set/2021

“Buena Vista”: 25 anos de um disco clássico

Por André Barcinski

“Buena Vista”: 25 anos de um disco clássico

Por André Barcinski

Um dos grandes álbuns do fim do século passado está fazendo 25 anos: “Buena Vista Social Club”. Gravado em Cuba em 1996 pelo músico norte-americano Ry Cooder com ajuda do “bandleader” cubano Juan de Marco Gonzáles, o disco reuniu um grupo extraordinário de músicos da ilha, muitos deles esquecidos há anos:  Compay Segundo, Eliades Ochoa, Omara Portuondo, Ibrahim Ferrer, Rubén Gonzales e vários outros.

“Buena Vista” foi um fenômeno. Vendeu oito milhões de cópias e é o álbum mais popular da “world music” em todos os tempos. O documentário, lançado em 1999 pelo cineasta alemão Wim Wenders, foi indicado a um Oscar e tornou os músicos cubanos ainda mais famosos em todo o mundo (o filme está disponível na plataforma Belas Artes à La Carte).

Para celebrar os 25 anos da gravação, o disco será relançado em 17 de setembro em edição especial, com as 14 faixas do disco original remasterizadas e um CD extra com 19 faixas inéditas, incluindo dez canções que ficaram de fora do original e versões diferentes de canções famosas como “Chan Chan” e “Candela”, além de um livreto com fotos e biografias. Ouça aqui a lindíssima “Vicenta”, uma das faixas inéditas:

Em entrevista recente a Graeme Thomson para a revista “Uncut”, Ry Cooder contou a história das gravações de “Buena Vista”. É impressionante descobrir que aquele álbum tão importante nasceu do improviso e só existe porque Cooder e sua trupe deram muita sorte.

A gênese do álbum aconteceu nos anos 70, quando Cooder e a esposa, Susie, viajaram de barco a Cuba e ficaram encantados com a música local. Eles compraram algumas fitas cassete de música cubana, mas não tinham informação sobre os autores e instrumentistas que participaram das gravações.

Mais de 20 anos depois, o produtor britânico Nick Gold convidou Cooder para ajudá-lo em um projeto ambicioso: Gold queria ir a Havana gravar clássicos da música cubana e tentar achar alguns dos grandes músicos dos anos 1940 e 1950. Como não sabia se encontraria alguém, Gold montou uma banda de apoio com músicos da África Ocidental que haviam sido influenciados pela música cubana.

Em março de 1996, Cooder e o filho, Joachim, um grande baterista e percussionista, estavam em Havana esperando Gold e os músicos. Mas só o produtor apareceu. “Por alguma razão de vistos, os músicos ficaram retidos em Paris e não vieram”, lembra Cooder. “Nós estávamos em Havana, sem músicos e sem repertório”.

Com a ajuda do músico e “bandleader” cubano Juan de Marco Gonzáles, Cooder saiu pela cidade procurando músicos. E não demorou a achar alguns instrumentistas extraordinários, como o contrabaixista Orlando “Cachaito” López, o violonista Eliades Ochoa, o pianista Rubén Gonzáles (que não encostava num piano havia mais de 10 anos) e Barbarito Torres, um ás do alaúde cubano.

Com a banda de apoio montada, a tarefa agora era achar cantores e cantoras. Cooder e equipe saíram por Havana perguntando e começaram a encontrar gente como Compay Segundo, um cantor de 89 anos que fizera sucesso em Cuba nas décadas de 1940 e 1950, e a sensacional vocalista Omara Portuondo, que não gravava um disco desde 1950.

No porto de Havana, alguém esbarrou num homem franzino de quase 70 anos, que fizera sucesso como cantor da banda Los Bocucos, mas que estava aposentado e vivendo de engraxar sapatos. Era Ibrahim Ferrer.

Na entrevista à “Uncut”, Ry Cooder diz que a maioria dos artistas reunidos para o disco era de veteranos da música cubana dos anos 1940 e 1950 que haviam sido praticamente esquecidos depois da Revolução comunista de Fidel Castro, em 1959: “A música deles passou a ser considerada burguesa, provavelmente fascista, e explorada por gângsteres americanos e corporações”.

O lançamento do disco “Buena Vista Social Club” – batizado em homenagem a um clube onde os músicos se reuniam para beber e conversar – mudou a vida de todos os participantes, que tiveram, no fim de suas carreiras, o reconhecimento merecido. E mostrou a beleza da música cubana para o mundo.

Dois anos depois, o documentário de Wim Wenders deu ainda mais visibilidade ao projeto. E o filme também foi feito na base do improviso: Wenders conta que, em 1997, trabalhava com Ry Cooder na trilha do filme “The End of Violence” (Cooder já havia gravado para o cineasta a memorável trilha de “Paris, Texas”, em 1984), quando sentiu que o amigo não estava focado no trabalho. “Sabe o que é, Wim”, disse Ry, “Eu acabo de voltar de Cuba e acho que gravei o disco mais importante de minha carreira. Só penso nisso”.

Cooder deu a Wenders uma fita com as gravações, e o alemão surtou. Cooder disse que iria voltar a Cuba para mais gravações em poucos dias. Wenders não perdeu a chance: montou uma pequena equipe e foi junto para Havana, levando uma câmera digital.

Toda a filmagem de “Buena Vista Social Club” não levou mais de uma semana. A equipe de Wenders penou com os seguidos e longos blecautes, e é por isso que quase todas as entrevistas são realizadas à luz do dia. No fim, conseguiram emprestado um gerador a diesel, que possibilitou filmar dentro do estúdio EGREM, onde o disco foi gravado.

Tanto o disco quanto o filme de “Buena Vista Social Club” foram, portanto, projetos realizados de improviso e sem grana. Mas o talento envolvido – os músicos cubanos, Ry Cooder, Wim Wenders – era tanto, que ambos se tornaram clássicos.

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