jun/2023

Cormac McCarthy: por onde começar?

Por André Barcinski

Cormac McCarthy: por onde começar?

Por André Barcinski

Semana passada morreu, aos 89 anos, o norte-americano Cormac McCarthy. Para muitos – eu me incluo no grupo – era o maior escritor vivo e um dos mais importantes desde a segunda metade do século 20.

McCarthy vivia para a literatura. Nunca escreveu nada além de livros e raramente dava entrevistas. Desde 1965, quando estreou com “The Orchard Keeper”, até 2022, quando saiu “Stella Maris”, foram apenas 12 romances, numa carreira atribulada e marcada pela pobreza dos primeiros anos, quando seus livros não vendiam mais de poucas centenas de cópias.

O hoje aclamado autor passou os primeiros 30 anos de carreira na maior dureza. Até 1992, quando lançou “Todos os Belos Cavalos”, nenhum de seus livros vendera mais de cinco mil cópias.

Seus primeiros quatro romances, lançados entre 1965 e 1979, eram claramente influenciados pela prosa de William Faulkner e traziam um senso de humor sombrio, levado a extremos em “Suttree”, história autobiográfica sobre um homem que abandona a vida confortável da família para se tornar um pescador no rio Tennessee (McCarthy era filho de um rico advogado e largou a fortuna da família para ser escritor).

O que salvou a carreira de McCarthy foi uma bolsa da Fundação MacArthur, recebida em 1981, e que o permitiu escrever sua obra-prima, “Meridiano de Sangue” (1985), violentíssima saga sobre mercenários causando carnificinas e massacrando índios na fronteira dos EUA com o México, em meados do século 19. Recebido com indiferença na época, foi ganhando status de “cult”, e hoje é considerado não só o auge da carreira de McCarthy, mas um dos maiores romances americanos do século 20 (o crítico e autor Harold Bloom escreveu que era o melhor livro americano desde “Enquanto Agonizo”, de Faulkner).

Mas o sucesso só viria mesmo depois que McCarthy suavizou a sanguinolência em suas histórias e lançou “Todos os Cavalos Selvagens”, primeira parte da chamada “Trilogia da Fronteira”, que traria ainda “A Travessia” (1994) e “Cidades da Planície” (1998).

Depois veio o sucesso mundial com dois livros extraordinários e bem mais acessíveis que “Meridiano”: “Onde os Velhos Não Têm Vez” (2005), adaptado pelos Irmãos Coen num filme sensacional, vencedor do Oscar, e “A Estrada” (2006), que ganhou o Prêmio Pulitzer.

Dos 12 livros de McCarthy, li dez. Ainda não consegui botar as mãos em “O Passageiro” e “Stela Maris”, que saíram ano passado, mas prometo corrigir essa falha em breve.

Para quem não conhece o trabalho dele, recomendo ler, na seguinte ordem:

“A Estrada” – História dilacerante sobre um pai que caminha com o filho pequeno pela civilização destruída por um cataclisma (não especificado na história).

“Onde os Velhos Não Têm Vez” – Banho de sangue na fronteira dos EUA com o México, nos anos 1980, depois que uma transação de drogas dá errado.

“Meridiano de Sangue” – Estilisticamente, o livro mais complexo e “difícil” de McCarthy, mas também o mais surreal e lisérgico em suas descrições de barbaridades e crimes.

Uma ótima semana a todas e todos!

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