O Globoplay exibe “Vale o Escrito – A Guerra do Jogo do Bicho”, série documental em sete episódios sobre a história do jogo do bicho no Rio de Janeiro e as sagas das famílias que dominaram a contravenção (e atenção: na terça, dia 5, às 20h, teremos um debate, aberto a todos os assinantes, com Ricardo Calil, um dos diretores da série).
Tenho feito alguns trabalhos para o Globoplay e conheço boa parte dos envolvidos com a produção, mas não tive nenhum envolvimento com o projeto e me sinto à vontade para recomendá-lo. Já vi cinco dos sete episódios e estou curtindo muito.
Dirigida por Fellipe Awi, Gian Carlo Bellotti e Ricardo Calil, “Vale o Escrito” tem feito sucesso de público. É difícil parar de assisti-la, de tão bizarros os personagens. A série parece uma mistura de novela mexicana e “Os Bons Companheiros”, passada no Carnaval do Rio de Janeiro.
O primeiro episódio traça um panorama da história do jogo do bicho no Rio, desde o século 19, e conta a história dos primeiros astros da contravenção, nomes como Castor de Andrade, Anísio Abraão David, Capitão Guimarães, Ângelo Maria Longa (Tio Patinhas) e Miro. Foi a geração que percebeu como a aproximação do jogo do bicho com as escolas de samba poderia ser lucrativa e conferir respeitabilidade aos bicheiros.
A série usa um artifício inteligente para prender a atenção do telespectador ao longo de sete episódios: concentra a narrativa em um personagem por episódio. Assim, somos apresentados às histórias de Capitão Guimarães e Miro Garcia, depois ao filho deste, Maninho, às filhas de Maninho, as gêmeas Shanna e Tamara e, finalmente, a três homens violentos e poderosos: Bernardo Bello, Adriano da Nóbrega e Rogério Andrade.
É um elenco incomparável de criaturas violentas, gananciosas e que vivem num estado paralelo, onde a polícia e os políticos só estão ali para servi-los. Falam em execuções e crimes com a naturalidade de quem comenta futebol. A impressão é de que o Rio de Janeiro é um feudo, onde esses “nobres” disputam o poder.
Ao contar a história do jogo do bicho e de seus personagens, a série toca em assuntos atuais e importantes, como a corrupção política e policial e o poder das milícias. Está tudo interligado. Pode parecer falta de sensibilidade elogiar o humor de uma série que trata de temas tão pesados, mas é difícil não rir da desfaçatez e breguice de alguns dos personagens, que são mais estranhos que a ficção.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
3 comentários em "Crítica: “Vale o Escrito”"
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Lembrando que, além das escolas de samba, os bicheiros adoram lavar grana nos dois clubes de futebol mais sujos do Brasil: flamengo e corinthians.
André, vi o documentário todo e adorei, achei um dos melhores doc feitos neste ano no Brasil!!!!
Duas coisas me chamaram atenção para mim que não sou do Rio de Janeiro:
1) Eu achava que o principal Chefão do Jogo do Bicho era o Castor de Andrade, mas pelo documentário, deu a impressão de que ele era uma espécie de “Embaixador da Contravenção”, o cara mais midiático, que quem mandava mesmo na cúpula era o Miro Garcia e o Capitão Guimarães. Poder mesmo entre os Andrades quem tem é o Rogério de Andrade, ou é impressão minha?
2) E o Luizinho Drummond, dono da Imperatriz Leopoldinense? Não topou dar entrevista?
Ótima série, te prende do começo ao fim.