set/2024

Dez discos clássicos de samba pra esquecer o Rock in Rio

Por André Barcinski

Dez discos clássicos de samba pra esquecer o Rock in Rio

Por André Barcinski

O Rock in Rio foi cheio de momentos constrangedores, mas um dos mais tristes foi a “homenagem” a Alcione, que completava 50 anos de carreira. Botaram a Marrom para cantar com vários convidados – Maria Rita, Diogo Nogueira, Péricles, Mart’nália e Majur – acompanhada da Orquestra Sinfônica Brasileira.

De onde surgiu essa mania irritante de botar orquestra pra tocar música de raiz? Pra “sofisticá-la”? Como se o samba, ou qualquer outro gênero popular brasileiro, precisasse ser adernado com violinos e sopros para poder ser apreciado? Pra piorar, o show foi aberto por uma bailarina clássica dançando “Não Deixe o Samba Morrer”. De novo: pra quê? Foi o ápice da breguice do Rock in Rio e um constrangimento para Alcione, a bailarina e a OSB.

Para tentar esquecer aquelas imagens, aqui vai uma lista de dez de meus discos prediletos de samba. Esqueci algum?

Cartola (1976) Um dos mais geniais compositores do Brasil, Cartola tinha 66 anos quando lançou o primeiro LP como intérprete. Este é seu segundo disco e tem alguns de seus maiores clássicos, como “O Mundo é um Moinho”, “As Rosas Não Falam” e “Aconteceu”.

Dona Ivone Lara – Sorriso Negro (1981) Dona Ivone (1922-2018) foi uma pioneira do samba carioca, compositora fora da curva e a primeira mulher a assinar um samba-enredo e a quebrar o machismo então reinante nas escolas de samba, que não tinham mulheres em suas alas de compositores. Esse LP, o terceiro de sua carreira, traz duas canções que se tornariam marcos de seu repertório: a faixa-título, “Sorriso Negro”, e “Alguém me Avisou” (“Foram me chamar ; eu estou aqui, o que é que há?”).

Nelson Cavaquinho (1973) Nelson tinha voz áspera, resultado de incontáveis noites em claro em botecos por aí, e tocava violão apenas com dois dedos. Mas ninguém – ninguém mesmo – cantava suas músicas com a mesma emoção. Esse LP traz canções de um lirismo sombrio, como “Juízo Final”, “Folhas Secas”, “A Flor e o Espinho”, “Rugas” e “Quando Eu Me Chamar Saudade”.

Zeca Pagodinho (1986) Numa época em que muitos dos grandes nomes do samba já se foram, vale muito a pena reouvir o primeiro disco desse cara que mantém viva a tradição. O LP tem canções famosas do repertório do “Prefeito de Xerém”, como “SPC”, “Quando Eu Contar (Iaiá)”, “Coração em Desalinho”, “Judia de Mim” e “Brincadeira tem Hora”.

Baden Powell e Vinicius de Moraes: Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius (1966) Baden Powell (1937-2000) e Vinícius de Moraes (1913-1980) se juntam ao fabuloso Quarteto em Cy e ao maestro Guerra Peixe nessa celebração de temas afro-brasileiros. “Canto de Ossanha”, “Canto de Xangô” e “Tempo de Amor” são obras-primas da música brasileira.

Clementina de Jesus, Pixinguinha e João da Baiana: Gente da Antiga (1968) Em 1968, o compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho reuniu três lendários veteranos dos ritmos afro-brasileiros, Clementina, então com 67 anos, Pixinguinha, 71, e João da Baiana, 81, e gravou esse álbum histórico, que recriava o repertório e arranjos dos primórdios do samba no Rio de Janeiro, Essencial é pouco.

Paulinho da Viola: Nervos de Aço (1973) Difícil escolher apenas um LP na discografia de Paulinho da Viola, mas esse disco é meu favorito. Além de maravilhas compostas pelo próprio compositor, como “Não Leve a Mal” e “Roendo as Unhas”, traz versões lindas de Lupicínio Rodrigues (“Nervos de Aço”) e da dupla Cartola e Carlos Cachaça (“Não Quero Mais Amar a Ninguém”). Bonito demais.

Candeia – Axé: Gente Amiga do Samba (1978) Candeia (1935-1978) já era um nome muito respeitado do samba em 1965 e dividia seu tempo entre a música e o trabalho como policial quando, durante uma batida de trânsito, levou um tiro e ficou paralisado da cintura para baixo. Entre 1970 e 1978, lançou cinco LPs em que resgatava o samba de raiz e prestava homenagens aos pioneiros do gênero. Este disco é seu último e foi lançado dias após a morte do cantor e compositor.

Aracy de Almeida Apresenta Sambas de Noel Rosa (1954) Quem admira a obra de Noel Rosa custa a crer que o genial compositor morreu com apenas 26 anos, em 1937. A cantora Aracy de Almeida conheceu Noel e virou sua maior intérprete. Esse LP extraordinário reúne alguns dos melhores sambas do gênio da Vila Isabel – “Feitiço da Vila”, “Não Tem Tradução”, “Palpite Infeliz”, “Último Desejo” na voz de Aracy, que no fim da vida ficou conhecida como jurada do programa de Silvio Santos.

Clara Nunes – Claridade (1975) Difícil aceitar a morte tão prematura e estúpida dessa extraordinária cantora mineira que se foi em 1983, aos 40 anos, por complicações alérgicas depois de uma simples operação de varizes. “Claridade” é um de seus melhores discos e traz canções como “O Mar Serenou” (Candeia), “Juízo Final” (Nelson Cavaquinho) e “Que Seja Bem Feliz” (Cartola).

