A Globoplay estreou “Vale o Escrito: a Guerra do Jogo do Bicho”, série documental em sete episódios sobre a história dessa verdadeira instituição carioca, o jogo do bicho.
Antes de qualquer coisa, um esclarecimento: tenho feito vários trabalhos para a Globoplay e conheço os profissionais envolvidos nesse projeto, mas não tenho ligação com a série e sinto-me à vontade para escrever sobre ela.
Vi o primeiro dos sete episódios, e a impressão foi a melhor possível. É uma história interessantíssima, cheia de grandes personagens, e é contada, pelo menos no piloto da série, de maneira muito clara e interessante.
A série começa relatando casos recentes da guerra que se instaurou na cúpula do jogo do bicho desde 2004, quando foi assassinado o bicheiro Maninho, filho do lendário Miro, patrono da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro.
A teia familiar que envolve o assassinato de Maninho é complexa demais para ser resumida aqui – assistam à série! – mas posso dizer que parece enredo de novela mexicana e chega a envolver as duas filhas gêmeas de Maninho, uma chamada – juro – Shanna e a outra, Tamara, que hoje vivem em guerra.
O primeiro episódio dá um aperitivo dessa história rocambolesca e depois retrocede no tempo para contar a trajetória de mais de 130 anos do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Com depoimentos preciosos de historiadores e estudiosos do tema, como Luiz Antônio Simas, Aydano André Motta e Chico Otávio, a série explica a origem e como o jogo do bicho se tornou um verdadeiro poder paralelo no Rio de Janeiro depois que bicheiros como Anísio e Castor de Andrade passaram a patrocinar escolas de samba.
Um dos maiores trunfos da série foi conseguir depoimentos de personagens da história. No primeiro episódio, temos a própria filha de Maninho, Shanna, contando sobre o atentado do qual escapou, e uma entrevista reveladora com Ailton Guimarães Jorge, o temido Capitão Guimarães, um ex-militar ligado à repressão durante a ditadura que virou “padrinho” da escola de samba Unidos de Vila Isabel e um dos homens mais poderosos da cúpula do jogo do bicho.
Guimarães, hoje um octogenário de saúde frágil, é entrevistado numa mansão em Niterói, com direito a todos os clichês esperados da casa de um bicheiro (capelinha, piscina imensa, dois cachorros do tamanho de tigres, etc.) e conta como entrou na contravenção por meio do lendário bicheiro Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas, que comandava os pontos de bicho na zona sul do Rio.
A série destrincha o equilíbrio de poder entre os nomes mais conhecidos do jogo do bicho, como Anísio, Castor de Andrade e Miro, e o primeiro episódio acaba com a chegada, à cúpula da contravenção, de Maninho, filho de Miro. O segundo episódio é dedicado à ascensão de Maninho. Não posso esperar para ver.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
5 comentários em "Crítica: “Vale o Escrito”"
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Está na fila! André, vc assistiu o “the killer”do David Fincher, estreou ontem no Netflix, acho q vai curtir! abraço!!
Veremos hoje, valeu!
Xará, fiquei impressionado com a frieza e violência das “famílias”, principalmente após o falecimento dos fundadores.
André, eu já tinha achado o Doutor Castor um dos melhores docs feitos no Brasil nos últimos tempos, e acho que esse que inclui seus “colegas de trabalho/concorrentes” será melhor ainda, pois acho o universo do Jogo do Bicho carioca muito mais interessante do que o da Máfia norte – americana, faltava por aqui às vezes coragem de mexer nesse vespeiro todo!!!!
E para polemizar de vez o post: Você é a favor ou contra a legalização do Jogo do Bicho?
Bom dia André. Terminei a série ontem, e realmente vale muito a pena assistir. Chega a ser surreal o cinismo e a desfaçatez de alguns entrevistados quando confrontados com as questões mais cabeludas expostas pela série.