mar/2024

Cadão Volpato revive a Libelu

Por André Barcinski

Cadão Volpato revive a Libelu

Por André Barcinski

Por cerca de dez anos, o escritor Cadão Volpato flertou com a ideia de escrever um livro sobre uma época que julgava crucial em sua vida: seu período de militante político, no fim da década de 1970, como parte da Liberdade e Luta, a chamada Libelu, um grupo do movimento estudantil ligado ao trotskismo. Mas faltava achar um mote, um ponto de partida para a história.

Um dia, do nada, Volpato recebeu do amigo e crítico de arte Rodrigo Naves, também membro da Libelu, uma fotografia em preto e branco, tirada provavelmente em 1977, mostrando vários estudantes da USP e integrantes da Libelu participando de uma manifestação dentro da universidade. Nem Rodrigo Naves, que aparece na imagem, lembra exatamente onde ela foi tirada. “Quando vi aquela foto, tive uma espécie de epifania”, disse Volpato de Nova York, onde mora com a família há cinco anos. “Era uma foto ruim, eu não reconheci todos os personagens, mas ela me deu um estalo. Enviei uma mensagem no ato pro Rodrigo: ‘Acho que vou escrever um romance sobre isso’”.

Volpato decidiu fazer um livro que contasse não a história da Libelu, mas a vida de diversos personagens que militaram nela. “Precisava escrever sobre gente de carne e osso. Eu queria falar de gente, não de uma tendência. Não quis ser jornalístico. Os fatos estavam tão próximos de mim que não poderia contá-los de maneira leviana. Escolhi contar a história do ponto de vista dos personagens”. Seis meses depois, ele terminava “Abaixo a Vida Dura” (Editora Faria e Silva, 224 páginas), seu 12º livro.

A história reúne diversos personagens que moram juntos em repúblicas, se apaixonam uns pelos outros e descobrem na Libelu uma missão que os une. “Eu era um garoto tosco e caipira”, conta Volpato. “A história da minha militância política, para mim, sempre teve uma coisa mitológica. Como qualquer jovem de 20 anos, eu queria mudar o mundo e, principalmente, combater a ditadura. Hoje, vejo o trotskismo também com um ponto de vista mais mitológico e não concreto, porque não sou trotskista há mais de 40 anos”.

A Libelu surgiu na segunda metade dos anos 1970 e durou cerca de dez anos. Entre seus militantes estavam figuras que se tornariam conhecidas no meio político, como Antônio Palocci e Luis Gushiken, na televisão, como o sociólogo Demetrio Magnolli, e muitos jornalistas, entre eles Matinas Suzuki, Eugenio Bucci, Cleusa Turra, Reinaldo Azevedo, o crítico gastronômico Josimar Melo (cujos irmãos, Ricardo e Roberto, também eram da Libelu), José Arbex Jr., Laura Capriglione e Paulo Moreira Leite, entre muitos outros.

Volpato, que tem 67 anos e uma celebrada carreira de jornalista, escritor e músico (é cantor da cultuada banda pós-punk Fellini), se inspirou também no documentário “Libelu – Abaixo a Ditadura” (2020), de Diógenes Muniz. “Fiquei muito emocionado com o filme do Diógenes. Ele mostrou que era possível falar daqueles tempos e da Libelu sem ser demasiado sério ou chato”.

Em “Abaixo a Vida Dura”, o autor usa personagens ficcionais para contar histórias verdadeiras. “Era importante ser fiel aos fatos, então pesquisei bastante. Mas a maior parte, escrevi de memória. Desde os 20 anos eu vinha guardando esses acontecimentos”. O clímax da história é um acontecimento que, segundo ele, foi o “grande momento de nossa juventude”: a invasão da PUC.

Em 22 de setembro de 1977, tropas de choque e policiais militares comandadas pelo então Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Coronel Erasmo Dias, invadiram a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) para interromper o Encontro Nacional de Estudantes (ENE) que buscava reviver a União Nacional dos Estudantes (UNE), então proibida pela ditadura militar. As tropas espancaram com cassetetes alunos, professores e funcionários, e dispararam bombas que deixaram várias pessoas com queimaduras graves.

“Eu consegui a proeza de chegar atrasado à invasão da PUC”, ri Volpato, “Mas precisava preencher essa lacuna e me empenhei numa pesquisa grande, já que a história tem várias narrativas. Descobri coisas impressionantes: a invasão foi muito mais violenta do que me pareceu à época. Na verdade, aquilo foi um desastre, uma violência extrema. Durante muito tempo, o Erasmo Dias disse que só foram usadas bombas de efeito moral, o que era uma mentira. Várias pessoas relataram chamas de bombas incendiárias refletindo nas palmeiras da PUC. Muita gente foi queimada, algumas gravemente, pelas bombas”.

Apesar de usar personagens ficcionais, algumas das histórias relatadas no livro aconteceram com pessoas conhecidas: os irmãos que estão na invasão da USP são Josimar, Ricardo e Roberto Melo (“Eram esses caras que eu admirava”, diz Volpato), e o manifestante que anda em direção às tropas de Erasmo Dias é José Arbex Jr. “Isso era muito porra-louca, muito Libelu”.

Sobre Anna, uma personagem linda e central na história, Volpato diz que, diferentemente do que desconfiam muitas pessoas próximas à Libelu, Anna não é inspirada na jornalista Cleusa Turra. “A Cleusa era, sim, uma musa, mas a Anna não é ela. Posso dizer que todas as meninas da Libelu eram muito bonitas”.

Publicado na “Folha de S. Paulo”

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