Para quem é fascinado por expedições marítimas e histórias de grandes aventuras, a notícia divulgada semana passada foi uma verdadeira bomba: uma expedição científica, bancada por um doador anônimo, achou o Endurance, barco do explorador britânico Ernest Shackleton que, em 1915, afundou a leste da Península Antártica.
O barco foi encontrado a cerca de três quilômetros de profundidade e em águas congelantes, a quatro milhas (6,4 km) ao sul do último ponto registrado em diários de bordo pelo navegador de Shackleton, Frank Worsley.
Drones submarinos filmaram os destroços, e é surpreendente o bom estado do casco. Os cientistas esperavam encontrá-lo em boas condições, e a explicação é simples: naquela região, as águas são tão frias que não possuem organismos marinhos que, normalmente, comeriam a madeira.
O Endurance é um barco historicamente importante porque levou a tripulação de Shackleton para uma missão polar que foi um fracasso científico, mas se tornou uma das histórias de coragem e sobrevivência mais incríveis já registradas (leia abaixo um texto que escrevi em 2016 contando a expedição).
Veja as imagens fascinantes do Endurance, repousando a 3 km de profundidade:
E aqui, meu texto de 2016:
Uma das grandes aventuras da humanidade está completando 100 anos: a Expedição Imperial Transantártica de Sir Ernest Shackleton.
Shackleton (1874-1922) liderou três expedições britânicas à Antártica, mas foi a última, iniciada em dezembro de 1914 e encerrada em agosto de 1916, que o tornou uma lenda da exploração polar. Foi o maior fracasso da vida de Shackleton – e também seu maior triunfo.
A meta da Expedição Imperial Transantártica era ambiciosa: cruzar o continente antártico, por terra, de oeste para leste.
Em 5 de dezembro de 1914, Shackleton e 27 tripulantes deixaram a Geórgia do Sul a bordo do veleiro Endurance, de 144 pés (44 metros), construído na Noruega especialmente para a missão. Na foto, a tripulação completa do Endurance (menos o fotógrafo Frank Hurley, claro):

Em 18 de janeiro de 1915, um dia antes de chegar ao ponto da Baía de Vahsel onde a equipe deveria desembarcar, o Endurance ficou preso no gelo. Imobilizado num banco de gelo, o barco ficou vagando pelo mar de Weddel por mais de nove meses, até que, em 27 de outubro de 1915, foi esmagado pelas placas de gelo.
Shackleton e a tripulação abandonaram o navio. Pouco menos de um mês depois, em 21 de novembro, testemunharam, horrorizados, o Endurance afundando para sempre no gelo. Pelos cinco meses seguintes, a tripulação morou em barracas no banco de gelo, comendo carne de foca e pinguim, e esperando que o gelo se abrisse para que eles pudessem navegar em três botes salva-vidas rumo a qualquer lugar habitado.
Em 9 de abril de 1916, finalmente, o gelo se abriu. Enfrentando ondas de cinco metros e ventos de 100 quilômetros por hora no Mar de Weddel, os três botes – batizados com os nomes de financiadores da expedição, James Caird, Dudley Docker e Stancomb Wills – conseguiram chegar à inóspita Ilha Elephant. Foi a primeira vez em 497 dias que pisavam em terra firme.
Mas a parte mais arriscada da missão ainda estava por vir: Shackleton deixou 22 homens na Ilha Elephant e rumou com outros cinco no pequeno barco James Caird até a Geórgia do Sul, enfrentando frio de 20 graus negativos, ondas de dez metros e ventos de 200 por hora em um dos mares mais traiçoeiros do mundo, próximo à Passagem de Drake (só para ter uma ideia, aqui vai a imagem de um cargueiro cruzando a Passagem de Drake):
E aqui, uma foto do James Caird:

Em maio de 1916, o James Caird chegou finalmente à Geórgia do Sul. Depois de alguns dias de descanso, Shackleton começou a organizar o resgate de sua tripulação. Ele pediu ao governo inglês um navio propício para enfrentar o Mar de Weddel, mas nenhum estaria disponível até outubro (é bom lembrar que isso tudo aconteceu em meio à Primeira Guerra Mundial), então a solução foi pedir emprestado ao governo chileno o Yelcho, um barco a vapor de 120 pés (37 metros) que fazia a manutenção de faróis.
