Crítica: “Federer – Doze Últimos Dias”
Alguns eventos do esporte são históricos por antecedência. Um deles ocorreu em setembro de 2022, quando o suíço Roger Federer, um dos maiores tenistas de todos os tempos, anunciou a aposentadoria.
O último jogo da carreira de Federer aconteceria alguns dias depois, quando ele e seu maior rival, o espanhol Rafael Nadal, enfrentariam os norte-americanos Francis Tiafoe e Jack Sock num jogo de duplas da Laver Cup, tprneio em que um time de tenistas europeus enfrenta outro time formado por atletas do resto do mundo.
O jogo final ocorre em 23 de setembro de 2022. Federer, penando com dores no joelho, não é sombra do tenista que vinha assombrando o mundo há duas décadas, e o resultado é uma vitória apertada da dupla Tiafoe e Sock. Mas o resultado não interessava muito. O público – 16500 pessoas que lotavam uma arena em Londres – estava lá para reverenciar Federer. Muitos carregavam cartazes e bandeiras, e muitos choravam.
“Federer – Doze Últimos Dias” (Amazon Prime), dirigido por Joe Sabia e Asif Kapadia, este diretor de ótimos docs sobre Amy Winehouse e Ayrton Senna, cumpre o que promete: registra os 12 últimos dias de Roger Federer como atleta profissional. A estrutura narrativa do filme lembra mais um “reality show” do que um documentário, com algumas cenas claramente armadas – encontros íntimos de Federer com a família, papos com velhos amigos dentro de carros, cafés da manhã de Roger com os pais – tudo para adicionar emoção à história.
Não sou fã de “reality shows”. Costumo achar os clichês do gênero apelativos e bregas, e aqui a coisa não é diferente. Há uma overdose de cenas em que parentes de Federer aparecem de olhos marejados, ou em que o próprio tenista diz platitudes como “Os próximos dias serão duros, não se se vou aguentar”.
Os trechos realmente emocionantes, pelo menos para mim, são os que parecem espontâneos e menos “armados”, como um papo rápido de Federer com o ídolo Bjorn Borg, o sueco que dominou o tênis no fim dos anos 70, ou uma conversa de vestiário entre Federer e os companheiros do “Time Europa”, como Nadal e o sérvio Novak Djokovic. São instantes não roteirizados e, por isso, mais comoventes.
Um destaque é um rápido depoimento de John McEnroe, um dos maiores estetas do tênis, que chama Federer de “O Baryshnikov das quadras”. De fato, ninguém na história do tênis o praticou com tanta beleza e graça quanto Roger Federer, um perfeccionista de golpes irretocáveis.
Que ninguém espere de “Federer – Doze Últimos Dias” uma coletânea dos melhores momentos da carreira do tenista. Há algumas cenas de arquivo, todas incríveis, mas para quem deseja se deliciar com jogadas antológicas, recomendo ler esse texto que fiz em 2013, em que destaco uma jogada que o grande escritor David Foster Wallace, fã de Federer, considera a mais bonita da carreira do tenista. E também sugiro ver esse filme (infelizmente, sem legendas) sobre a final de Wimbledon de 2008, entre Federer e Nadal, considerada por muitos a maior partida da história do tênis:
Claro que o final de “Federer – Doze Últimos Dias”, com as imagens do público chorando ao se despedir de Federer numa quadra pela última vez, são de partir o coração. Qualquer um que ama o tênis vai se emocionar. Mas nós, fãs, ainda aguardamos o documentário definitivo sobre a maestria de Roger Federer.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
8 comentários em "Crítica: “Federer – Doze Últimos Dias”"
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André, mesmo não sendo um grande apaixonado pelo tênis (acho os tenistas mais interessantes que o esporte que praticam), sempre que passava um jogo do Federer na TV, eu parava para assistir, pois ele realmente foi um gênio, na lista entre os maiores atletas de todos os tempos, de qualquer modalidade!!!!
Verdade, não dá pra discutir.
Quem foi o maior tenista masculino da História na tua opinião? E feminina?
Tu jogava bem, André?
Acho que Federer e Martina Navratilova. Mas o meu favorito sempre foi o Borg.
Gosto de bater uma bolinha e, por conviver com alguns conhecidos que também jogam, atesto: a quantidade de marmanjo que ficou com os olhos marejados ao ver esse documentário é gigante. Achei piegas num tom aceitável, digno da trajetória do Federer.
Sim, foi bem no limite.
Xará, a foto que escolheu para ilustrar o texto foi demais. Que imagem linda! Que fase o tênis teve com esses três gênios. Pena q esta acabando.
Sim, dois gigantes.