fev/2022

Crítica: “Licorice Pizza”, de Paul Thomas Anderson

Por André Barcinski

Crítica: “Licorice Pizza”, de Paul Thomas Anderson

Por André Barcinski

Paul Thomas Anderson tem dez longas no currículo, cada um sobre um universo diferente, seja o mundo do cinema pornô (“Boogie Nights”), o surgimento de uma seita ao estilo da Cientologia (“O Mestre”), os bastidores da TV e do showbiz (“Magnólia”), os pioneiros exploradores de poços de petróleo no fim do século 19 (“Sangue Negro”), o mundinho da alta costura londrina dos anos 1950 (“Trama Fantasma”), a contracultura californiana enfrentando Nixon (“Vício Inerente”) e o mundo dos jogos de azar em Las Vegas (“Hard Eight”). Alguns temas e locais são recorrentes: qualquer fã do diretor sabe o apreço dele pelos anos 70 e por histórias passadas nos subúrbios de Los Angeles, onde Anderson nasceu e cresceu.

Anderson escreve seus próprios filmes, e os roteiros costumam ser primorosos na difícil tarefa de criar grandes histórias pessoais ocorridas em períodos interessantes. Tão fascinante quanto a vida e carreira do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) em “Trama Fantasma” são os bastidores do mundo fashion da Londres dos anos 1950. “Boogie Nights” reúne uma coleção de grandes personagens, mas pode ser apreciado também como um mergulho nos primórdios da indústria do cinema pornô, quase um documentário.

Os roteiros de Anderson não são lineares e não se atêm a uma só trama. Ele tem a rara habilidade de criar subtramas e histórias paralelas que complementam, geralmente de forma brilhante, o fio narrativo principal. No meio de “Sangue Negro”, por exemplo, há uma longa e marcante sequência sobre o inesperado aparecimento de um irmão perdido do personagem de Daniel Day-Lewis.  O filme poderia existir sem essa sequência? Claro que sim, mas não teria a mesma força, e o personagem vivido por Day-Lewis não seria tão interessante.

Aí chegamos a “Licorice Pizza”, um filme claramente autobiográfico, passado nos anos 70, sobre um menino de 15 anos, Gary Valentine (Cooper Hoffman, filho do saudoso Philip Seymour, parceiro habitual de Anderson) que vive no Vale de São Fernando, subúrbio de Los Angeles, onde conhece e se apaixona por uma mulher dez anos mais velha, Alana (a ótima Alana Haim, cantora da banda pop Haim).

A exemplo dos outros filmes de Anderson, “Licorice Pizza” traz uma vasta coleção de personagens secundários e subtramas. Gary é um ator mirim, mas ganha a vida também vendendo colchões de água e gerenciando um salão de máquinas de pinball. Alana sonha em ser atriz e faz testes para agentes do showbiz. Essas aventuras levam os dois a encontros com personagens variados, de veteranos de Hollywood (Sean Penn e Tom Waits) a caricatas apresentadoras de TV (Christine Ebersole), passando por um playboy cheirador e arrogante, namorado de Barbra Streisand (Bradley Cooper) e um candidato a prefeito (Ben Safdie).

O problema de “Licorice Pizza” é que os personagens e subtramas, diferentemente do que ocorre em outros filmes de Anderson, não acrescentam quase nada ao filme. Na verdade, puxam o filme para baixo, como âncoras. Pessoas e situações aparecem do nada, somem dois minutos depois e, no fim, não fazem a menor falta.

O frustrante é que algumas dessas sequências foram filmadas e atuadas com muito talento. Há uma cena dentro de um caminhão sem gasolina que seria antológica se estivesse inserida em algum contexto, e não simplesmente jogada no meio do filme. A impressão é de que Paul Thomas Anderson pegou todas as cenas que criou e não pôde filmar em outras produções e resolveu inclui-las em “Licorice Pizza”.

O resultado é um filme tedioso e sem foco, que deixa de lado a história principal para decorar a trama com bijuterias supérfluas.

O talento do diretor é inegável. Ele dirige planos-sequência maravilhosos, muito fluidos e criativos, e sua direção de atores é primorosa. Mas os talentos de Paul Thomas Anderson sempre serviram à história. Pela primeira vez, ele parece estar se exibindo, fazendo embaixadinhas em vez de marcar um gol.

Um bom exemplo é a sequência em que Sean Penn e Tom Waits, interpretando dois veteranos da velha Hollywood, levam todos os clientes de um restaurante para o jardim, onde reencenam um trecho de um filme de sucesso interpretado por Penn. Os atores e o diretor estão se divertindo mais do que a plateia, com certeza.

O filme é cheio de referências a Hollywood: Bradley Cooper interpreta Jon Peters, produtor-executivo de filmes como “Flashdance” e “Rain Man”; Sean Penn faz um ator chamado Jack Holden, referência a William Holden; a personagem de Christine Ebersole é inspirada em Lucille Ball, e o ator John C. Reilly, colaborador frequente de Anderson, faz uma ponta, irreconhecível, no papel de Fred Gwynne, o ator que fazia Herman na série “Família Monstro”.  

“Licorice Pizza” vale pela recriação dos subúrbios californianos dos anos 70, uma trilha sonora excelente (Bowie, Nina Simone, Sonny & Cher, Donovan) e por algumas cenas tecnicamente admiráveis. Mas a história central, o romance entre Alana e Gary, simplesmente não decola.

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