Às 11h40 do dia 30 de agosto de 1916, o Yelcho chegou à Ilha Elephant e resgatou os 22 homens da tripulação do Endurance que haviam ficado para trás. Shackleton conseguiu trazer todos de volta com vida.
Em 1959, o escritor e jornalista norte-americano Alfred Lansing lançou “A Incrível Viagem de Shackleton”. Por meio de leituras de diários e entrevistas com sobreviventes, ele relatou os detalhes da Expedição Imperial Transantártica e dos quase dois anos de luta pela sobrevivência na área mais inóspita do planeta. É um dos melhores livros de aventura que já li.
20 comentários em "Acharam o Endurance!"
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Adoro essas histórias de exploradores. Tem um filme muito bom sobre a exploração da África, em busca da nascente do rio Nilo, chamado (em português) “As montanhas da Lua”, que cobre a expedição de Sir Richard Burton (homônimo do ator e marido da Liz Taylor) e John Speke. O explorador Richard Burton virou adido do governo britânico e morou durante um tempo aqui no Rio. O filme é de 1990, dirigido pelo Bob Rafelson.
Preciso ver, obrigado pela dica, adoro esse tipo de filme.
Que história incrível.
André, tem uma data errada no texto (abril de 2016, em vez de 1916).
Muito obrigado, corrigi!
Historias feitas e contadas por grandes pessoas.
Exatamente isso.
“The Terror”, na Amazon Prime, é uma série muito bacana sobre outra história trágica de navegação do Ártico que aconteceu com os navios HMS terror e HMS Erebus. As embarcações se perderam e nunca mais os tripulantes foram achados. Baseada no livro de Dan Simmons sobre o que teria acontecido com a tripulação.
Excelente dica, vou atrás, muito obrigado.
Barcisnki, perdoe o off-topic, mas por que aqui desloga o usuário após alguns dias mesmo a gente habilitando a opção de lembrar a senha? Isso se torna levemente maçante rs… sem tempo irmão! Abraços!
Não era pra acontecer, vou passar pro pessoal do Suporte, muito obrigado.
“Contra o Gelo”, no Netflix, é um bom filme, baseado em fatos reais, sobre dois exploradores na Groenlandia.
Boa dica, não vi.
Esse livro é excelente.
Existe também uma ótima mini-série (dois episódios) da tv inglesa com Kenneth Branagh no papel de Sir Ernest Henry Shackleton.
Com alguma sorte é possível encontrar na web, não sei se está disponível em algum straming.
Abraços,
Marcos
Boa, não vi essa.
Incrível! No fim do ano comprei uma edição de “Endurance” de Caroline Alexander, com muitas imagens da expedição…. Coisa fina!
Também sou fascinado por essa história, li o livro do Lansing e depois assisti o documentário “The Endurance”. O mais legal é que quando li o livro eu não sabia nada sobre a história (não sabia se eles tinham sobrevivido ou não), durante a leitura pesquisei no google sobre alguns termos marítimos e referências geográficas e vi que um dos resultados da busca iria dar um “spoiler”, daí não pesquisei mais nada para não estragar a surpresa, isso tornou a leitura ainda mais emocionante. O documentário é bem legal também, mostra várias fotos do fotógrafo oficial da expedição, muito interessante.
Não esqueço até hoje de Perce Blackborow, tripulante clandestino no navio, que perdeu 2 dedos do pé na travessia das águas geladas. Quando os tripulantes na Ilha Elefant fizeram uma pesquisa sobre o que gostariam mais de comer depois do resgate, Blackborow respondeu: pão com manteiga. Muito bom livro mesmo.
sensacional!!! tenho o livro do Lansing, mas ainda nao li. a pergunta agora é: como vao tirar o Endurance dali com o mínimo dano possível?!
Não vão tirar, não tem como, fundo demais. E o lugar é protegido, eles só tiveram autorização pra filmar.
História incrível. Tenho o livro que narra essa odisseia fantástica. Uma das maiores aventuras que a história registrou.