Alguns filmes merecem ser vistos, mesmo não correspondendo totalmente à expectativa do público. Acho que é o caso de “Blonde”, do australiano Andrew Dominik, exibido pela Netflix. Quando o filme terminou, minha primeira reação foi de desapontamento, mas eu não consegui parar de pensar em determinas cenas.
Adaptado pelo próprio Dominik do livro de Joyce Carol Oates, “Blonde” é uma cinebiografia de Marilyn Monroe. A atriz cubana Ana de Armas faz Marilyn. Ela está ótima no papel, embora o roteiro não lhe deixe muitas opções senão parecer triste, paranoica e amedrontada por quase todo o filme.
Dominik, que já fez dois documentários sobre Nick Cave e ótimos filmes como “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” (2007) e “O Homem da Máfia” (2012), claramente tentou fugir da fórmula surrada das cinebiografias convencionais, que narram a vida de alguém de forma cronológica e linear. O roteiro de Dominik mantém a cronologia dos fatos da vida de Marilyn – infância, ascensão em Hollywood, amores e declínio – mas ilustra a trajetória com muita inventividade, usando diferentes estilos visuais para cada passagem.
Há muito tempo eu não via um filme tão lindamente fotografado e com cenários, figurinos e direção de arte tão bonitos. Dominik estabeleceu um estilo para cada fase da vida de Marilyn: sua infância atormentada, em companhia da mãe psicologicamente desequilibrada e sofrendo com a ausência do pai, é fotografada como um filme de terror, com cenas surreais e imagens distorcidas. A perseguição da imprensa e a celebridade da atriz são fotografadas num preto e branco altamente contrastado, que lembra as imagens do fotógrafo de tabloides Weegee. E as sequências mais íntimas, especialmente as de seus relacionamentos amorosos, são mostradas num colorido que oscila entre o Technicolor exagerado, com vermelhos explosivos, e tons mais sépia e misteriosos, que remetem ao estilo do fotógrafo inglês David Hamilton.
O que “Blonde” tem de bonito, tem de confuso. O roteiro é um tanto bagunçado. Dominik optou por fazer da personagem quase um Jekyll & Hyde, criando duas metades: a ingênua Norma Jeane, a menina vitimizada, e a manipuladora Marilyn, seu alter ego, um vulcão de sensualidade. Essa saída simplista acaba por diminuir a força da personagem, porque toda decisão é colocada na conta de uma das duas metades. Quando a personagem decide fazer um aborto do qual se arrepende, vemos Norma Jean “culpando” Marilyn. O resultado é que o espectador acaba não se conectando com a personagem.
Outra questão que me incomodou no filme foi a descrição dos amores da atriz. Seja no trisal com os filhos de Charlie Chaplin e Edward G. Robinson aos romances com o astro do beisebol Joe DiMaggio, o escritor Arthur Miller e o presidente John F. Kennedy, os personagens masculinos surgem e somem da vida de Marilyn meio que de repente. Ficamos sem saber quem são essas pessoas e o que fez Marilyn se interessar por cada um deles.
Dominik é capaz de criar uma sequência linda e inventiva, para logo depois machucar os olhos do espectador com uma cena em que Marilyn “conversa” com o bebê que está em sua barriga. Raras vezes vi um filme que passa do sublime ao ridículo em tão pouco tempo.
Mesmo assim, cheio de problemas e exageros estéticos, “Blonde” vale seu tempo. Goste ou não, é o trabalho de um cineasta de talento, que se arrisca, e isso é artigo raro hoje em dia.
Um ótimo feriado a todas e todos!
8 comentários em "Crítica: “Blonde” (Netflix)"
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Ainda nao vi, pq nao tava levando feh. Mas depois do seu texto vou conferir.
Senti exatamente a mesma coisa com relacao a serie dos Pistols. Nao eh la grandes coisas, mas a direcao de arte era legal demais.
Quero ver! Tu já leu “O Lado Negro de Camelot – Sexo e Corrupção na Era Kennedy”, de Seymour Hersh? Estou lendo e adorando… o autor chega a citar que Marilyn fez um aborto de um filho do Kennedy no México…
André, pela atuação no Blonde, já estão cogitando a indicação da Ana de Armas para o Oscar do ano que vem de Melhor Atriz…
Na sua opinião, seria merecida ou um exagero marqueteiro?
Gostei muito da interpretação da Ana de Armas, até a voz ficou parecida com a da Marylin. Visualmente é um filme bonito (tirando aquele irritante feto de CGI), mas muito difícil de se gostar por conta da abordagem. André, você chegou a ler o livro da Joyce Carol Oates? Um abraço!
Gostei muito da crítica, mas ainda não vi o filme, apenas o documentário recomendado por você também aqui no blog e que está também na Netflix. Um dos melhores documentários que eu já vi.
Vi o doc, achei muito bom.
Barça, me desculpe o off topic, mas e quanto a assinatura do site do Garagem? Aconteceu algo? No APOIA.SE parece que não há nada sobre o assunto.
Cleibsom, infelizmente tivemos de cancelar o projeto. Para botar os programas antigos no ar, necessitaríamos de autorizações formais de TODOS que participaram dos programas, sob risco de problemas judiciais. Uma pena.