Crítica: “Os Encanadores da Casa Branca”
Estreou esses dias na HBO Max “Os Encanadores da Casa Branca”, uma minissérie cômica sobre os bastidores de Watergate, o escândalo que envolveu espionagem e trapaças governamentais e culminou com a renúncia, em 1974, do então presidente norte-americano, Richard Nixon.
Woody Harrelson faz E. Howard Hunt e Justin Theroux interpreta G. Gordon Liddy, dois líderes do grupo chamado de “Encanadores”, uma reunião de arapongas e agentes ligados ao governo que faziam trabalhos sujos para a turma de Nixon.
A história real, todo mundo sabe: essa turminha tentou colocar escutas telefônicas numa sede do Partido Democrata no edifício Watergate, em Washington, D.C., com ajuda de uma equipe de cubanos. A descoberta dessa invasão deflagrou um escândalo que causou a renúncia de Nixon.
Watergate é um caso tão complexo e cheio de personagens interessantes, que a história pode ser contada por diversos ângulos. “Todos os Homens do Presidente” (1976), o filme de Alan J. Pakula baseado no famoso livro dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, é a obra mais conhecida e importante sobre o caso. O filme é contado sob o ponto de vista dessa dupla de repórteres (interpretados por Robert Redford e Dustin Hoffman) que investigou o caso para o jornal “The Washington Post”.
Outro bom filme sobre Watergate é “A Guerra Secreta” (2017), de Steven Spielberg, mais focado nas pressões do governo Nixon sobre o “Washington Post”. Recentemente, estreou uma minissérie que conta a mesma história, mas sob uma ótica completamente diferente: “Gaslit”, que narra a saga de Watergate pelo lado do staff de Richard Nixon, em particular de John Mitchell, procurador-geral dos EUA (vivido por Sean Penn), e da esposa, Martha (Julia Roberts, fantástica), uma perua falastrona e que adora contar segredos do governo para jornalistas.
Ao escolher Hunt e Liddy como personagens principais, “Encanadores da Casa Branca” optou por uma saída mais farsesca e divertida. São dois personagens tão patéticos e caricaturais que chegam a ser fascinantes. No primeiro episódio (ainda o único disponível), a dupla de cretinos tenta invadir o consultório de um psicanalista para achar documentos comprometedores contra um adversário de Nixon.
Dirigido por David Mandel, responsável por episódios de “Seinfeld” e “Curb Your Enthusiasm”, a série tem um tom de comédia “pastelão”, com cenas de perseguição de carro em que um deles leva um banho de café quente, sequências com alguém pendurado numa janela, e figurinos à “Hermes e Renato”. Meu interesse durou uns cinco minutos.
Acho que o tom excessivamente farsesco acaba por tirar a graça dos personagens. Só para comparar, em “Gaslit”, Hunt e Liddy também aparecem e são mostrados como os trapalhões que eram na vida real, mas, como todo o entorno é mais solene, inclusive mostrando os meandros políticos de John Mitchell e sua tentativa de blindar Nixon, o grotesco de Hunt e Liddy sobressai de maneira muito evidente e engraçada.
E, por mais esforço que Justin Theroux coloque em sua interpretação de G. Gordon Liddy, o que Shea Whigham (“True Detective”, “O Lobo de Wall Street”) fez em “Gaslit” é de outro planeta. Assistir a “Encanadores da Casa Branca” só me deu mais vontade de rever “Gaslit”, uma minissérie muito bem escrita e dirigida, com um humor farsesco que nunca cai para o pastelão, personagens memoráveis por suas idiossincrasias, e uma história central – a do casal John e Martha Mitchell – muito comovente. “Gaslit” está no Globoplay, Now e Starz.
Tenham um ótimo fim de semana!
3 comentários em "Crítica: “Os Encanadores da Casa Branca”"
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Ainda não v Gaslit, mas gostei da pegada Agente 86 do primeiro episódio. A conferir…
Impossível não relacionar o caso com de um ajudante de ordem de certo ex presidente
André, comparados com os americanos, os brasileiros ainda tem muitos “dedos” para contarmos fatos de nossa História?
Só para citar os casos de Presidentes impichados: Quantas obras temos sobre a renúncia do Richard Nixon desde a explosão do fato em 1973 e 1974 comparados com obras sobre a queda do Fernando Collor, por exemplo? Mesmo o livro em que baseou o “Todos os homens do Presidente” foi feito no calor dos acontecimentos.!!!
Sobre o impeachment da Dilma Rousseff então (outro período fundamental de nossa História), praticamente nem um pio…