Crítica: “Milli Vanilli”
A história da música pop é feita de truques e enganações. Ringo Starr não tocou na versão de “Love Me Do” presente no primeiro álbum dos Beatles. Jimmy Page gravou, sem créditos, boa parte do pop inglês da primeira metade dos anos 60, incluindo canções de The Who e Them. Músicos de estúdio gravaram hits clássicos de grupos como Beach Boys e Monkees.
Na época da discoteca, então, era comum que produtores contratassem músicos profissionais para tocar e cantar nos discos, enquanto os “astros” se limitavam a dançar e dublar. O anúncio publicado em jornais nova-iorquinos para reunir a banda Village People dizia: “Procura-se homens tipo machão e que saibam dançar”. Ninguém falava em saber cantar (vale lembrar que havia ao menos um cantor de verdade no Village People, o “oficial da Marinha” Victor Willis).
Um dos produtores de maior sucesso nos anos 70 e 80 foi o alemão Frank Farian. Em 2018, escrevi um texto sobre a explosão da discoteca no mundo (leia aqui), e contei um pouco a história de Farian:
O Boney M foi apenas um de incontáveis grupos de discoteca inventados por um produtor. No caso, o alemão Frank Farian. No fim de 1974, Farian gravou uma canção dançante chamada “Baby Do You Wanna Bump” (assim mesmo, uma pergunta sem ponto de interrogação). Lançado com o nome Boney M, o compacto fez sucesso em discotecas europeias, e Farian teve a ideia de montar um grupo de dançarinos e cantores para se apresentar ao vivo.
Ele contratou três lindas caribenhas – Maizie Williams, Marcia Barrett e Liz Mitchell – e um ex-marinheiro de Aruba, Bobby Farrel, uma espécie de clone de James Brown ainda mais estricnado, e montou o Boney M.
Em 1976, Farian lançou o primeiro LP da banda, “Take the Heat Off Me”. Marcia e Liz cantaram, mas Maizie e Bobby eram tão desafinados que foram proibidos de abrir a boca (o próprio Farian fez os vocais de Bobby, incluindo a voz grave em “Daddy Cool”).
Uma década depois do Boney M., Farian montou outro grupo musical picareta e que fez ainda mais sucesso: Milli Vanilli, uma dupla formada por dois dançarinos tão lindos quanto desafinados: o alemão Robert “Rob” Pilatus, filho de um negro americano e uma alemã, e o francês Fabrice “Fab” Morvan, filho de pais caribenhos.
O canal de streaming Paramount+ acaba de estrear um documentário sobre a dupla, chamado simplesmente “Milli Vanilli”, e o filme consegue ser tão cara de pau quanto Frank Farian. Quem o assiste fica com a impressão de que NINGUÉM na indústria musical sabia que Rob e Fab não cantavam, e que todos foram pegos de surpresa por essa notícia-bomba.
Para quem não conhece a história da dupla, um rápido resumo: Farian gravou o primeiro disco da dupla em 1989, usando cantores e cantoras de estúdio. O disco explodiu e passou sete semanas no topo da parada da “Billboard”. Rob e Fab embarcaram numa turnê pelos Estados Unidos, onde se limitavam a dançar e dublar.
Estava tudo indo às mil maravilhas, quando um inesperado “acidente” ocorreu: o Milli Vanilli ganhou o Grammy de melhor artista estreante, batendo nomes de peso como Neneh Cherry, Tone Loc, Indigo Girls e Soul II Soul. Logo depois, um dos cantores de estúdio veio a público e revelou que Rob e Fab não haviam gravado o disco. O escândalo de ver dois dubladores recebendo o maior prêmio da indústria da música foi tamanho que o Milli Vanilli foi obrigado a devolver o prêmio. Foi a primeira vez que isso ocorreu (e não ajudou em nada o fato de Rob, num ataque de egocentrismo certamente amplificado pelas montanhas de cocaína que consumia, ter declarado ser mais talentoso que os Beatles e Bob Dylan).
