Crítica: “O Ataque dos Cães” (Netflix)
Já vi muito filme estrangeiro receber nome inadequado em português, mas o título “O Ataque dos Cães” estabelece um novo padrão de ruindade. O título original é “The Power of the Dog”, ou “O Poder do Cão”. A tradução não só inventa um “ataque”, como pluraliza o sujeito e desvirtua o significado original da expressão.
A expressão “O poder do cão” vem do Livro dos Salmos da Bíblia. No Salmo 22, versículo 20, lemos: “Livrai-me da espada, e a minha vida do poder do cão”. No filme, não existe “ataque” e muito menos “cães”. O “cão”, no singular, tem um significado simbólico e potente, que condiz com a trama do filme.
Dirigido pela neozelandesa Jane Campion (“O Piano”), o filme é uma experiência visual e sonora marcante, uma obra lenta e densa que fica com você muito depois dos créditos finais. Dias depois da primeira vez que o vi, não conseguia parar de pensar em certas imagens e diálogos.
A história se passa num rancho em Montana, em 1925. Os irmãos George (Jesse Plemons) e Phil (Benedict Cumberbatch) são rancheiros abastados que, durante uma viagem, encontram uma viúva, Rose (Kirsten Dunst) e o filho dela, Peter (Kodi Smith-McPhee). George se apaixona por Rose, o que causa um ataque de ciúmes em Phil, que desconta sua fúria humilhando Rose e, especialmente, o frágil e sensível Peter.
Jane Campion é um talento fora do comum. Só uma cineasta de extrema sensibilidade consegue construir camadas de tensão e drama sem recorrer a cenas explicitamente confrontacionais. Não há violência física no filme, mas uma brutalidade silenciosa, amplificada pela linda fotografia de Ari Wegener e pela música minimalista de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.
Sem estragar as – muitas – surpresas do filme, podemos dizer que a presença de Phil desequilibra todos os outros personagens, e a história ruma, lentamente, para um final trágico.
O elenco está fantástico: Benedict Cumberbatch faz o personagem mais marcante, um poço de amargura que esconde segredos inconfessáveis. Mas a figura magra e frágil do Peter de Kodi Smith-McPhee é o grande personagem da história.
“O Ataque dos Cães” é uma raridade no cinema contemporâneo: um filme que sugere mais do que mostra, que não entrega nada de bandeja ao espectador, mas o força a refletir e imaginar o passado e os pensamentos dos personagens. Não posso esperar para revê-lo. E que desperdício saber que Jane Campion não lançava um longa-metragem há 12 anos.
Um ótimo fim-de-semana a todos.
30 comentários em "Crítica: “O Ataque dos Cães” (Netflix)"
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Tô com você sobre o filme, Barça! E saudades do B3.
Assisti por indicaçao sua Barcinski. E que filmão! Agora que fiquei sabendo sobre o verdadeiro sentido do titulo do filme, fiquei pensando,porque no Brasil nego inventa nas traduçoes ? Tem uma pior que outra..
Finalmente consegui assistir! Gostei muito de como ela trabalha a interação entre o Phil e o Pete; como o menino, apesar da sua fragilidade física, acaba se revelando o personagem mais forte, como toda a macheza é apenas uma carapaça ocultando uma série de fragilidades e complexos… Baita filme! Já quero rever!
Vimos duas vezes, melhor ainda na segunda.
Acabei de assistir e o filme é excelente! Gostei muito da reviravolta no final.
Muito legal que gostou.
Vi a recomendação aqui no blog faz algum tempo, mas consegui assistir só ontem. Certamente um dos melhores de 2021.
um titulo mais adequado seria algo como “livrai-nos do mal”, amen rs
Certamente melhor que “Ataque dos Cães”.
E aquela cena em que o rapaz desentoca o coelho por meio de carinho e suavidade para em seguida quebrar seu pescoço? (Phil, com sangue escorrendo da mão, será o próximo coelho.)
O personagem do menino é fascinante.
Linda película!!bem que vc falou,fiquei dias com filme na cabeça.
Muito!
Curioso, André, você assistir várias vezes um filme em intervalo pequeno de tempo. Há filmes que instigam essa curiosidade – quiçá necessidade, de percorrer as camadas que se descortinam a cada nova assistida. Te confesso que não tenho muito esse hábito mas fiquei inclinado a fazê-lo.
Abraços
São poucos, mas merecem. Achei brilhante como a Campion mistura cenas amplas de paisagens com closes de detalhes (flores de papel, corda feita de couro), e como isso vai tornando o filme cada vez mais claustrofóbico.
Assisti por conta do Benedict Cumberbatch, que é um ótimo ator, e gostei.
Ele tá demais mesmo.
Valeu pela sugestão Xará. Há alguma explicação para a escolha dos títulos em portuguê ser tão absurdo assim. Esse nem era tão difícil de deixar próximo ao original. Abraço
Vou escrever sobre essas escolhas de títulos na semana que vem. Abraço!
Valeu pela dica André. Ando de saco cheio do NetfRix, mas vou dar uma checada nesse.
Abraço e bom fds.
Também tô de saco cheio, mas esse filme é fora do padrão da plataforma.
Excelente dica, muito bom o filme.. Quando vi o título sem saber do que se tratava, pensei que era alguma refilmagem do “clássico” do Cinema em Casa do SBT “A Gangue dos Dobermans” rss
Essa é a ideia, tenho certeza.
Essa foi a ideia, tenho certeza.
Voltei a assinar Netflix essa semana para assistir este filme, talvez hoje mesmo eu assista.
Depois diz o que achou…
Excelente, como sempre, André.
Valeu, Beto. É inacreditável a tentativa de vulgarizar o filme com um título apelativo desses. Fiquei revoltado. Abraço.
Gostei demais desse filme também, como é bom assistir a um filme de um diretor com total domínio da arte, tudo no tom certo, não desperdiça cenas, tudo se contrói até a cena final.
Vamos rever hoje. Não vejo a hora.