Quem acompanha o site sabe o grau de adoração que tenho por Michael Mann. “Heat” é um dos meus filmes preferidos, assim como “Thief”. Gosto de tudo que ele fez: “Manhunter”, “Colateral”, “Ali”, “O Informante”, até “Miami Vice” e “Inimigos Públicos”. Aliás, gosto de quase tudo que Michael Mann dirigiu – “O Último dos Moicanos” e “Hacker” são de doer.
Por isso, minha expectativa para “Ferrari” estava nas alturas. Não sou grande fã ou conhecedor de automobilismo, mas a ideia de ver Mann, um dos maiores estetas do cinema de ação, filmando carros voando baixo a 300 por hora era simplesmente irresistível.
Mas que decepção! “Ferrari” é tudo que o cinema de Michael Mann nunca foi: chocho, sem graça, sem emoção, com personagens rasos e um roteiro molenga.
A história se passa em 1957, quando Enzo Ferrari (Adam Driver) prepara sua escuderia para correr a tradicional prova italiana das Mil Milhas. As coisas não vão nada bem na família Ferrari: marcas rivais, como Jaguar e Maserati, ameaçam deixar Enzo e sua turma para trás, com inovações tecnológicas e carros mais velozes. No ano anterior, Enzo e a esposa, Laura (Penélope Cruz) perderam o filho, Dino, vítima de uma doença renal. Enzo encontra consolo nos braços da amante, Lina (Shailene Woodley), com quem tem um filho, Piero.
No meio desse turbilhão, surge um novo piloto para a escuderia, Alfonso de Portago, um aristocrata espanhol (interpretado pelo brasileiro Gabriel Leone). Enzo faz uma aposta arriscada e contrata Portago para correr as Mil Milhas. Seu plano é vencer a prova e aumentar o valor da empresa para conseguir um aporte de dinheiro de alguma montadora gigante, como Fiat ou Ford.
Bom, o filme tinha, portanto, dois caminhos interessantes: o pessoal e o esportivo/corporativo. Como Enzo Ferrari vai lidar com a questão de ter um filho ilegítimo, tendo acabado de perder seu único herdeiro? E como vai, em meio a esse caos, liderar a reconstrução da empresa, que está a perigo?
O roteiro, escrito por Troy Kennedy Martin, simplesmente diluiu os dois caminhos em subtramas absolutamente sem graça e sem emoção. O curioso é que Martin morreu em 2009 e escreveu o roteiro há uns 20 anos, e Michael Mann, que sempre teve um ótimo faro para grandes histórias, passou duas décadas com o roteiro debaixo do braço, salivando para filmá-lo. Por que ele se empolgou tanto com isso, não consigo explicar.
“Ferrari”, o filme, não funciona como drama pessoal, porque a história da amante/esposa se resolve da maneira mais mundana possível, e também não funciona como filme de ação, porque as cenas de corrida não são imaginativas como se poderia esperar de Michael Mann, e o clímax, que não revelarei para não estragar a surpresa, não tem efeito algum no desfecho da trama. Ao fim da sessão, o sentimento era de melancolia, e isso, eu nunca havia sentido num filme de Michael Mann. E vou dizer algo que também nunca imaginaria: “Ford vs. Ferrari”, de James Mangold, é bem mais divertido.
E só eu achei toscos os acidentes em computação gráfica?
O blog volta na Quarta-Feira de Cinzas. Um ótimo Carnaval a todas e todos!
11 comentários em "Crítica: “Ferrari”"
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Falando sobre o Mann, no começo do ano eu terminei de ler a bomba da autobiografia do Will Smith, que é nada mais que um livro mequetrefe de auto-ajuda… Mas o capítulo sobre a produção e as filmagens de Ali é incrível e vale muito a leitura, principalmente pra você que é fã do Michael Mann.
Se pintar uma cópia do livro por aí, vá direto pra esse capítulo e delicie-se
Não tinha me interessado por esse livro, mas agora…
OT: André, vc assistiu Zona de Interesse? Filme para adultos, acho q vai curtir!
Não consegui, só semana que vem quando irei a SP…
Michael Mann dirigiu e produz episódios da série Tokyo Vice, na HBO. Achei um bom trampo, apesar da trama se arrastar no meio da temporada… É a história de um jornalista americano que consegue um emprego no maior jornal do Japão, vale a pena dar uma conferida
*Will Smith como Ali…
Will Smith Com Ali está de doer. O Último dos Moicanos acho um baita filme…. e acho esse Adam Driver superestimado.
Não li Heat 2, mas pressinto que se o Mann trouxer pro Cinema, vai ser uma bomba, mas enfim, Michael Mann raramente erra.
bom dia Andre,
Sabe se vai ter realmente Heat 2?
Parabéns pelo livro do Nelson Ned , espero que consiga transforma lo em Filme.
Abraço
Eden
Cara eu li o Mann dizendo que vai fazer o 2 sim. E obrigado pela força, esperamos conseguir emplacar o filme do Ned. Abraço!
Eu tenho por mim que esse envolvimento com o roteiro tem relação com o fato do Mann ser um conhecido colecionador de Ferraris. Teve várias e sempre reverenciou a marca.
Nessa matéria da Vulture ele fala sobre ter Ferraris e deixa transparecer seu fanatismo.
https://www.vulture.com/2023/12/michael-mann-bought-ferrari-thief.html
Forte abraço e boa folia, meu caro André!
Pois é, talvez ele tenha deixado o amor dele pelo carro falar mais alto que a razão.