, cuja carreira começou justamente naquele período de ouro do cinema norte-americano; já Foster tem se destacado em papéis coadjuvantes, nos quais, invariavelmente, rouba o filme. Foi assim como o psicopata de “Alpha Dog” (2006), o bandoleiro de “Os Indomáveis” (2007) e, especialmente, no drama “O Mensageiro” (2009), em que interpreta um militar cuja missão é avisar as famílias de soldados mortos em combate.
Voltando ao cinema dos anos 70: os grandes filmes do período – “Um Dia de Cão” (Sidney Lumet, 1975), “A Conversação” (Coppola, 1974), “A Trama” (Alan J. Pakula, 1974), “Taxi Driver” (Scorsese, 1976) – conseguiam, mesmo em pequenas histórias pessoais, explorar o clima e as circunstâncias de suas épocas. Era um cinema político, mas não panfletário. Sem querer comparar a qualidade de “A Qualquer Custo” com a desses filmes clássicos, é evidente que David Mackenzie conseguiu contar uma história que diz muito sobre a América dos anos 2010, com a decadência financeira do interior dos Estados Unidos, o difícil relacionamento do país com sua população indígena e a desesperança de muitas famílias arruinadas pela crise de 2008. Mas quem preferir ver o filme como um simples faroeste vai se divertir: as cenas de tiroteios e perseguições de carro são muito bem feitas.
“A Qualquer Custo” foi indicado a quatro Oscar – filme, ator coadjuvante (Bridges), edição e roteiro original – todos merecidos. Ficaram faltando só as indicações de David Mackenzie a melhor diretor e, principalmente, a de Ben Foster como ator coadjuvante. Ficam para a próxima.
7 comentários em "Do Arquivo: “A Qualquer Custo” revive o grande cinema dos 70"
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Já vi. Bom filme.
Baita filme! Até o Chris Pine está bem.
Muito. Elenco todo tá muito bom.
Barça, filmão. Assisti quando você soltou a matéria original, reassisti agora. Isso me fez pensar: que tal uma matéria sobre as ótimas trilhas sonoras que o Nick Cave fez (já que ele fez a desse filme)? Abração
Adoro esse filme!
Esse é um filmaço. Gosto bastante do Ben Foster. Recentemente assisti “The survivor”, luta pela vida, em que ele interpreta Harry Haft, um boxeador que sobreviveu nos campos de concentração lutando boxe contra outros prisioneiros, se é que podemos chamar de boxe. depois virou lutador profissional. Bom filme.
PS. Putz, hoje perdemos um dos melhores coadjuvantes do cinema, Tom Sizemore.
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