De Sica e Ozu: o cinema aborda a velhice
Em 1948, Vittorio De Sica lançou “Ladrões de Bicicleta” e mostrou que um filme poderia ser político abordando apenas conflitos cotidianos. O filme de De Sica não mostrava nenhuma cena de combate, mas revelava o efeito da guerra na vida de pessoas comuns.
Quatro ou cinco anos depois, dois grandes filmes, realizados em continentes e condições diferentes, abordavam um tema importante: como a Segunda Guerra abalou as relações familiares e, em especial, como afetou a vida de pessoas idosas. E ambos estão no Youtube, em cópias boas e legendadas em português.
O primeiro é “Umberto D”, do mesmo Vittorio De Sica. Realizado em 1952, mostra o cotidiano de um idoso (Carlo Battisti) que tenta sobreviver em Roma em meio à grave crise econômica do pós-guerra.
O segundo é “Era Uma Vez em Tóquio” (1953), de Yasujiro Ozu, que conta a história de um casal de idosos que mora numa área litorânea do Japão e vai a Tóquio visitar os filhos e a nora, que ficou viúva quando o marido – filho do casal – desaparece na Guerra do Pacífico.
Estilisticamente, os dois filmes não poderiam ser mais diferentes. De Sica, como um dos principais nomes do neorrealismo no cinema, filmou “Umberto D” majoritariamente em locações reais e usando atores não-profissionais. O filme tem uma fotografia linda, mas uma câmera fluida, na mão, e traz aquele visual quase documental, tão comum aos filmes italianos do período.
Já “Era Uma Vez em Tóquio” periga ser o extremo do formalismo estético de Ozu. Quase inteiramente filmado em estúdio, demonstra a obsessão do cineasta por quadros estáticos e milimetricamente planejados. A câmera não mexe, e toda imagem traz linhas verticais (portas, janelas, chaminés) e horizontais (oceanos, horizontes, muros, pontes) que cortam a imagem de um lado a outro. Cada fotograma de um filme de Ozu é uma obra de arte.
Cada qual à sua maneira, os dois filmes lidam com idosos que parecem perdidos em meio a um mundo em que eles deixaram de ser prioridade. Umberto D. é um homem completamente esquecido e abandonado, um estorvo para a sociedade, e o casal de Ozu vira um problema para os filhos, todos muito ocupados e que não têm paciência para recebê-los (exceção para a gentil nora, ainda perdida com o sumiço do marido na guerra).
São dois filmes diferentes, mas irmãos, obras de dois cineastas extraordinários. Recomendo demais que todos assistam.
Aqui está “Umberto D.”
E aqui, “Era Uma Vez em Tóquio”:
Um ótimo dia a todas e todos.
24 comentários em "De Sica e Ozu: o cinema aborda a velhice"
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Um ótimo sobre sobre velhice e, “Lucky” com o mestre Henry Dean Stanton. Dirigido pelo John Lynch. Um filme muito comovente, a cena do Stanton cantar uma música mexicana me emocionou muito.
Um dos melhores textos seus já escritos, maravilhoso
Que legal que gostou!
Creio que “Viver”, do Kurosawa, comporia uma bela trilogia com esses dois filmes.
Tem toda razão!
André, e falando em “cinema de arte”, você já assistiu ao filme da Barbie?
Hahahahahaha, não tive a felicidade.
Aquele cena do Umberto D. em que ele ensaia em pedir esmolas é Chaplin total.
Ps: faço coro ao colega Luiz Soares e gostaria de saber se é possível disponibilizar a aula de de introdução ao documentário de ontem.
Boa noite, acabei de enviar o link da aula de ontem, espero que gostem!
Não vejo hoje em dia cineastas capazes de realizar obras – primas desse tamanho… Você acha que existe algum Diretor contemporâneo neste patamar, André?
Acho que Mike Leigh, Haneke, os irmãos Dardenne e Ken Loach são nomes fantásticos ainda.
Falando em Mike Leigh, estreiou “Verdades e Mentiras” no Mubi esta semana. Merecia um post.
Eu vi que entrou, muito legal, vale sim.
Ótimo texto!. Ladrões de Bicicleta é um dos meus filmes preferidos, fiquei curioso pra assistir mais da obra do De Sica. Tem um canal no YouTube de um professor de cinema muito bom chamado Phillipe Leão, acho que vale a pena conferir.
Achei curioso trazer a dualidade estético do De Sica e Ozu, lembrei de uma crítica do Vertov na LEF:
“estes pretensos diretores! Quando vocês e as ratazanas vão parar de se preocupar com os objetos da cena? Cuidem da organização da vida real”
Nesse tema da velhice também lembrei de “O Fim e o Princípio” do Coutinho.
PS: A aula de introdução ao documentário de ontem vai ficar disponível em algum lugar?
Só de olhar o cachorrinho Flike na foto já dá vontade de chorar.
O livro tem uma versão portuguesa pela Almedina, você consegue encomendar pela Amazon, Acho que quem trouxe para cá foi a livraria Martins Fontes. Sim, ele fala que naquele momento do Umberto D o filme deixa de se preocupar com a narrativa para se fixar em um gesto banal e sem significado na trama. Confesso que só li a introdução do livro e assisti algumas palestras do Schrader sobre o assunto no Youtube – é facil de achar. Não me lembro como ele resolve essa questão de que existem filmes anteriores do Ozu e o surgimento do Estilo Transcendental no Umberto, mesmo porque outro cineasta que estuda é o Dreyer, que tem filmes bem anteriores ao Neorealismo.
É que não vejo grandes mudanças estilísticas no Ozu com o “Tóquio”, por isso estranhei. Vou procurar o texto do Schrader, valeu.
Tambem não vejo tantas mudanças do Ozu dos filmes mais antigos para os últimos. Não sei se os filmes japoneses passavam fácil na Europa e quando que o Ozu chegou lá. Já vi gente falando que foi mais tarde. O curioso é que são cineastas de ambientes culturais totalmente destintos, em épocas distintas, com procedimentos semelhantes, que as vezes se sobrepõe a própria temática do filme – Ozu, Dryer e Bressom. É difícil traçar quem seria o precursor.
André, as 30 primeiras páginas desse livro estão disponíveis pra leitura no Google Books.
Obrigado!
Filmes belíssimos! E aproveito para parabenizar a Versátil, que lançou esses dois filmes em mídia física.
Sempre é bom elogiar a Versátil.
Curioso: o Paul Schrader escreveu em uma introdução para uma edição recente do Estilo Transcendental no Cinema que a origem do ” Estilo Transcendental” – cujo um dos principais representantes é o Ozu – pode ser traçada em uma cena do Umberto D em que uma empregada tenta riscar um fósforo para acender um fogão e só consegue após várias tentativas.
Muito obrigado, não conhecia esse texto do Schrader. Mas ele traça a origem do estilo a um filme de 1952? E os filmes do Ozu anteriores a isso?