jan/2025

“A Garota da Agulha”: pare tudo e veja esse filme!

Por André Barcinski

“A Garota da Agulha”: pare tudo e veja esse filme!

Por André Barcinski

Que o cinema atual está uma draga, todos sabemos.

Mas aí vem um filme de um diretor do qual você nunca ouviu falar e simplesmente reacende sua fé no cinema. Um filme tão bem escrito, atuado, fotografado, montado e dirigido que você se pergunta: por que não se fazem mais filmes assim hoje em dia?

Falo de “A Garota da Agulha”, de Magnus von Horn. O filme está concorrendo ao Oscar de melhor produção estrangeira e pode ser visto na plataforma MUBI.

Von Horn é um sueco-polonês de 32 anos, formado na escola de cinema polonesa de Lodz, que só fez dois longas-metragens antes de “A Garota da Agulha”: “Sweat” (2020) e “The Here After” (2014).

“A Garota da Agulha” se passa em Copenhagen, na Dinamarca, em 1919, e segue a história de Karoline (Vic Carmen Sonne), pobre trabalhadora de uma fábrica têxtil que espera a volta do marido, Peter (Besir Zerici), das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Karoline é despejada de seu minúsculo apartamento e encontra moradia num sótão decrépito. Deprimida, começa um romance improvável com o ricaço Jorgen, dono da fábrica onde ela trabalha.

O filme é inspirado numa história real. Não vou contar mais e tampouco revelar a identidade da personagem verdadeira porque isso estragaria as surpresas da trama, que são muitas. O que posso dizer é que “A Garota da Agulha” começa como um drama neorrealista e se torna um pesadelo gótico dickensiano com óbvias influências do Expressionismo de Dreyer e Murnau.

O diretor Von Horn é tão talentoso e surpreendente que enriqueceu o filme com menções a clássicos do cinema – há uma sequência linda que emula “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière”, um dos primeiros filmes de cinema, feito em 1895 – e usou na trilha sonora uma única música de catálogo, e ainda por cima brasileira: “Sublime Provação”, valsa de Eduardo Souto gravada em 1929 pela cantora Alda Verona e lançada no Brasil pela Odeon.

Tudo em “A Garota da Agulha” é especial: a fotografia, feita num preto e branco contrastado, mas rico em detalhes, e abusando de lentes longas com fundos desfocados, cria uma atmosfera lúdica e misteriosa. A montagem é muito criativa, pulando de uma cena para outra de uma forma aparentemente abrupta, mas que surpreende o espectador a todo instante. O elenco todo está fantástico, e é impressionante como o roteiro, escrito por Magnus von Horn e Line Langebek, dá importância e peso a todos os personagens, por mais rápidas que sejam suas aparições na tela.

Acredito que grandes cineastas têm o poder de expressar sentimentos e sensações num quadro de um filme só pela maneira como os personagens se comportam ou pela forma como a câmera capta o rosto de alguém. Vendo “A Garota da Agulha”, me deparei com várias sequências em que a ambientação da cena já fazia antever o que aconteceria depois. É uma coisa instintiva para o público, mas que está presente nos filmes dos grandes – Hitchcock, Bergman, essa turma. Não estou comparando Magnus Van Horn aos imensos, mas o fato é que o filme dele tem cenas extremamente bem pensadas e dirigidas, com todo segundo meticulosamente planejado para obter máximo impacto dramático. O filme é um primor de técnica, mas o virtuosismo é sempre usado em prol da história.

Há uma sequência em especial em que Karoline vai visitar a aristocrática família de Jorgen, que é uma obra-prima de direção e roteiro. Os diálogos são polidos e mundanos, apenas cumprimentos coloquiais, mas a cena tem uma tensão interna tão avassaladora que o espectador fica de cabelo em pé. Eu fiquei.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

18 comentários em "“A Garota da Agulha”: pare tudo e veja esse filme!"

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