Nem todo grande diretor é um bom roteirista. John Ford não escrevia os roteiros dos próprios filmes. Hitchcock orientava os roteiristas, mas não escrevia. David Fincher e Ridley Scott deixam o trabalho de escrever nas mãos de colaboradores, e Martin Scorsese fez alguns de seus melhores filmes, como “Taxi Driver” e “O Lobo de Wall Street”, com roteiros de terceiros.
O que nos leva a Christopher Nolan. O cineasta já fez 13 filmes, e só um – “Insônia” – não foi escrito por ele. Talvez esteja na hora de deixar essa tarefa a cargo de pessoas mais competentes. Porque “Oppenheimer”, seu mais recente filme, tem um dos roteiros mais confusos e mal escritos que vi em muito tempo.
O filme conta a história do físico norte-americano J. Robert Oppenheimer (1904-1967), chamado “O Pai da Bomba Atômica”. O roteiro é estruturado, basicamente, em três subtramas: a primeira conta o início da carreira de Oppenheimer na Europa, a segunda narra a construção da bomba e o famoso “Teste de Trininty”, e o terceiro se passa após as explosões em Hiroshima e Nagasaki e a perseguição que o físico sofreu do governo norte-americano por suas supostas ligações comunistas.
O roteiro tem uma estrutura tão confusa que, muitas vezes, é difícil entender o que está se passando. Nolan criou duas longas sequências – a de um interrogatório em que Oppenheimer (Cillian Murphy) pode perder o acesso a informações secretas do governo, e outra em que Lewis Strauss (Robert Downey Jr.), ex-chefe da Comissão Atômica dos EUA e nêmesis do físico, é sabatinado pelo Senado para o posto de Secretário de Comércio – que são pura fumaça para pouco fogo e parecem ter sido inventadas apenas para tentar conferir alguma emoção e gravidade ao filme.
Há tantos personagens que Nolan precisa, quando um deles é citado, mostrar o rosto do personagem como em um documentário, para que o espectador entenda a quem o filme se refere. Há uma infinidade de personagens que surgem na história e depois simplesmente desaparecem.
A impressão geral, a mesma que tive assistindo a outros filmes de Nolan, é que ele se favoreceria se tivesse alguém para sugerir simplificar suas tramas. Sem freios, sem alguém para dizer “Chris, todos sabemos que você é um gênio, mas isso é realmente necessário?”, ficamos com histórias truncadas e tediosas, cheias de cenas e personagens supérfluos que parecem estar ali apenas para satisfazer o ego do cineasta, e não para favorecer a trama.
Os diálogos são terríveis, quase todos expositivos e banais, uma das marcas de Nolan. A cada frase, os personagens explicam tudo sobre eles próprios e sobre a trama, como se o espectador não fosse capaz de entender o que está acontecendo – e, a bem da verdade, não consegue mesmo, devido à incompetência narrativa do filme.
O resultado é uma história fria e sem emoção. Oppenheimer tem, supostamente, uma imensa crise de consciência depois das explosões em Hiroshima e Nagasaki, mas isso é relatado, não mostrado. Não é à toa que a sequência mais emocionante do filme é a do Teste de Trinity: é a única que contém poucos diálogos. “Oppenheimer” é um filme ambicioso, porém vazio de ideias e de emoção. Não me conectei por um minuto com o personagem e não me comovi com suas complexidades.
Um ótimo dia a todas e todos.
14 comentários em "Crítica: “Oppenheimer”"
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Primeira vez que abandono um filme no cinema. E que sensação boa baixou quado me livrei dos olhos arregalados do Cillian Murphy, dos diálogos pedantes…
Lendo seu texto só conseguir ouvir a voz do Benja na minha mente dizendo: “André Barcinski, estão no penhasco Interstellar e Oppenheimer, quem você salva?”
Deixo “Interestelar” cair, mole.
Neste caso, a pergunta pro Barça é quem você empurra !!!
E as atuações? Estão dizendo que o Robert Downey Jr. vai ser indicado ao Oscar pelo papel… E a deusa Emily Blunt, está bem no papel da Sra. Oppenheimer?
Não, estão todos péssimos falando diálogos de madeira. Uma pena, são ótimos atores.
Bah… é, quando o roteiro é fraco, pode botar quem for, que a atuação fica pobre e caricata. Só ver o Tarantino… às vezes, atores ditos “limitados” arrebentam nos filmes dele por causa do primor dos diálogos, o que impacta diretamente na atuação.
Pô Barça, esse aí todo mundo já esperava que você não ia gostar. Não vi o filme ainda, do Christopher Nolan até hoje só assisti “A origem” e “Dunkirk”, faz tempo mas me lembro que na época até gostei dos filmes. Com relação ao Oppenheimer, só de ter sido uma grande produção do cinema atual sem ser filme de super herói já é uma boa notícia, como alguém “da área”, espero que venham ainda muitos outros filmes sobre grandes cientistas pois pra mim esses são os verdadeiros super heróis.
concordo com você, Barça. eu tava doido pra ver o filme porque sou fascinado por física e pela história do Projeto Manhattan, o teste Trinity. fiquei entediado em alguns momentos, pálpebra pesando. e um cara derramou refrigerante em mim, bicho! é mole?
Concordo muito. Fora que existe aquele hedonismo técnico, um exibicionismo, pra ser aplaudido. É um abacaxi gourmet, cheio de leite condensado trufado.
Então você achou o filme uma bomba?
Bombona.
André, agora sim é um texto seu como eu gosto de ler, com aquela crítica bem afiada hehehe
Sobre o filme, eu o achei muito longo e tedioso, cheio de “barrigas” para engordar o tempo dele!!!
Se ele tivesse uns 30 ou 40 minutos a menos provavelmente fluiria melhor e seria mais interessante de se assistir!!!
Concordo!