nov/2023

Crítica: “Cousin”, do Wilco

Por André Barcinski

Crítica: “Cousin”, do Wilco

Por André Barcinski

Confesso que não me empolguei com o disco que o Wilco lançou ano passado, “Cruel Country”. Achei-o simplório e pouco inspirado, especialmente por ter sido o primeiro lançado após a pandemia. Como uma banda de músicos incrivelmente talentosos, que tocam juntos há tantos anos e têm seu próprio estúdio em Chicago, onde ensaiam e testam novas músicas sem pressa, pode ter feito um disco tão simplório?

Talvez a resposta esteja em “Cousin”, o disco mais recente, que acaba de sair. A impressão é de que o Wilco juntou suas canções mais “simples” e “diretas” no álbum anterior e guardou as faixas mais inventivas e “esquisitas” para esse novo lançamento, que parece marcar uma volta à fase dos experimentalismos geniais de discos como “Yankee Hotel Foxtrot” (2001), “A Ghost is Born” (2004) e “Sky Blue Sky” (2007). Para tornar a coisa ainda mais “diferente”, Jeff Tweedy convidou a cantora galesa Cate Le Bon para produzir o disco, a primeira vez que o Wilco usa um produtor de fora da banda desde 2009.

O Wilco tem 30 anos de carreira. Começou ainda na pegada alt-country da banda anterior de Jeff Tweedy, o Uncle Tupelo, mas criou uma sonoridade única com a entrada de músicos extraordinários, como o baterista Glenn Kotche e o guitarrista Nels Cline, e a consequente guinada na direção de um som mais livre e inventivo, que passou a incorporar elementos mais jazzísticos e experimentais.

É reconfortante ouvir a faixa que abre o novo disco, “Infinite Surprise”, e perceber que o Wilco continua lindamente esquisito:

Ao mesmo tempo, a banda é capaz de fazer uma faixa como “Evicted”, uma baladona para cantar junto e que lembra os melhores momentos de “Yankee Hotel Foxtrot”:

Jeff Tweedy tem um talento especial para escrever letras que são minicrônicas de acontecimentos mundanos, mas que significam muito. E “Ten Dead”, relato de uma manhã lendo uma notícia de jornal sobre mais um massacre a tiros ocorrido nos Estados Unidos, é uma das letras mais fortes que ele fez em um bom tempo.

Já ouvi “Cousin” algumas vezes e, diferentemente do que ocorreu com “Cruel Country” – e, para ser honesto, com alguns dos discos mais recentes da banda – me pego sempre voltando a ele, o que é um ótimo sinal.

Será que, daqui a uns anos, “Cousin” ainda manterá o interesse, ou será mais um daqueles discos medianos de uma banda fora do comum? Se eu tivesse de apostar, diria que este é daqueles que ficam.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

8 comentários em "Crítica: “Cousin”, do Wilco"

  • Barça, concordo 1.000%, Cruel Country passou batido e olha que hoje Wilco é uma das minhas top 5! Cousin retomou o rumo depois de alguns álbuns fracos (Ode to Joy é bom). Você leu World Within a Song, novo livro do Tweedy? Interessante, ele conta sobre as canções que lhe marcaram desde a infância. Eu já sabia, mas legal ver que ele ouvia Amon Duul II e Mutantes rsrs.
    Grande abraço!
    PS. Curtindo muito o B3+1!!

  • O meu preferido desde star wars que eu gostei pra cacete aliás. Mas ainda acho star wars superior.

    Apesar da galera meter o pau no “schmilco “ acho que ele mantém bem a pegada “pop estranha” do grupo e gosto de ouvir de vez em quando .

    Mas de fato pra mim o mais legal desde star wars

  • Eu prefiro o Wilco da fase alt. country, adoro os álbuns A.M. e Being There, e confesso que esses discos mais experimentais, como o Yankee Hotel Foxtrot não me agradaram, mas vou ouvir Cousin, por ser indicação sua.

    P.S. Acho uma pena o John Stirrat não cantar mais nos discos.

    Abraço e bom final de semana.

  • A minha sensação ao ouvir esse disco foi a mesma. Uma volta ao Yankee Hotel.
    Outra particularidade é que Nels Cline não fez parte do Yankee, ele entrou logo depois, e sempre achei que ele trouxe mais melodia para o Wilco, com ótimos solos. Nesse último disco, ele contribuiu de uma forma diferente, sendo mais econômico, ou mais inventivo, ou jogando mais para a banda. Um ótimo disco.

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