fev/2024

Crítica: “Ferrari”

Por André Barcinski

Crítica: “Ferrari”

Por André Barcinski

Quem acompanha o site sabe o grau de adoração que tenho por Michael Mann. “Heat” é um dos meus filmes preferidos, assim como “Thief”. Gosto de tudo que ele fez: “Manhunter”, “Colateral”, “Ali”, “O Informante”, até “Miami Vice” e “Inimigos Públicos”. Aliás, gosto de quase tudo que Michael Mann dirigiu – “O Último dos Moicanos” e “Hacker” são de doer.

Por isso, minha expectativa para “Ferrari” estava nas alturas. Não sou grande fã ou conhecedor de automobilismo, mas a ideia de ver Mann, um dos maiores estetas do cinema de ação,  filmando carros voando baixo a 300 por hora era simplesmente irresistível.

Mas que decepção! “Ferrari” é tudo que o cinema de Michael Mann nunca foi: chocho, sem graça, sem emoção, com personagens rasos e um roteiro molenga.

A história se passa em 1957, quando Enzo Ferrari (Adam Driver) prepara sua escuderia para correr a tradicional prova italiana das Mil Milhas. As coisas não vão nada bem na família Ferrari: marcas rivais, como Jaguar e Maserati, ameaçam deixar Enzo e sua turma para trás, com inovações tecnológicas e carros mais velozes. No ano anterior, Enzo e a esposa, Laura (Penélope Cruz) perderam o filho, Dino, vítima de uma doença renal. Enzo encontra consolo nos braços da amante, Lina (Shailene Woodley), com quem tem um filho, Piero.

No meio desse turbilhão, surge um novo piloto para a escuderia, Alfonso de Portago, um aristocrata espanhol (interpretado pelo brasileiro Gabriel Leone). Enzo faz uma aposta arriscada e contrata Portago para correr as Mil Milhas. Seu plano é vencer a prova e aumentar o valor da empresa para conseguir um aporte de dinheiro de alguma montadora gigante, como Fiat ou Ford.

Bom, o filme tinha, portanto, dois caminhos interessantes: o pessoal e o esportivo/corporativo. Como Enzo Ferrari vai lidar com a questão de ter um filho ilegítimo, tendo acabado de perder seu único herdeiro? E como vai, em meio a esse caos, liderar a reconstrução da empresa, que está a perigo?  

O roteiro, escrito por Troy Kennedy Martin, simplesmente diluiu os dois caminhos em subtramas absolutamente sem graça e sem emoção. O curioso é que Martin morreu em 2009 e escreveu o roteiro há uns 20 anos, e Michael Mann, que sempre teve um ótimo faro para grandes histórias, passou duas décadas com o roteiro debaixo do braço, salivando para filmá-lo. Por que ele se empolgou tanto com isso, não consigo explicar.

“Ferrari”, o filme, não funciona como drama pessoal, porque a história da amante/esposa se resolve da maneira mais mundana possível, e também não funciona como filme de ação, porque as cenas de corrida não são imaginativas como se poderia esperar de Michael Mann, e o clímax, que não revelarei para não estragar a surpresa, não tem efeito algum no desfecho da trama. Ao fim da sessão, o sentimento era de melancolia,  e isso, eu nunca havia sentido num filme de Michael Mann. E vou dizer algo que também nunca imaginaria: “Ford vs. Ferrari”, de James Mangold, é bem mais divertido.

E só eu achei toscos os acidentes em computação gráfica?

O blog volta na Quarta-Feira de Cinzas. Um ótimo Carnaval a todas e todos!

11 comentários em "Crítica: “Ferrari”"

Deixe seu comentário

Ir para o topo