O documentário é competente em contar a história de Rob e Fab, a fulminante ascensão da dupla e sua queda ainda mais veloz, mas peca ao tratar o telespectador como idiota e não explicar que as ações de Frank Farian não eram apenas conhecidas em 1988, mas absolutamente corriqueiras. O doc trata o produtor como um verdadeiro demônio, que teria enganado os dois cantores e toda a indústria.
Ver executivos da gravadora Arista, liderada pelo lendário Clive Davis (o gênio que descobriu Janis Joplin e Whitney Houston), dizendo que não tinham a menor ideia de que Rob e Fab não haviam cantado no disco, é uma piada de mau gosto e compromete a integridade jornalística do filme. Acho que vale a pena assistir a “Milli Vanilli” porque a história de Rob e Fab é muito interessante, mas não de deixa enganar pela narrativa fantasiosa. Rob e Fab não foram vítimas como o filme faz parecer, mas apenas engrenagens numa máquina azeitada chamada música pop, que funciona assim há décadas e continua a funcionar da mesma maneira hoje, com o Autotune e outras maravilhas que permitem a qualquer um soar como Frank Sinatra ou Ella Fitzgerald.
Uma ótima semana a todas e todos!
11 comentários em "Crítica: “Milli Vanilli”"
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Acabei de assistir ao documentário e haja óleo de peroba pra hidratar o rosto dessa galerinha irada…
O mais incrível é imaginar que hoje não só há mais picaretagens do tipo, como são feitas mais escancaradamente
Fala tricolor,
Foi sensacional o título. Eu choro de cinco em cinco minutos. Minha mãe era muito tricolor e merecia ver esse título. Ela se foi em 2016. Acabamos com esse fantasma que nos assombrava. Agora é só alegria. Sobre o post, o que me deixou feliz no final do documentário foi ver que o Fab Morvan deu a volta por cima. Todo mundo merece uma segunda chance. Claro que ele errou mas o Rob Pilatus sucumbiu a vergonha de ter enganado todo mundo. Ele correu atrás e agora tem uma carreira honesta. Não canta bem mas quem assiste gosta. Alias todo mundo gosta das musicas do Milli Vanilli. Pude atestar isso dias atrás quando levei uma caixinha JBL que tenho para uma confraternização e toquei Milli Vanilli. Todo mundo dançou, literalmente.
André, parabéns para o seu Tricolor, campeão com toda a justiça da Libertadores, num jogo em que poderiam ter ganho com até mais facilidade do Boca, mas Libertadores é assim mesmo, agora quem sabe vocês se empolgam e alcancem o meu Tricolor Paulista, o Tricolor Gaúcho e alguns outros com três títulos!!!!
Sobre o post, se a prática era tão disseminada assim, por que os Milli Vanillis pagaram o pato? (E só eles porque o produtor da dupla continuou dando seus “golpes” como se nada tivesse acontecido….)
Como escrevi, nada disso teria acontecido se eles não tivessem vencido o Grammy.
Parabéns pelo título, André… Merecidíssimo!
Diniz x Guardiola… só o tempo dirá quem vencerá!
Aguardemos dezembro!
Mais uma ótima análise sobre as nossas amadas picaretagens musicais! Mas a melhor notícia do dia é que André Barcinski não infartou, mesmo com as grandes emoções do último sábado!
Foi quase!
Não existe virgem no puteiro… os produtores fazendo aquela cara de ‘ninguém imaginava isso’ é meio inacreditável, uma inocência que não combina com aquelas raposas… imagino que essa semana nada prejudique o teu humor (e do resto da Barcinski Manor)… parabéns de um tricolor gaúcho para um carioca, seja bem vindo ao clube dos campeões da América, que o Fluzão não seja um acidente como o Once Caldas e o Inter. Abraço!!!
Valeu demais!