dez/2021

Crítica: “O Ataque dos Cães” (Netflix)

Por André Barcinski

Crítica: “O Ataque dos Cães” (Netflix)

Por André Barcinski

Já vi muito filme estrangeiro receber nome inadequado em português, mas o título “O Ataque dos Cães” estabelece um novo padrão de ruindade. O título original é “The Power of the Dog”, ou “O Poder do Cão”. A tradução não só inventa um “ataque”, como pluraliza o sujeito e desvirtua o significado original da expressão.

A expressão “O poder do cão” vem do Livro dos Salmos da Bíblia. No Salmo 22, versículo 20, lemos: “Livrai-me da espada, e a minha vida do poder do cão”.  No filme, não existe “ataque” e muito menos “cães”. O “cão”, no singular, tem um significado simbólico e potente, que condiz com a trama do filme.

Dirigido pela neozelandesa Jane Campion (“O Piano”), o filme é uma experiência visual e sonora marcante, uma obra lenta e densa que fica com você muito depois dos créditos finais. Dias depois da primeira vez que o vi, não conseguia parar de pensar em certas imagens e diálogos.

A história se passa num rancho em Montana, em 1925. Os irmãos George (Jesse Plemons) e Phil (Benedict Cumberbatch) são rancheiros abastados que, durante uma viagem, encontram uma viúva, Rose (Kirsten Dunst) e o filho dela, Peter (Kodi Smith-McPhee). George se apaixona por Rose, o que causa um ataque de ciúmes em Phil, que desconta sua fúria humilhando Rose e, especialmente, o frágil e sensível Peter.

Jane Campion é um talento fora do comum. Só uma cineasta de extrema sensibilidade consegue construir camadas de tensão e drama sem recorrer a cenas explicitamente confrontacionais.  Não há violência física no filme, mas uma brutalidade silenciosa, amplificada pela linda fotografia de Ari Wegener e pela música minimalista de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.

Sem estragar as – muitas – surpresas do filme, podemos dizer que a presença de Phil desequilibra todos os outros personagens, e a história ruma, lentamente, para um final trágico.

O elenco está fantástico: Benedict Cumberbatch faz o personagem mais marcante, um poço de amargura que esconde segredos inconfessáveis. Mas a figura magra e frágil do Peter de Kodi Smith-McPhee é o grande personagem da história.

“O Ataque dos Cães” é uma raridade no cinema contemporâneo: um filme que sugere mais do que mostra, que não entrega nada de bandeja ao espectador, mas o força a refletir e imaginar o passado e os pensamentos dos personagens. Não posso esperar para revê-lo. E que desperdício saber que Jane Campion não lançava um longa-metragem há 12 anos.

Um ótimo fim-de-semana a todos.

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