set/2023

Crítica: “Wayne Shorter – Zero Gravity”

Por André Barcinski

Crítica: “Wayne Shorter – Zero Gravity”

Por André Barcinski

A Amazon Prime exibe “Wayne Shorter: Zero Gravity”, minissérie documental em três episódios sobre o genial saxofonista e compositor Wayne Shorter (1933-2023). Vi o primeiro dos três episódios.

Sou um grande admirador da arte e da figura pública de Shorter e gostaria de poder recomendar mais entusiasticamente a série. Mas a verdade é que uma personalidade como ele, certamente uma das mais importantes da música do século 20, merecia um filme melhor e mais criativo.

Dirigido por Dorsay Alavi e com produção-executiva de Brad Pitt, a minissérie tenta se vender como algo “diferente” – não tem episódios, mas “Portais” – e busca fugir da tradicional estrutura de entrevistas + imagens de arquivo, usando desenhos animados e encenações com atores para contar passagens da vida de Shorter.

Assim, no lugar de um depoimento de Shorter sobre sua infância, passada em plena Grande Depressão em Newark, Nova Jersey, sempre acompanhado do irmão, Alan, vemos um desenho animado em preto e branco que mostra as crianças brincando na sala de casa e depois correndo pelo bairro humilde.

Para meu gosto pessoal, prefiro uma entrevista ilustrada por fotos ou filmes da época a uma “obra de arte” feita por alguém que está dando sua interpretação de como aquelas cenas devem ter transcorrido. As encenações, com atores mirins interpretando Wayne e Alan, são absolutamente dispensáveis e parecem estar ali apenas para tentar dar um ar mais “artístico” ao filme. Irritantes e supérfluas também são cenas psicodélicas, feitas em computação gráfica, que mostram Wayne, que era budista, sentado numa poltrona contemplando o cosmos.  Pra quê?

Por outro lado, o filme tem consideráveis falhas jornalísticas. A primeira esposa de Wayne, Teruko, é mencionada como alguém que tinha “muitos problemas” e com quem o músico teve uma filha, Miyako. Mas as duas – Teruko e Miyako – simplesmente somem da história (para quem ficou curioso: depois de se divorciar de Shorter, Teruko casou-se com o ator Billy Dee Williams, o Lando Calrissian de “Guerra nas Estrelas”).

A coisa só melhora quando começam as entrevistas e vemos titãs do jazz como Ron Carter, Herbie Hancock e Art Blakey (este em imagens de arquivo) falando sobre suas experiências com Shorter.

As imagens de arquivo são de babar na gravata: Shorter, aos 21 anos, detonando na banda Jazz Messengers de Art Blakey, depois entrando para o inigualável quinteto de Miles Davis, com Herbie Hancock (piano), Ron Carter (contrabaixo) e Tony Williams (bateria). Hancock lembra que Shorter era um compositor tão genial que Miles se recusava a mexer em uma nota sequer das músicas dele. “Nas nossas músicas, Miles mudava muito, mas ele não mudava nada nas partituras de Wayne”.

Planejo ver os outros dois episódios – desculpem, os outros dois PORTAIS – no fim de semana. Espero que o filme pare de inventar bijuteria e se concentre em registrar a fascinante vida de Wayne Shorter.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

7 comentários em "Crítica: “Wayne Shorter – Zero Gravity”"

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