Cormac McCarthy: por onde começar?
Semana passada morreu, aos 89 anos, o norte-americano Cormac McCarthy. Para muitos – eu me incluo no grupo – era o maior escritor vivo e um dos mais importantes desde a segunda metade do século 20.
McCarthy vivia para a literatura. Nunca escreveu nada além de livros e raramente dava entrevistas. Desde 1965, quando estreou com “The Orchard Keeper”, até 2022, quando saiu “Stella Maris”, foram apenas 12 romances, numa carreira atribulada e marcada pela pobreza dos primeiros anos, quando seus livros não vendiam mais de poucas centenas de cópias.
O hoje aclamado autor passou os primeiros 30 anos de carreira na maior dureza. Até 1992, quando lançou “Todos os Belos Cavalos”, nenhum de seus livros vendera mais de cinco mil cópias.
Seus primeiros quatro romances, lançados entre 1965 e 1979, eram claramente influenciados pela prosa de William Faulkner e traziam um senso de humor sombrio, levado a extremos em “Suttree”, história autobiográfica sobre um homem que abandona a vida confortável da família para se tornar um pescador no rio Tennessee (McCarthy era filho de um rico advogado e largou a fortuna da família para ser escritor).
O que salvou a carreira de McCarthy foi uma bolsa da Fundação MacArthur, recebida em 1981, e que o permitiu escrever sua obra-prima, “Meridiano de Sangue” (1985), violentíssima saga sobre mercenários causando carnificinas e massacrando índios na fronteira dos EUA com o México, em meados do século 19. Recebido com indiferença na época, foi ganhando status de “cult”, e hoje é considerado não só o auge da carreira de McCarthy, mas um dos maiores romances americanos do século 20 (o crítico e autor Harold Bloom escreveu que era o melhor livro americano desde “Enquanto Agonizo”, de Faulkner).
Mas o sucesso só viria mesmo depois que McCarthy suavizou a sanguinolência em suas histórias e lançou “Todos os Cavalos Selvagens”, primeira parte da chamada “Trilogia da Fronteira”, que traria ainda “A Travessia” (1994) e “Cidades da Planície” (1998).
Depois veio o sucesso mundial com dois livros extraordinários e bem mais acessíveis que “Meridiano”: “Onde os Velhos Não Têm Vez” (2005), adaptado pelos Irmãos Coen num filme sensacional, vencedor do Oscar, e “A Estrada” (2006), que ganhou o Prêmio Pulitzer.
Dos 12 livros de McCarthy, li dez. Ainda não consegui botar as mãos em “O Passageiro” e “Stela Maris”, que saíram ano passado, mas prometo corrigir essa falha em breve.
Para quem não conhece o trabalho dele, recomendo ler, na seguinte ordem:
“A Estrada” – História dilacerante sobre um pai que caminha com o filho pequeno pela civilização destruída por um cataclisma (não especificado na história).
“Onde os Velhos Não Têm Vez” – Banho de sangue na fronteira dos EUA com o México, nos anos 1980, depois que uma transação de drogas dá errado.
“Meridiano de Sangue” – Estilisticamente, o livro mais complexo e “difícil” de McCarthy, mas também o mais surreal e lisérgico em suas descrições de barbaridades e crimes.
Uma ótima semana a todas e todos!
23 comentários em "Cormac McCarthy: por onde começar?"
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Um grande escritor americano q tbm inspirou vários filmes era o Donald Westlake…. Ele usava o pseudônimo Richard Stark, pq as editoras se recusavam a publicar seus livros concomitantemente rs
Como Donald ele tinha um estilo mais bem humorado, na série do anti herói Dortmunder, mas como Richard Stark ele mandava bem demais com o personagem Parker, menos metido a gracinhas…. Recomendo aqui pra galera, depois que lê um livro vc é praticamente obrigado a comprar a série toda rs
Li alguns livros do Donald Westlake, aquele do roubo das joias preciosas (acho que virou até filme) era bem engraçado…
O New York Times publicou uma lista/guia com cinco filmes produzidos a partir de licros do Cormac, inclusive o A Estrada e Onde os fracos não tem vez::
https://www.nytimes.com/2023/06/13/movies/cormac-mccarthy-film-adaptations-stream.html
Meu primeiro contato com sua obra foi com o filme ‘A Estrada’. Fui atrás do livro e fiquei ainda mais impressionado. Depois de ler e ver algumas resenhas, li ‘Meridiano de Sangue’. Que livro! Vou atrás dos demais.
