jul/2023

Crítica: “Wham!”

Por André Barcinski

Crítica: “Wham!”

Por André Barcinski

A Netflix exibe “Wham!”, um documentário sobre a fugaz e imensamente popular banda pop de George Michael (1962-2016) e Andrew Ridgeley. Dirigido por Chris Smith, responsável pelo ótimo filme sobre o malsucedido festival Fyre, o doc impressiona pelas imagens de arquivo e pelo detalhismo.

O Wham! durou pouco – de 1982 a 1986 – mas vendeu impressionantes 30 milhões de discos (só para efeito de comparação, o Foo Fighters, com quase 30 anos de carreira, vendeu 32 milhões). Foi o primeiro grande grupo pop ocidental a tocar na China comunista, em 1985, e teve nada menos de três músicas do mesmo disco (“Make It Big”, de 1984) no topo da parada da revista “Billboard”.

Para alguém que trabalha com documentários no Brasil, ver o filme dá raiva, porque é impressionante a quantidade e qualidade do material de arquivo, coisa impensável por aqui. Só para se ter uma ideia, o filme mostra uma cena de uma boate londrina no fim dos anos 70 em que George Michael (à época, Georgios Kyriacos Panayiotou, conhecido pelo apelido de Yog) aparece dançando na pista.

Além de um incrível acervo documental de emissoras de TV e rádio, o diretor Chris Smith teve à disposição um verdadeiro tesouro para qualquer pesquisador: dezenas de livros de recortes compilados pela mãe de Andrew Ridgeley, que guardou absolutamente tudo sobre o grupo do filho, desde a época em que ele e Yog ainda faziam demos em fitas cassete. Há registros em vídeo das primeiras apresentações do Wham!, realizadas numa boate do interior da Inglaterra em que se apresentavam também mágicos e ventríloquos.

George e Andrew se conheceram na escola e eram amigos desde os 11 ou 12 anos de idade. Ambos eram filhos de imigrantes – George, de gregos e cipriotas, e Andrew, de egípcios – e tinham personalidades diferentes. Andrew era o moleque descolado e popular, enquanto George era o tímido e sensível, que sofria com um pai extremamente conservador e fez de tudo para esconder que era gay.

A trajetória fulminante de sucesso do Wham! é muito bem contada no filme. Num período de apenas quatro anos, eles passaram de uma dupla de amadores que gravavam fitinhas cassete no quarto a uma das bandas mais populares do mundo, encerrando a carreira com um histórico show no estádio de Wembley, diante de 72 mil fãs que choravam desesperadamente pelo fim do duo.

O material de arquivo é tão bom e abundante que o diretor Chris Smith não precisou recorrer ao expediente de entrevistar ninguém para o filme. Toda a narrativa é feita em “off” pelos próprios George (em gravações de acervo) e Andrew, este em entrevistas atuais e feitas com exclusividade para o doc.

É incrível perceber como George Michael já tinha, aos 20 anos de idade, uma autoconfiança de veterano. Tanto que teve a audácia de recusar-se a lançar a versão de “Careless Whisper” produzida pelo lendário Jerry Wexler no mesmo estúdio do Alabama em que gravara Aretha Franklin e Ray Charles. “Não gostei, ficou sem graça”, diz George no filme. “Decidi que eu mesmo ia produzir a canção”. Foi o que ele fez, e “Careless Whisper” virou um hit mundial.

Fica claro que o crescimento artístico de George Michael provocou o fim do Wham!. “Eu sabia que não havia como continuar com o grupo”, diz Andrew Ridgeley. “George ainda tinha muitas coisas grandes para fazer”. Ridgeley é um caso raro de artista que parece entender suas próprias limitações e mostra-se incrivelmente humilde ao não se colocar como obstáculo à consagração artística do amigo.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

7 comentários em "Crítica: “Wham!”"

  • Maravilhoso o texto como sempre.
    Algumas bandas precisam de caras que tenham a consciência das suas virtudes e limitações, e Andrew Ridgeley para mim foi impecável nesse ponto no final do Wham!, embora eu penso que se ele tivesse envolvido de alguma forma no gerenciamento da carreira solo do George, muitos problemas e polêmicas talvez não teriam ocorrido.

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    Renata Teofilo

    Vi o doc ontem, é muito bom mesmo. As imagens de arquivo são impressionantes. Foi legal que os dois permaneceram amigos até o fim e o George ainda trouxe o Andrew para o histórico show que ele fez no Rock in Rio de 91.

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    Marcelo Farias

    Olá André, tudo bem?
    Essa é totalmente off-topic, me desculpe: Procurei no blog e não achei, por isso gostaria de fazer uma sugestão: que tal uma matéria sobre o lendário DJ Big Boy? HELLO, CRAZY PEOPLE! Abraços!

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, num meio em que os egos são inflados quase ao infinitivo, mesmo entre os artistas medíocres, é de se aplaudir que o seu quase xará Andrew Ridgeley não tenha sido um empecilho para a explosão do seu parceiro George Michael!!!
    E uma dúvida: O Careless Whisper foi lançada como uma música do Wham ou já da carreira solo do George Michael???

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      Andre Barcinski

      Eles contam no filme. Foi lançado, bizarramente, como “Wham! – featuring George Michael”. Na verdade, foi a primeira música da carreira solo dele, mesmo com a banda ainda na ativa…

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