ago/2021

Charlie Watts: foi-se a “cama” em que os Stones deitavam e rolavam

Por André Barcinski

Charlie Watts: foi-se a “cama” em que os Stones deitavam e rolavam

Por André Barcinski

Charlie Watts se foi.

Ele era a base – sempre econômica e elegante, porém sólida e confiável – sobre a qual a música dos Stones se fez por 60 anos.

Só para usar uma expressão que se tornou batida pelas injustas repetições, dá pra dizer que Charlie Watts foi um ícone. A exemplo de outros gigantes do rock que partiram recentemente – Lemmy, Little Richard, Chuck Berry, Eddie Van Halen – ele criou uma persona, uma figura que simbolizava algo maior que ele próprio.

Se Lemmy e Little Richard encarnavam a selvageria, Chuck Berry, a elegância, e Van Halen o virtuosismo, Charlie Watts representa algo muito menos evidente e, portanto, de mais difícil percepção: a simplicidade. E, no rock, só uma figura muito especial consegue se destacar pela simplicidade.

O rock’n’roll nasceu no pós-Segunda Guerra como um enfrentamento contra o racismo e a caretice das gerações anteriores, e seus pioneiros sempre fizeram questão de se diferenciar dos pais, tanto no vestir quanto nas atitudes. Rock sempre foi coisa de exibicionistas e “poseurs”. Como explicar, então, um rockstar como Charlie Watts, que desde os anos 60 parecia ser tio, e não colega, de Mick, Keith e Brian?

As bandas de rock dos anos 1960 eram pródigas em “personagens”: os Beatles eram vendidos como quatro personalidades complementares, e suas fãs escolhiam o que mais lhes agradava. Já os Stones tinham uma curiosa dinâmica interna, em que a base – Charlie e o baixista Bill Wyman, este chamado de “O Quieto” – não curtiam exibicionismos e cumpriam estoicamente a tarefa da deixar os holofotes para Mick e Keith.

Antes de o rock inventar seus próprios arquétipos, Watts já era o baterista que fica lá no fundo, não faz malabarismos técnicos, segura a batida e não quer aparecer. Ou, como dizia Keith Richards: “Charlie sempre foi a cama em que eu me deito, musicalmente”.

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