Um ótimo dia a todas e todos!

28 comentários em "Dez discos clássicos de samba pra esquecer o Rock in Rio"

  • Fantástica lista. No meu gosto pessoal eu não tiraria nada e acrescentaria algum da Beth Carvalho (que eu já escutei o Anton Newcombe tocar no seu programa de rádio!) e o álbum de 1986 de um sambista meio esquecido, o grande Almir Guineto.

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    Sensacionais dicas André. Estou ouvindo todas as suas dicas da discografia do Lou Reed e estou absolutamente encantado com a genialidade do cronista de Nova York, incluindo a experimental fase Velvet. Depois vou me maravilhar nesse fabuloso universo. Valeu e forte abraço.

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    Eu incluiria “Alô Malandragem, Maloca o Flagrante!” do Bezerra da Silva por razões muito pessoais – tinha uma fita cassete que tocava sem parar no carro do meu pai.

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    Boa Tarde André. Novamente, parabéns pela organização do Massarifest. Ver o Acid Mothers ao vivo é uma experiência única e fantástica (foi demais o Makata no final do show tocando com a bunda!!!). Quanto ao post, acrescentaria o Tabua de Esmeralda do Jorge Ben, uma obra prima de um compositor genial. Vida longa ao site e ao seu canal!!

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    Meu filho de 6 anos adora samba, Adoniran Barbosa , Martinho da Vila, Cartola, Elis, mas ele é fissurado pela Clara Nunes, fomos na peça “A Tal Guerreira” com a Vanessa da Mata e ele adorou.
    Salve o Samba!!

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    Salve, Barça!
    Boa lista, se pudesse acrescentaria dois que acho “clássicos”: O “Wilson, Geraldo e Noel” do João Nogueira e “Ganha-se pouco, mas é divertido”, no qual a maravilhosa Cristina Buarque canta Wilson Batista, na minha modesta opinião, o maior compositor de sambas que já pisou por estas sofridas terras.
    Quanto ao Paulinho, realmente é difícil escolher um só. Fico com o “Dança da Solidão”
    Abraço e saudações tricolores!

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    Também fiquei revoltado com esse show da Alcione com orquestra e bailarina, larguei na segunda música, após o Diogo Nogueira começar a cantar em um tom muito mais baixo (e forçado) do que devia.

    E a lista ficou demais! Pra virar 15, adicionaria:
    – Moreira da Silva – “Conversa de Botequim” (1965):
    – Zé Keti – “Sucessos” (1967);
    – Velha guarda da Portela’ – Homônimo (1970);
    – Martinho da Vila – “Origens” (1973);
    – Beth Carvalho – “Toque de Malícia” (1984).

    A historia do Samba carece de exposição e reconhecimento, não de fusões forçadas ‘pra inglês ver’.

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    André, essa lista das 10 obras-primas do Samba está sensacional, e escolher só dez realmente é bem difícil, pois muita coisa maravilhosa ficou de fora!!!
    E essa mania de colocarem orquestra sinfônica em tudo quanto é ritmo popular é uma praga que assola já faz um tempo a Música brasileira e totalmente desnecessária, como você disse, pois o samba, o funk, o sertanejo e até mesmo o rock, não precisam dessa validação erudita para terem o seu devido valor reconhecido!!!!

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    Fala Barcinsky, Nessa Lista só há clássicos e eu indicaria também a Voz do Morro (1965) e Samba na Madrugada (1966) que resumem bem o período do Bar Zicartola com a turma toda reunida em clima de roda de samba, abs

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    Lista fantástica. Uma sugestão de programa de rádio: Clube do Samba. Todos os domingos do meio dia às 14:00 na Rádio FM Cultura 107,7. Rádio pública aqui de Porto Alegre. Consegue ouvir em qq aplicativo de rádios online. Grande abraço.

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    Bom dia barça. Um assunto sem muito a ver com o texto mas que entra nessa questão de rock in rio e shows.

    Você tem algum texto sobre essa questão do playback na música? Lembro que algum tempo atrás o rick beato fez um vídeo falando que basicamente todo mundo hoje usa coisas pré gravadas com exceção de alguns artistas pontuais.
    E imagino que você como produtor de shows deve ver nos bastidores quem toca “de verdade” e quem mete o miguezao né.

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    Grande lista! Esse disco do Zeca de 86 é inacreditável. Parece uma coletânea. Eu ainda acharia um espaço pro “Canta, Canta, Minha Gente” do Martinho. Ainda ia faltar João Nogueira, Bezerra…

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    “Axé: Gente Amiga do Samba”, é um dos meus preferidos da vida !
    Sua lista está bem representativa.
    Eu deixaria como dica pessoal o fantástico “Terreiro” (1980), do saudoso Monarco (1933-2021). Esse álbum, por um absurdo qualquer, não está disponível nos serviços de streaming.

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    Outros muito bons são 2 que completam 50 anos agora: Martinho da Vila (1974) com “canta canta, minha gente”, “disritmia” e Originais do Samba – Pra que tristeza (1974): “Tragédia no fundo do mar – o assassinato do camarão” e “Saudade e flores”.
    Um abraço, André.

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    Salve Barciski,
    Que show essa lista hein? Já até preparei uma playlist com os discos pra ouvir preparando um almoço especial no domingo.
    Quanto ao sintomático Rock in Rio, diria o Coronel Kurtz: the horror, the horror…

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