fev/2022

“A voz de Mark Lanegan nos capturava”

Por André Barcinski

“A voz de Mark Lanegan nos capturava”

Por André Barcinski

A morte de Mark Lanegan, aos 57 anos, nos privou de uma das vozes mais marcantes dos últimos 30 anos. Nesse tempo, ele marcou a vida de muita gente com sua música. Uma dessas pessoas é minha amiga Ana Luisa Barros, grande fã e conhecedora da obra do cantor e compositor. Pedi à Ana que escrevesse um texto sobre sua relação com a arte de Lanegan, e com o próprio.

Por Ana Luisa Barros

Por circunstâncias que não convém aqui detalhar (bons stalkers nunca revelam seus métodos), anos atrás Mark Lanegan aceitou minha solicitação e me jogou dentro de seu perfil no Instagram. Não no profissional, oficial. Foi em uma página privada, fechada, apelido falso na arroba, poucos seguidores e seguidos.

São pouco mais de 200 fotos, postadas até 2016. Continuam intocadas, após o falecimento do cantor nesta terça-feira. Surpresa triste que foi divulgada no Twitter, rede até então mais ativa do músico. Rolando a sequência de imagens, vejo lá: um boné do Clippers, seu time de basquete do coração. Diretamente de Antuérpia, na Bélgica, uma gigantesca tábua de frutos do mar com anéis de lula largos como pulseiras. O reflexo do cantor, câmera em punho, na moldura de vidro protegendo uma gravura de autoria atribuída, na legenda, ao artista britânico Banksy. O livro “The Terminal Beach”, de J.G. Ballard, apoiado na tela de um computador. Elogio a um pote de maionese. O DVD do filme “O Funeral das Rosas”, do diretor japonês Toshio Matsumoto. Um cachorrinho, devidamente agasalhado com um pulôver, aboletado sobre um carrinho. E três fotografias estampando sorriso extenso do cantor, quase tão comprido quanto os braços abertos que envolvem os ombros de dois amigos num abraço. 

Fui fã tardia de Mark Lanegan. Screaming Trees, banda associada ao movimento grunge e que teve Lanegan como vocalista, nunca foi minha especialidade. Meu interesse foi a extensa carreira individual. Os álbuns solo, lançados desde 1990, soavam para mim muito mais atrativos: antes, canções inspiradas no folk de Nick Drake, Leonard Cohen e Johnny Cash mescladas ao punk blues de bandas como The Gun Club. A partir de 2012, músicas incorporando melodias dançantes, em homenagens a Joy Division, New Order, Roxy Music. Mas compor e cantar as próprias canções não bastava: a voz grave, castigada pelo fumo, esteve à disposição de Queens Of The Stone Age, Soulsavers, Isobel Campbell e de tantos outros amigos e parceiros. Ah, no currículo do homem, ainda versões pessoais para canções de gente talentosa como Nick Cave, Chelsea Wolfe, Tim Rose. 

O singelo álbum de fotografias no Instagram não me surpreende. Retrata um Lanegan feliz, que havia domado seus fantasmas e feito as pazes com si mesmo. As pequenas alegrias domésticas, os simpáticos registros turísticos ao longo das turnês, eu percebo, agora, eram refletidos no palco. Por mais de dez anos, até ser barrada pela pandemia, fui atrás de Mark Lanegan. Perdi a conta do número de shows a que assisti. 

E toda apresentação era única, vigorosa. Ao vivo, cada canção era retrabalhada com cuidado. Faixas gravadas em estúdio não raro soavam transformadas, ainda mais vibrantes. Às vezes encorpadas por uma guitarra mais incisiva, às vezes emolduradas por guitarra semi-acústica e intimista, ou então seguindo um novo ritmo, pautado e regido pela voz. Aquela voz que, tão logo era liberada, envolvia o ambiente inteiro até capturar e render o ouvinte, fosse em um pequeno pub em Lisboa, em uma casa de shows em Berlim, num velho cinema reformado em São Paulo ou até mesmo em uma igreja do século retrasado, em Londres. A conclusão inevitável era poderosa: Mark Lanegan não cantava para você. Cantava dentro de você. Disseminando euforia, aliviando feridas, injetando consolo, paz. Era viciante, e era bom.

Após os shows, Mark Lanegan, cansado, era acessível, tímido, gentil. Era ele quem primeiro estendia a mão para um cumprimento, não eu, não os outros. Humilde, se considerava privilegiado pela presença dos fãs. 

Mark Lanegan, americano, morreu no interior da Irlanda, país dos avós. Desiludido com os Estados Unidos, tornou-se um imigrante na Europa. Há um ano, contraiu o vírus da COVID-19. E, superados os longos meses de internação, mais uma vez foi bem sucedido na tarefa árdua que repetiu ao longo de uma trajetória de excessos químicos: enganar a morte. Em casa, na companhia da mulher, desenhava e escrevia, aguardando o dia em que, cruzando distâncias, reencontraria o seu público. Mas não vai acontecer.

Volto para o Instagram. Uma das últimas fotos postadas mostra uma parede. Nela, colada uma folha sulfite. Exibe o desenho de uma seta, apontada para a esquerda, embaixo da palavra STAGE (“palco”). Legendando a foto, Mark Lanegan crava: “My life”. Clico nos comentários, são dois. Reconheço a foto e o nome que antecedem o comentário mais antigo, de 299 semanas atrás. Sou eu, atrevida, lançando um complemento: “and our luck”. 

Mark Lanegan, foi sorte nossa. Obrigada por tudo. E não foi pouco. 

Um ótimo Carnaval a todos. O blog retorna na quarta, 2 de março.

11 comentários em "“A voz de Mark Lanegan nos capturava”"

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    Usuário não identificado

    Eu conheci Mark Lanegan através do vhs Live Tonight Sold Out do Nirvana, em um pequeno trecho do clipe de Nearly Lost You que passava no vídeo. Isso foi em 1996 ou 1997. Alguns anos depois eu consegui assistir ao clipe completo, em 2001 e consegui também alugar dois cds do Screaming Trees, o Sweet Oblivion e o Dust. Começou aí a minha admiração pela sua obra, conhecendo o Mad Season e o recém lançado Song for the Deaf. Mark sempre me supreendeu e desde então ouvi tudo que foi lançado por ele e tudo já antes lançado. Em diversos momentos da minha vida suas músicas foram trilha sonora para os meus dias, dos mais tristes aos mais divertidos. Sentirei muita falta da sua obra.

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    Usuário não identificado

    Uau Barça, assim é sacanagem. Não basta seus textos fantásticos, você ainda capricha na escolha das colaboradoras. Texto emocionante, de os parabéns a Ana, pois ela conseguiu traduzir como a música do Lanegan (principalmente ao vivo) tocava em nós. Um artista impar e honesto com sua música.

    Abraço

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    Guilherme Salgado Braga

    Eu compro todos os álbuns dele desde Blues Funeral, inclusive fui no show dessa turnê no Cine Joia, estava colado no palco. Perdi a oportunidade de falar com ele no final do show, porque tinha que voltar pra casa no “último ônibus”, maldita SP…
    Hj moro na Alemanha e tive a oportunidade de ir no show numa cidade perto, mas deixei de ir.
    Qual outro artista grunge se reinventou como ele?
    Restou comprar essas dois últimas biografias, coisa que eu fiz no mesmo dia do falecimento.
    Assim como Bowie, vou odiar me referir a ele com o verbo no passado.

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