mar/2022

Acharam o Endurance!

Por André Barcinski

Acharam o Endurance!

Por André Barcinski

Para quem é fascinado por expedições marítimas e histórias de grandes aventuras, a notícia divulgada semana passada foi uma verdadeira bomba: uma expedição científica, bancada por um doador anônimo, achou o Endurance, barco do explorador britânico Ernest Shackleton que, em 1915, afundou a leste da Península Antártica.

O barco foi encontrado a cerca de três quilômetros de profundidade e em águas congelantes, a quatro milhas (6,4 km) ao sul do último ponto registrado em diários de bordo pelo navegador de Shackleton, Frank Worsley.

Drones submarinos filmaram os destroços, e é surpreendente o bom estado do casco. Os cientistas esperavam encontrá-lo em boas condições, e a explicação é simples: naquela região, as águas são tão frias que não possuem organismos marinhos que, normalmente, comeriam a madeira.

O Endurance é um barco historicamente importante porque levou a tripulação de Shackleton para uma missão polar que foi um fracasso científico, mas se tornou uma das histórias de coragem e sobrevivência mais incríveis já registradas (leia abaixo um texto que escrevi em 2016 contando a expedição).

Veja as imagens fascinantes do Endurance, repousando a 3 km de profundidade:

E aqui, meu texto de 2016:

Uma das grandes aventuras da humanidade está completando 100 anos: a Expedição Imperial Transantártica de Sir Ernest Shackleton.

Shackleton (1874-1922) liderou três expedições britânicas à Antártica, mas foi a última, iniciada em dezembro de 1914 e encerrada em agosto de 1916, que o tornou uma lenda da exploração polar. Foi o maior fracasso da vida de Shackleton – e também seu maior triunfo.

A meta da Expedição Imperial Transantártica era ambiciosa: cruzar o continente antártico, por terra, de oeste para leste.

Em 5 de dezembro de 1914, Shackleton e 27 tripulantes deixaram a Geórgia do Sul a bordo do veleiro Endurance, de 144 pés (44 metros), construído na Noruega especialmente para a missão. Na foto, a tripulação completa do Endurance (menos o fotógrafo Frank Hurley, claro):

Em 18 de janeiro de 1915, um dia antes de chegar ao ponto da Baía de Vahsel onde a equipe deveria desembarcar, o Endurance ficou preso no gelo. Imobilizado num banco de gelo, o barco ficou vagando pelo mar de Weddel por mais de nove meses, até que, em 27 de outubro de 1915, foi esmagado pelas placas de gelo.

Shackleton e a tripulação abandonaram o navio. Pouco menos de um mês depois, em 21 de novembro, testemunharam, horrorizados, o Endurance afundando para sempre no gelo. Pelos cinco meses seguintes, a tripulação morou em barracas no banco de gelo, comendo carne de foca e pinguim, e esperando que o gelo se abrisse para que eles pudessem navegar em três botes salva-vidas rumo a qualquer lugar habitado.

Em 9 de abril de 1916, finalmente, o gelo se abriu. Enfrentando ondas de cinco metros e ventos de 100 quilômetros por hora no Mar de Weddel, os três botes – batizados com os nomes de financiadores da expedição, James Caird, Dudley Docker e Stancomb Wills – conseguiram chegar à inóspita Ilha Elephant. Foi a primeira vez em 497 dias que pisavam em terra firme.

Mas a parte mais arriscada da missão ainda estava por vir: Shackleton deixou 22 homens na Ilha Elephant e rumou com outros cinco no pequeno barco James Caird até a Geórgia do Sul, enfrentando frio de 20 graus negativos, ondas de dez metros e ventos de 200 por hora em um dos mares mais traiçoeiros do mundo, próximo à Passagem de Drake (só para ter uma ideia, aqui vai a imagem de um cargueiro cruzando a Passagem de Drake):

E aqui, uma foto do James Caird:

Em maio de 1916, o James Caird chegou finalmente à Geórgia do Sul. Depois de alguns dias de descanso, Shackleton começou a organizar o resgate de sua tripulação. Ele pediu ao governo inglês um navio propício para enfrentar o Mar de Weddel, mas nenhum estaria disponível até outubro (é bom lembrar que isso tudo aconteceu em meio à Primeira Guerra Mundial), então a solução foi pedir emprestado ao governo chileno o Yelcho, um barco a vapor de 120 pés (37 metros) que fazia a manutenção de faróis.

Às 11h40 do dia 30 de agosto de 1916, o Yelcho chegou à Ilha Elephant e resgatou os 22 homens da tripulação do Endurance que haviam ficado para trás. Shackleton conseguiu trazer todos de volta com vida.

Em 1959, o escritor e jornalista norte-americano Alfred Lansing lançou “A Incrível Viagem de Shackleton”. Por meio de leituras de diários e entrevistas com sobreviventes, ele relatou os detalhes da Expedição Imperial Transantártica e dos quase dois anos de luta pela sobrevivência na área mais inóspita do planeta. É um dos melhores livros de aventura que já li.

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