Crítica: “Kurt Cobain – Montage of Heck”
Publicado originalmente na “Folha de S. Paulo” em 2015
“Kurt Cobain – Montage of Heck”, de Brett Morgen, foi feito a partir de material inédito de fotos e filmes da família Cobain, mostrando a infância e adolescência de Kurt e cenas íntimas dele com a mulher, Courtney Love, e a filha, Frances.
Só de conhecer a família de Kurt dá para perceber que as coisas não vão acabar bem. A mãe, Wendy, tem um ar insano e parece falar com raiva sobre o filho; o pai, Don, admite que foi ausente. O casal se separou quando Kurt tinha nove anos, e o menino passou um tempão pulando de casa em casa, morando com parentes e sendo expulso de todos os lugares por mau comportamento e violência.
O “Montage of Heck” do título é uma fita cassete gravada por Cobain em 1988, em que ele mixa trechos de músicas com depoimentos sobre sua vida. A fita foi usada de base para desenhos animados que narram algumas passagens da vida de Cobain. O efeito é fantasmagórico, como se ouvíssemos um morto recapitulando sua vida.
O filme usa também cadernos de anotações e desenhos de Kurt, e os rabiscos mostram um cara inseguro, ambicioso e com muita, mas muita raiva do mundo.
As cenas mais impactantes do filme mostram a intimidade do casal Kurt e Courtney Love, claramente chapados de heroína, brincando com Frances, ainda bebê. A impressão é de que um desastre pode acontecer a qualquer momento. E essas são as cenas aprovadas por Courtney, o que leva a imaginar como seriam as imagens que a esposa não quis exibir.
O filme mostra a formação do Nirvana, o sucesso fulminante da banda e o efeito disso na cabeça frágil de Kurt. “Quando ele me mostrou [as demos de ‘Nevermind’], eu disse: ‘Filho, é bom você apertar o cinto, porque você não está preparado para isso”, diz a mãe, Wendy, como se antecipasse as consequências que a fama teria para o filho.
Krist Novoselic, parceiro de Kurt no Nirvana, diz se arrepender de não ter visto “os sinais” de que algo não estava legal na cabeça do amigo e que o levariam ao suicídio, em 1994: “Eu devera ter dito algo!”.
Mas a entrevista mais reveladora é a da viúva, Courtney Love. Ela conta que a tentativa de suicídio de Kurt em Roma, quando engoliu mais de 60 comprimidos tranquilizantes, ocorreu porque ele desconfiou que ela estava tendo um caso. “Eu pensei eu trair o Kurt, mas não o fiz. Mas ele parecia ter um sexto sentido e pressentiu a traição”, diz Courtney. Um mês depois, Kurt atirou contra a própria cabeça.
O filme pode ser visto na Claro TV, Apple TV, Youtube Filmes e Google Play.
Sexta, dia 7, publico o último texto não-inédito. O blog retorna com textos inéditos na segunda, dia 10.
12 comentários em "Crítica: “Kurt Cobain – Montage of Heck”"
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O (bom) filme mostra – assim percebi – que Cobain tinha um lance meio “sombrio” nele, desde muito cedo. Não falo de nada místico, mas de alguma coisa psíquica, talvez. Essa raiva que você citou, por exemplo, mas não só. Heavier than heaven , a ótima bio sobre ele, mostra isso, também.
Definitivamente, não era um cara “light”. Desde pequeno.
André, só um detalhe. Esse documentário do youtube que você colocou na matéria (e que também é legal) na verdade é o Soaked In Bleach.
Caramba, foi mal, vou trocar, obrigado pelo toque.
Muito legal o filme, embora a vida do Kurt [como descrito no texto] foi trágica desde muito cedo. A vibe das cenas em família com a Frances bebê lembram o filme Trainspotting…
André, o mais impressionante de toda essa história toda do Kurt Cobain é que a Frances Bean parece ser uma pessoa aparentemente “normal” perto de todo o furacão que era a vida de seus pais e dela própria tbm…
Não tenho acompanhado a vida dela. Parece uma pessoa equilibrada? Tomara.
A cena do Kurt segurando o bebê chapado dá mais medo do que qualquer filme de terror feito ultimamente.
É apavorante mesmo.
“Quando ele me mostrou [as demos de ‘Nevermind’], eu disse: ‘Filho, é bom você apertar o cinto, porque você não está preparado para isso”, diz a mãe
Soa estranho a mãe do Kurt falar isso, sendo que a própria gravadora estimava (com bastante otimismo) que o disco vendesse 25o mil cópias.
Na sua autobiografia, o Mark Lanegan fala bastante sobre a sua relação com o Kurt e do remorso de não ter percebido as idéias suicidas do cara. Um baita livro.
Preciso ler esse livro, vacilo meu…