ago/2023

Crítica: “Oppenheimer”

Por André Barcinski

Crítica: “Oppenheimer”

Por André Barcinski

Nem todo grande diretor é um bom roteirista. John Ford não escrevia os roteiros dos próprios filmes. Hitchcock orientava os roteiristas, mas não escrevia. David Fincher e Ridley Scott deixam o trabalho de escrever nas mãos de colaboradores, e Martin Scorsese fez alguns de seus melhores filmes, como “Taxi Driver” e “O Lobo de Wall Street”, com roteiros de terceiros.

O que nos leva a Christopher Nolan. O cineasta já fez 13 filmes, e só um – “Insônia” – não foi escrito por ele. Talvez esteja na hora de deixar essa tarefa a cargo de pessoas mais competentes. Porque “Oppenheimer”, seu mais recente filme, tem um dos roteiros mais confusos e mal escritos que vi em muito tempo.

O filme conta a história do físico norte-americano J. Robert Oppenheimer (1904-1967), chamado “O Pai da Bomba Atômica”. O roteiro é estruturado, basicamente, em três subtramas: a primeira conta o início da carreira de Oppenheimer na Europa, a segunda narra a construção da bomba e o famoso “Teste de Trininty”, e o terceiro se passa após as explosões em Hiroshima e Nagasaki e a perseguição que o físico sofreu do governo norte-americano por suas supostas ligações comunistas.

O roteiro tem uma estrutura tão confusa que, muitas vezes, é difícil entender o que está se passando. Nolan criou duas longas sequências – a de um interrogatório em que Oppenheimer (Cillian Murphy) pode perder o acesso a informações secretas do governo, e outra em que Lewis Strauss (Robert Downey Jr.), ex-chefe da Comissão Atômica dos EUA e nêmesis do físico, é sabatinado pelo Senado para o posto de Secretário de Comércio – que são pura fumaça para pouco fogo e parecem ter sido inventadas apenas para tentar conferir alguma emoção e gravidade ao filme.

Há tantos personagens que Nolan precisa, quando um deles é citado, mostrar o rosto do personagem como em um documentário, para que o espectador entenda a quem o filme se refere. Há uma infinidade de personagens que surgem na história e depois simplesmente desaparecem.

A impressão geral, a mesma que tive assistindo a outros filmes de Nolan, é que ele se favoreceria se tivesse alguém para sugerir simplificar suas tramas. Sem freios, sem alguém para dizer “Chris, todos sabemos que você é um gênio, mas isso é realmente necessário?”, ficamos com histórias truncadas e tediosas, cheias de cenas e personagens supérfluos que parecem estar ali apenas para satisfazer o ego do cineasta, e não para favorecer a trama.

Os diálogos são terríveis, quase todos expositivos e banais, uma das marcas de Nolan. A cada frase, os personagens explicam tudo sobre eles próprios e sobre a trama, como se o espectador não fosse capaz de entender o que está acontecendo – e, a bem da verdade, não consegue mesmo, devido à incompetência narrativa do filme.

O resultado é uma história fria e sem emoção. Oppenheimer tem, supostamente, uma imensa crise de consciência depois das explosões em Hiroshima e Nagasaki, mas isso é relatado, não mostrado. Não é à toa que a sequência mais emocionante do filme é a do Teste de Trinity: é a única que contém poucos diálogos. “Oppenheimer” é um filme ambicioso, porém vazio de ideias e de emoção. Não me conectei por um minuto com o personagem e não me comovi com suas complexidades.

Um ótimo dia a todas e todos.

14 comentários em "Crítica: “Oppenheimer”"

Deixe seu comentário

Ir para o topo