out/2021

Crítica: “Succession”

Por André Barcinski

Crítica: “Succession”

Por André Barcinski

Me diverti muito vendo as duas primeiras temporadas de “Succession” (HBO Max). A série é uma novela mexicana com banho de loja, mostrando uma sangrenta batalha familiar passada no mundo high-tech de uma megacorporação de mídia e tecnologia chefiada por Logan Roy (Brian Cox), um magnata claramente inspirado no australiano Rupert Murdoch.

Não há, em toda a história, um personagem com um átomo de bondade ou compaixão. A malvadeza é tanta e tão exagerada que a série adquire uma atmosfera de fábula.

Mesmo assim, a narrativa se sustenta numa trama bem amarrada sobre intriga corporativa e disputa pelo poder. Ou melhor: se sustentava, até a estreia da terceira temporada, cujo primeiro episódio está disponível na HBO Max.

Não é recomendável classificar toda uma temporada apenas pelo piloto. Há muitos casos de séries que embalaram depois de alguns episódios. Mas o piloto da terceira temporada de “Succession” foi tão ruim – tão mal escrito, atuado e estruturado – que nem parece ter sido feito pelo mesmo time responsável pelas duas primeiras.

Aconteceu com “Succession” um fenômeno comum a algumas séries de muito sucesso: o público se apaixonou tanto pelos personagens que, para satisfazer a audiência, os roteiristas passaram a escrever a história apenas como pano de fundo para que os personagens possam exibir suas qualidades – ou, no caso de “Succession”, a falta delas.  

Os personagens não trabalham em prol da história, mas a trama só existe para que os personagens destilem seus venenos em doses cada vez mais exageradas, até que tudo vire uma grande autoparódia.

Não vou dar “spoilers”, mas o piloto da terceira temporada começa com uma grave crise familiar, em que um dos filhos de Logan, Kendall (Jeremy Strong) tenta assumir o controle da empresa. O piloto inteiro mostra Logan Roy tão furioso e caricato que parece um monstro de desenho animado, cercado por um exército de puxa-sacos, todos tentando cavar uma vaga no alto escalão da corporação. Tá, mas e a história?

Não havia. O piloto inteiro foi uma sucessão de diálogos supostamente engraçados, com familiares trocando insultos, tentando superar o outro em maledicência e competindo em frases de efeito. Pode ser divertido por dois minutos e render clipes curtos para espalhar na Internet – “Vou moer seus ossos para fazer meu pão”; “Se suas mão estão limpas, então seu puteiro tem uma manicure” – mas ver uma temporada inteira disso seria um martírio.

Criar personagens memoráveis é muito difícil, e “Succession” conseguiu. O desafio agora é ter uma história digna dessas figuras. Porque, sem trama, nem os personagens mais brilhantes sobrevivem.

Um ótimo fim-de-semana a todos.

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