McCarthy já teve outras obras adaptadas para as telas. Child of God (publicado em 1974, filme adaptado em 2013), A estrada (publicado em 2006, filme adaptado em 2009) e The Sunset Limited (publicado em 2006, filme adaptado em 2012)
“A Estrada” é o q virou filme com o Viggo Mortensen? Não sabia que era baseado num livro dele! Santa ignorância!
Comecei a ler Cormac McCarthy por sua influência, graças um texto seu sobre “Meridiano de Sangue”, depois li “Onde os velhos não tem vez”. Só não entendo porque os primeiros trabalhos dele ainda continuam inéditos por aqui
Mercado editorial brasileiro é muito pequeno e cheio de lacunas injustificáveis.
André, no off-topic: Sangue Negro entrou no catálogo da Netflix.
E sobre o possibilidade de trazer bandas gringas para cá, tenho muita vontade de assistir o Melvins e o Teenage Fanclub. São viáveis ou sem chance?
Muito viáveis, inclusive devemos ter notícias sobre o Melvins muito em breve.
Anos atrás, talvez uns 15 li Meridiano… foi uma leitura difícil. Vou reler para ver como envelheci.
Comprei Meridiano de Sangue mês passado, e depois do seu texto esse livro vai passar na frente de todos os outros da fila. André, o que você acha das adaptações cinematográficas dos livros dele?
André, o grande Cormac merece todas as honras e a nossa leitura, porém, temos mais um triste OT:
Morreu o Dave Mac Lean, um dos maiores falsos gringos da história da nossa música…
https://www.terra.com.br/diversao/dave-maclean-cantor-brasileiro-de-hits-em-ingles-morre-aos-79-anos,6fd991f117ea3ed9b57bb0fa4142b1ff1s1wz4vq.html
Sim, postei isso no sábado. Ele estava muito doente havia algum tempo. Grande figura.
Tive a alegria de criar a capa de “A estrada”, quando lançado no Brasil pela Alfaguara. Livraço.
Demais, Marcelo, tenho essa edição com a silhueta do cara andando, bonita demais.
Li “A Estrada” muito tempo atrás…atraído pela capa (hehehehe!)…e o livro realmente é demais!
Infelizmente não sou muito de ligar escritores com outras obras, e essa semana “graças” à morte do autor fiquei sabendo dos outros livros que ele escreveu…Meridiano de Sangue deve chegar nos próximos dias.
eu ia comprar “a estrada” primeiro mas fiquei curioso quando você postou que “meridiano” é um dos seus livros favoritos e comprei.
Comecei por “Meridiano de Sangue”, após ler um texto seu sobre a difícil tarefa de traduzí-lo. Fiquei tão impactado com o livro que, após terminar a leitura, corri atrás de todos os outros dele. Quando não consegui encontrar os que foram lançados no Brasil, busquei as edições portuguesas. Com isso, consegui ler “Suttree”, “Nas Trevas Exteriores” e “Filho de Deus”.
Segunda passada, um dia antes do anúncio de sua morte, comprei “O Passageiro” e já estou na expectativa para ler mais um livro do meu autor favorito. De todas as suas ótimas recomendações, Cormac McCarthy foi a mais valiosa. Valeu!
Que ótimo saber disso!
Nossa, que texto bão demais!
Vontade de correr já para a livraria mais proxima.
vou comecar por Blood Meridian mesmo. peguei na estante e já está ao lado da cabeceira. valeu!
É o mais hermético dele.