A música sublime de uma freira etíope de 98 anos
Se alguém lhe convidasse para ouvir o disco de uma freira etíope de 98 anos que vive num monastério em Jerusalém e toca, ao piano, uma singular mistura de música clássica e blues de raiz, você provavelmente acharia que a pessoa estava de brincadeira. Mas acredite: essa pianista existe, e sua música é sublime.
Até 15 dias atrás, eu não tinha ouvido falar em Emahoy Tsegué-Maryam Guèbrou. Mas esse artigo no site do autor e pesquisador musical Ted Gioia me converteu à igreja de Emahoy, e agora não consigo ouvir outra coisa.
Classificar a música dela é impossível. Imagine alguém misturando trechos de Chopin ou Satie a músicas folclóricas etíopes e antigos blues norte-americanos. É um som mântrico e hipnotizante, que surpreende o ouvinte por sua originalidade e beleza.
As primeiras gravações de Emahoy foram feitas no início dos anos 1960 e compiladas num CD lançado pelo selo francês Éthiopiques, especializado em música etíope. Não há muitas informações sobre a vida dela: sabe-se que veio de uma família abastada, estudou na Europa e, em 1946, aos 23 anos, ganhou uma bolsa para a prestigiosa Royal Academy of Music em Londres, mas recusou para “atender ao chamado de Deus”. Desde então, vive em monastérios e recebe poucas visitas.
Veja esse vídeo de Emahoy em 2013, às vésperas de completar 90 anos, tocando piano:
Nos últimos anos, tem crescido o interesse pela música dessa artistas singular. Em 2017, a BBC fez um programa de rádio de 30 minutos sobre a vida e obra de Emahoy, chamado “The Honky Tonk Nun” (“A Freira do Honky Tonk). Ouça aqui.
E, para nossa felicidade, um documentário está sendo produzido. O trailer está no Youtube:
Um ótimo fim-de-semana a todos.
6 comentários em "A música sublime de uma freira etíope de 98 anos"
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Demais, André.
Como pianista iniciante, gosto muito de conhecer compositores modernos com trabalhos tão belos.
Espero que se inspire na coroa!
Maravilhosa. E a música dela tem algumas qualidades encontradas também nas canções do Mulatu Astatke, pai do jazz etíope e que muito aprecio.
Ouvimos direto o Astatke, é demais.
Que história legal, vamos ouvir
A história da música é a história de pessoas como ela. Mal comparando, uma vez eu fui a Barretos a trabalho e fiquei perambulando pelo lugar. E vi um monte de violeiros tocando viola de um jeito que eu nunca ouvi. Agora imagina a produção industrial desse tipo de anônimos ao longo das décadas…