O cinema comercial está numa fase tão ruim que qualquer filme para adultos que não seja uma idiotice completa se destaca. Trinta anos atrás, “Conclave”, que acaba de estrear nos cinemas, seria apenas um passatempo divertido numa sala de cinema, mas hoje é um filme que merece ser visto, até pela raridade: uma obra para maiores de 18 anos, sem efeitos especiais e sem personagens usando capa.
Na verdade, alguns personagens usam capa sim, porque são cardeais da Igreja Católica e recorrem à vestimenta em ocasiões especiais. E “Conclave” trata de uma ocasião muito especial para os católicos: a eleição de um novo Papa.
Dirigido pelo suíço-alemão Edward Berger, cujo “Nada de Novo no Front” (2022) ganhou quatro Oscars, incluindo o de melhor filme estrangeiro, “Conclave” é um “thriller” sobre os bastidores políticos e politiqueiros envolvendo a escolha do novo Sumo Pontífice depois da morte repentina do Papa.
O Conselho de Cardeais se reúne no Vaticano para a escolha do sucessor, sob a liderança do Cardeal Thomas Lawrence (Ralph Fiennes). Os principais candidatos são o norte-americano Aldo Bellini (Stanley Tucci), um liberal com ideias progressistas, e seu nêmesis, um italiano conservador e linha-dura chamado Goffredo Tedesco (Sergio Castellito). Correm por fora o nigeriano Joshua Adeyemi (Lucian Msamati) e o canadense Joseph Tremblay (John Lithgow).
É muito interessante acompanhar os rituais da votação, em que os candidatos menos votados desistem e deixam a disputa aberta para aqueles que obtiveram mais votos. E a disputa pelo Papado tem consequências tão importantes que Lawrence, como “chefe” da votação, precisa ter muito cuidado para não favorecer nenhum lado.
“Conclave” logo vira uma intrincada trama de mistério e, por que não, espionagem e traições, com religiosos tramando contra “inimigos” e revelações bombásticas sobre alguns dos candidatos a Papa. Uma figura misteriosa, a Irmã Agnes (Isabella Rosselini), encarregada de preparar as acomodações para os cardeais, passa a ter um papel importante na trama, assim como um cardeal que chega de repente e se torna um personagem fundamental.
O elenco é excelente – Fiennes, Isabella Rosselini, John Lithgow, Stanley Tucci – e o roteiro, escrito pelo britânico Peter Straughan e adaptado de um romance de Robert Harris, consegue explicar todo o processo da eleição e suas particularidades sem soar professoral ou chato. “Conclave” não vai mudar o mundo, mas o mundo do cinema mudou tanto hoje em dia que um filme desses merece ser visto e recomendado.
Um ótimo dia a todas e todos.
9 comentários em "Crítica: “Conclave”"
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Tô procurando onde assistir. No Prime não está !
Nos cinemas, por enquanto.
As atuações são muito boas e a tensão no filme te deixa ligadaço no filme. Mas achei que o roteiro é expositivo demais, com exceção do personagem do Ralph Fiennes, os outros me pareceram com arquétipos muito definidos e poderiam ser mais bem desenvolvidos.
Mas vale a pena ver mesmo, é bem interessante.
Você viu “Challengers”? Não vi resenha aqui no site.
Cara, comecei a ver, mas não me conectei com aqueles três personagens. Vale?
Muito!
Parece meio bobo mesmo no início mas é surpreendente como a direção escolhe as interações depois. Poderia cair muito no óbvio e chato mas fica bem legal o enredo depois.
E tem a música do Trent Reznor!
John Lithgow é um baita ator!
Demais da conta!
Penso o mesmo, Hollywood fazia dezenas de filmes desses por ano, alguns melhores que outros, alguns poucos merecedores de concorrer ao Oscar. Naquela época Conclave, que é bom apenas, nem concorreria, mas o Edward Berger parece ser um bom artesão (Nada de Novo no Front era bom e bem feito, mas achei superestimado).
André, parabéns pela iniciativa de conversar com o Fábio sobre o Jurado No. 2. Vi a interação de vocês no Twitter e acho legal termos uma discussão com visões opostas (eu estou mais para o meio, achei bonzinho mas tampouco digno de muita nota).
Legal, vai ser muito interessante o papo com o Fabio na terça!