Crítica: “As Últimas Mulheres do Mar”
A Apple TV exibe “As Últimas Mulheres do Mar”, documentário sobre um grupo de mulheres, a maioria de terceira idade, que mantém viva a tradição das haenyeo, mergulhadoras sul-coreanas de Jeju, uma província formada por cerca de 60 ilhas ao sul do país, próximas ao Japão. As haenyeo vivem, há décadas, de recolher moluscos, crustáceos e algas marinhas.
Não é fácil ser uma haenyeo. Elas mergulham sem tanque e precisam prender a respiração por cerca de dois minutos para descer aos corais e coletar os frutos do mar. Num dia de trabalho, costumam fazer 500 a 600 mergulhos. “Quando você desce a mais de cinco metros de profundidade, acima de você a pressão da água cria uma parede azul”, conta uma delas. “Imagine ter de subir e bater a cabeça contra essa parede 600 vezes num dia?”
A profissão está acabando. As novas gerações, contam as mergulhadoras, não querem saber de um trabalho tão duro. “A gente mergulhava para dar de comer às nossas famílias”, diz uma delas. “A geração mais jovem não tem a mesma garra que nós”.
O início do filme é muito promissor. Somos apresentados a algumas das haenyeo e vemos seu cotidiano: com o dia amanhecendo, as senhorinhas se espremem na caçamba de uma caminhonete e são levadas ao cais, de onde saem em pequenos barcos. No trajeto, riem, põem o papo em dia e cantam antigas canções de pescadoras.
Quando chegam ao local da pesca, elas ajeitam as máscaras e nadadeiras e mergulham, carregando uma cesta presa a uma bóia. Ao fim do dia, as cestas estão lotadas de algas, conchas e ouriços. Mas isso é só metade do trabalho: de volta à sede das haenyeo, elas precisam limpar os moluscos e ouriços, deixando tudo pronto para a venda às peixarias e mercados.
Enquanto registro do dia a dia das haenyeo, “As Últimas Mulheres do Mar” funciona muito bem. O problema é que o filme parece não saber o que fazer com um tema tão instigante e tomou uma direção cada vez mais comum em documentários contemporâneos, que é a de transformar tudo em “reality show”.
Na segunda metade, o filme muda completamente de tom. As senhorinhas são confrontadas com um “problema” – o anúncio do despejo, no oceano, de água radioativa da usina japonesa de Fukushima – e a história passa a ser a das haenyeo protestando contra essa decisão. Vemos o grupo de mergulhadoras indo a passeatas, dando entrevistas e um depoimento emocionado numa reunião da ONU.
OK, tudo é válido, mas isso transforma o que era um filme numa reportagem de TV. Os protestos não têm resultado prático – o Japão despeja a água radioativa mesmo assim, conforme amplamente noticiado na imprensa mundial – e tudo que “As Últimas Mulheres do Mar” consegue é se arrastar até uma conclusão decepcionante para um assunto tão legal. Do ponto de vista histórico-jornalístico, o filme deixa muito a desejar. Não fica claro por que só mulheres são haenyeo ou quando esse grupo surgiu (as entrevistas são genéricas e pouco objetivas).
Enfim, vale a pena ver o filme pelas incríveis imagens das senhoras catando ouriços e algas, e para conhecer o cotidiano dessas mulheres fascinantes. Mas a sensação é de que o tema poderia ter rendido uma obra-prima do documentário.
Um ótimo dia a todas e todos.
4 comentários em "Crítica: “As Últimas Mulheres do Mar”"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
Oi André, o ano passado li um livro chamado “Herdeiras do Mar” de Mary Lynn Bracht, um romance q fala justamente das relações dessas mulheres com as novas gerações, com a história de ocupação japonesa durante a segunda guerra, escravas sexuais etc. Recomendo.
Abz
Parece demais isso, muito obrigado pela dica, não conheço.
André: um semi OT: Como você vê a consolidação do Soft Power sul-coreano, seja com o K-Pop, os Doramas, no cinema e agora até na Literatura, com a ganhadora do Nobel deste ano???
E “Parasita”, e muito mais. Vejo como consolidação de uma política cultural séria e muito bem realizada.