out/2021

Crítica: “The Velvet Underground”, de Todd Haynes

Por André Barcinski

Crítica: “The Velvet Underground”, de Todd Haynes

Por André Barcinski

A Apple TV exibe “The Velvet Underground”, documentário de Todd Haynes sobre a seminal banda de Lou Reed, John Cale, Maureen Tucker e Sterling Morrison.

A escolha de Haynes para dirigir um filme sobre o VU foi perfeita. Numa carreira de 30 anos, o norte-americano sempre explorou temas que habitam o universo da banda: a vida de personagens marginalizados, o universo gay, os movimentos culturais alternativos e o antagonismo diante do “establishment”.

Haynes ama música e já dirigiu filmes sobre Bob Dylan, Stephen Sondheim, o “glam rock” e a cantora Karen Carpenter, do duo Carpenters.

Em “The Velvet Underground”, Haynes não apenas contou a história do grupo, mas o inseriu num contexto mais amplo e interessante, mostrando como o Velvet fez parte de um movimento contracultural que surgiu no início dos anos 1960, em Nova York, e incluiu, além da música, as artes plásticas, a literatura e o cinema.

Boa parte do filme consiste em entrevistas com os membros remanescentes do grupo, John Cale e Maureen Tucker, e gravações de depoimentos de Lou Reed e Sterling Morrison. As entrevistas são ilustradas por um impressionante arsenal de cenas de arquivo, que ajudam o espectador a entender como essa turma, vinda de lugares e origens sociais diferentes, acabou se juntando.

Vemos John Cale falando de sua vida num rincão isolado no País de Gales e de sua improvável mudança para Nova York, onde encontrou um mentor em La Monte Young, um radical experimentador sonoro obcecado com drones e notas que se estendiam por horas a fio. Ouvimos relatos sobre a difícil vida familiar de Lou Reed, incluindo o brutal tratamento de eletrochoques a que foi submetido, seu gosto pelo rock básico de Bo Diddley e Chuck Berry e sua paixão pela literatura “beat” de Allen Ginsberg e Delmore Schwartz.

O Velvet Undergound uniu dois gênios – Cale e Reed – que se complementavam. O primeiro era a face mais experimental e inventiva, que trouxe ao grupo microfonia, improviso e repetição. O segundo era um compositor bem mais pop, capaz de criar melodias simples e encaixá-las em letras realistas e perversas que falavam de sexo e do submundo das drogas.

Dizer que o Velvet era uma banda à frente de seu tempo é pouco. Em meio à explosão do “flower power”, eles eram verdadeiros ETs, totalmente fora de sintonia com a vibe de paz e amor do hippismo. É sensacional ouvir Maureen Tucker e Mary Woronov (integrante da trupe de Andy Warhol) descascando os hippies de São Francisco e sua visão ingênua e idílica do mundo (“Você não faz uma revolução dando flores para um filho da puta que quer atirar em você”, diz Woronov).

O Velvet durou pouco – e nem poderia durar muito, sendo liderado por duas personalidades tão fortes quanto Reed e Cale. Foram apenas dois discos antes de Reed chutar Cale e tornar a banda seu feudo, mas esses dois LPs simplesmente tiraram o rock dos campos de algodão e o trouxeram para a metrópole. Lou Reed e John Cale inventaram o rock urbano e criaram uma nova estética que influenciou o punk, o pós-punk, o “indie” rock, o post-rock e tudo que veio depois.

O filme todo é um deleite, mas os trechos de entrevistas com Jonathan Richman são o filé. Um nerd que teve a vida mudada aos 16 anos ao ouvir o disco de estreia do Velvet, Richman virou uma espécie de mascote do grupo, seguindo-o por todo o país, vendo “entre 60 e 70 shows” do Velvet. “Eles mudaram a minha vida”, diz Richman.

E a nossa também.

23 comentários em "Crítica: “The Velvet Underground”, de Todd Haynes"

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    Esse texto do Barça foi tão legal que me fez antecipar a experiência em alguns dias….rs.

    E valeu a pena, esse filme já nasce clássico!

    O Foco principal está no Icônico primeiro álbum do Velvet, o que mantém tudo muito coeso, é como se a sua gestação se iniciasse já nos relatos de infância do John Cale e do Lou Reed, com o Andy Warhol e a Nico aparecendo depois, como catalizadores…

    Adoraria ter visto algum trechinho atual do Doug Yule (acho o Loaded um álbum injustiçado), mas faz todo o sentido que isso não aconteça… e não fez falta.

    Que filmaço!!
    Forte abraço!

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    Tive a sorte de trocar poucas palavras com Reed qdo ele veio apresentar o Metal Machine Music. Autografou meu “Atravessar o Fogo” e perguntou quem escolheu o meu nome (rs). Foi gentil a beça. Deixar um show de Lou Reed na metade é coisa de poseur, o Brasil está cheio deles.

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    Barça e de todas as dezenas de milhares de bandas que Velvet influenciou, qual você acha a mais legal e que foi além do que eles propuseram? Minha preferência é pelo Jesus And Mary Chain! Abraço!

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    André,
    Aproveitando esse post você viu o doc Rolling Stone: Vida e Morte de Brian Jones?
    Parabéns pelo site e dizer que seu podcast com o Benja e Marcelo Boscoli é sensacional.

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    O Velvet teve muita sorte de ter ficado debaixo da asa do Warhol durante os 2 primeiros discos, impressionante a quantidade e qualidade das
    imagens que eles tem, considerando o pouco apelo comercial da banda.

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    O John Cale tem uma discografia muito boa tambem, so’ que em alguns momentos fica meio dificil de embarcar nesses “experimentos sonoros”.
    Os dois, Cale e Reed, fizeram um disco muito legal pos-VU em homenagem ao Andy Wharol, acho que o nome é Drella. Este foi um experimento que funcionou bem na minha opiniao.

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    Oi Barcinski,
    Vou tentar ver o doc. Acho o Lou Reed um genio musical e na epoca de VU é covardia. Agora tem uma historia interessante que vc deve ter ouvido. Ele veio fazer um show solo no Sesc em SP, com um piano eletrico. Quase metade de plateia simplesmente levantou e foi embora.

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        Se não me engano foi um show específico com o “repertório” de metal machine music. O pessoal foi pra escutar hits, mas quando a barulheira começou foi todo mundo embora. Mas aí não dá pra culpar o Lou Reed… ele foi bem específico em suas intenções. Hahaha

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        Fala Barça, eu assisti esse show, boa parte deixou a sala, teve um que saiu e ainda chamou ele de “vagabundo”. Mas foi avisado que ele faria o disco metal machine na íntegra. Achei legal o show, quem foi na expectativa dos “hits” não tinha como gostar. Abraço

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          Fui nesse show no Teatro Paulo Autran em SP. Quem aguentou até o final ganhou um bis do Lou Reed tocando I’ll Be Your Mirror sozinho ao violão. Inesquecível!

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        Se eu não me engano, foi esse show do Sesc que o Lou tocou o Metal Machine Music e depois que muitos foram embora, ele tocou alguns hits tipo Perfect Day. hahaha

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