Crítica: “Love to Love You, Donna Summer”
Uma das tendências mais irritantes do cinema documental dos últimos anos é o “Filme de família”. Não sei se é consequência da popularidade de “reality shows” familiares, mas o fato é que temos visto um crescimento impressionante no número de documentários feitos por parentes dos retratados. É como se a história de vida desses personagens já não bastasse. Agora, é necessário, a exemplo dos “realities”, explorar a dinâmica interna de sua família e seus conflitos com filhos e pais.
O problema é que, muitas vezes, a biografia do personagem é muito mais interessante do que eventuais dilemas familiares, que são jogados na narrativa apenas para tentar “humanizar” a história. Um exemplo recente é o de “Sr.”, doc feito pelo ator Robert Downey Jr. sobre o pai, o cineasta Robert Downey Sr.: as partes que contam a vida e carreira do pai são ótimas; as DRs familiares são bem chatas.
Outro dia, parei de ver no meio um doc sobre uma figura que admiro demais, a cantora Poly Styrene, do grupo punk X-Ray Spex, depois de ver que a diretora, Celeste Bell, filha de Poly, era a personagem principal do filme e passava o tempo todo “tentando entender” quem era a mãe. Ora, eu quero saber sobre Poly, não sobre a filha.
Para ser justo, preciso dizer que nem todo filme “familiar” sofre desse mal: “Whatever Happened, Miss Simone?”, sobre a cantora Nina Simone, é um filme muito equilibrado e jornalisticamente válido, mesmo sendo produzido pela filha de Nina, Lisa Simone. Mas é um caso raro.
Esses dias, a HBO Max estreou “Love to Love You, Donna Summer”. Como fã de Donna e amante da disco music, fui correndo assistir. Juro que só cheguei ao fim por obrigação profissional e para escrever esse texto, porque o filme é lamentável do início ao fim. Dirigido pela filha de Donna, Brooklyn Sudano, em parceria com Roger Ross Williams (diretor de um bom doc sobre o lendário teatro Apollo, meca da música negra em Nova York, e também disponível na HBO Max), o filme deixa de lado informações documentais importantes para se concentrar em dilemas familiares que, no fim das contas, não são interessantes como os diretores querem fazer parecer. Na quarta vez que Brooklyn aparece chorando ao ver fotos da mãe, minha vontade era desligar a TV e botar um disco de Donna Summer na vitrola.
Donna é um dos grandes ícones da discoteca. Sua gravação de “Love to Love You Baby”, de 1975, é um marco do gênero. Pois bem: os gênios de produção que conceberam a música, o italiano Giorgio Moroder e o inglês Pete Bellotte, são entrevistado em off, sem imagem, e sem nenhuma contextualização. Não há UMA explicação sobre quem eles são, que tipo de música faziam nos anos 70 e como criaram a batida eletrônica repetitiva que marcaria a música dançante para sempre.
Da mesma forma, o filme não perde tempo explicando as origens da discoteca, um gênero nascido nos Estados Unidos em boates gays frequentadas por negros e latinos, e que depois se espalhou para todo o mundo. É uma história fascinante, da qual Donna Summer foi um nome fundamental. Mas quem assiste ao filme não sabe.
Em vez disso, temos intermináveis cenas em que as filhas de Donna conversam sobre a mãe e repetem, ad nauseam, que ela era uma moça religiosa e careta que foi “obrigada” a interpretar o papel de sex symbol. Um acontecimento realmente forte e marcante – o suposto estupro de Donna, ainda adolescente, por um pastor da igreja que a família frequentava – recebe menos atenção do que divagações sobre a suposta tristeza que a cantora sentia ao fazer o papel de femme fatale.
“Love to Love You, Donna Summer” vale por cenas de arquivo sensacionais do Studio 54 e de outras casas noturnas clássicas do período, assim como números musicais de Donna Summer, incluindo um famoso show no Hollywood Bowl, em Los Angeles. Mas, jornalisticamente, o filme deixa muito a desejar. É uma pena ver uma personagem tão importante desperdiçada num filme tão pouco inspirado.
Um ótimo dia a todas e todos.
14 comentários em "Crítica: “Love to Love You, Donna Summer”"
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oi André, lembra do nome do doc sobre o Apollo?
Acho que chama “Apollo”, tá na HBO Max.
E falando em docs biográficos, vc assistiu ao documentário sobre o Galvão Bueno, no Globoplay?
Se viu, o que achou?
Não vi ainda. Vale?
André, a disco music tem uma história interessantíssima, desde os seus primórdios nas boates e gueto gays, com muita influência negra e latina (principalmente porto-riquenha) até o seu “branqueamento” com todos os grandes astros do pop se arriscando a fazer disco depois do estouro com os já veteranos Bee Gees e John Travolta!!!
Uma pena, no caso desse doc fazerem da história da Donna, um Casos de Família piorado…
Exatamente isso.
concordo muito com o cansaço desses dramas familiares. Tenho o mesmo bode com aquele jornalismo preguiçoso que fica horas entrevistando e mostrando familiares de atletas antes de olimpíadas e copas do mundo.
O que vc acha do documentário do quincy jones? também é feito pela filha, mas acho que nesse caso tem pouco drama, e o acesso acabou funcionando pra ter boas cenas da intimidade dele. A gravação da ligação que ele faz pra Oprah, se lembro bem, pra arranjar quem ia tocar / cantar na posse do obama é fenomenal.
PS: outro documentário interessante que foca demais em drama familiar é um brasileiro, o “homem que engarrafava nuvens”, que quase fala mais da denise dumont, produtora, que do seu pai e assunto do doc, o interessantíssimo humberto teixeira, parceiro do gonzagão.
Bem lembrado, não atentei para o fato de ser feito pela filha. É um ótimo filme.
Me lembrou da “biografia” sobre o Joey Ramone escrita pelo irmão Mickey Leigh; o tempo todo querendo se colocar na história.
Nem li esse troço, acho o irmão um personagem mala demais.
Ontem eu vi “Everything is Copy”, documentário sobre a roteirista e diretora Nora Ephron. Fiquei bastante surpreso! Apesar de dirigido pelo filho dela (com o jornalista Carl Bernstein, com quem ela foi casada), o filme é um retrato bem bacana e bem pouco chapa branca. O time de entrevistados é excelente: Mike Nichols, Gay Talese, Carl Bernstein, Spielberg, David Remnick, Meryl Streep, Tom Hanks, Rob Reiner, entre outros!
Tá na fila, não vi ainda, obrigado pela dica.
Realmente, há lacunas que só desqualificam o filme… Não há um pio sobre o único filme que Donna fez como atriz, “Até que enfim é sexta-feira” (1978), que venceu o Oscar de melhor canção original (cantada por ela!). Se isso não tem importância para ser mencionado numa cinebiografia…
Um cara como Giorgio Moroder passou quase incógnito pelo doc. Quase dava pra ouvir a filha falando pro pai ” Pai, lembra quando a mãe queria que eu comesse mingau e eu recusei.” Só faltou isso.