“A Garota da Agulha”: pare tudo e veja esse filme!
Que o cinema atual está uma draga, todos sabemos.
Mas aí vem um filme de um diretor do qual você nunca ouviu falar e simplesmente reacende sua fé no cinema. Um filme tão bem escrito, atuado, fotografado, montado e dirigido que você se pergunta: por que não se fazem mais filmes assim hoje em dia?
Falo de “A Garota da Agulha”, de Magnus von Horn. O filme está concorrendo ao Oscar de melhor produção estrangeira e pode ser visto na plataforma MUBI.
Von Horn é um sueco-polonês de 32 anos, formado na escola de cinema polonesa de Lodz, que só fez dois longas-metragens antes de “A Garota da Agulha”: “Sweat” (2020) e “The Here After” (2014).
“A Garota da Agulha” se passa em Copenhagen, na Dinamarca, em 1919, e segue a história de Karoline (Vic Carmen Sonne), pobre trabalhadora de uma fábrica têxtil que espera a volta do marido, Peter (Besir Zerici), das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Karoline é despejada de seu minúsculo apartamento e encontra moradia num sótão decrépito. Deprimida, começa um romance improvável com o ricaço Jorgen, dono da fábrica onde ela trabalha.
O filme é inspirado numa história real. Não vou contar mais e tampouco revelar a identidade da personagem verdadeira porque isso estragaria as surpresas da trama, que são muitas. O que posso dizer é que “A Garota da Agulha” começa como um drama neorrealista e se torna um pesadelo gótico dickensiano com óbvias influências do Expressionismo de Dreyer e Murnau.
O diretor Von Horn é tão talentoso e surpreendente que enriqueceu o filme com menções a clássicos do cinema – há uma sequência linda que emula “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière”, um dos primeiros filmes de cinema, feito em 1895 – e usou na trilha sonora uma única música de catálogo, e ainda por cima brasileira: “Sublime Provação”, valsa de Eduardo Souto gravada em 1929 pela cantora Alda Verona e lançada no Brasil pela Odeon.
Tudo em “A Garota da Agulha” é especial: a fotografia, feita num preto e branco contrastado, mas rico em detalhes, e abusando de lentes longas com fundos desfocados, cria uma atmosfera lúdica e misteriosa. A montagem é muito criativa, pulando de uma cena para outra de uma forma aparentemente abrupta, mas que surpreende o espectador a todo instante. O elenco todo está fantástico, e é impressionante como o roteiro, escrito por Magnus von Horn e Line Langebek, dá importância e peso a todos os personagens, por mais rápidas que sejam suas aparições na tela.
Acredito que grandes cineastas têm o poder de expressar sentimentos e sensações num quadro de um filme só pela maneira como os personagens se comportam ou pela forma como a câmera capta o rosto de alguém. Vendo “A Garota da Agulha”, me deparei com várias sequências em que a ambientação da cena já fazia antever o que aconteceria depois. É uma coisa instintiva para o público, mas que está presente nos filmes dos grandes – Hitchcock, Bergman, essa turma. Não estou comparando Magnus Van Horn aos imensos, mas o fato é que o filme dele tem cenas extremamente bem pensadas e dirigidas, com todo segundo meticulosamente planejado para obter máximo impacto dramático. O filme é um primor de técnica, mas o virtuosismo é sempre usado em prol da história.
Há uma sequência em especial em que Karoline vai visitar a aristocrática família de Jorgen, que é uma obra-prima de direção e roteiro. Os diálogos são polidos e mundanos, apenas cumprimentos coloquiais, mas a cena tem uma tensão interna tão avassaladora que o espectador fica de cabelo em pé. Eu fiquei.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
18 comentários em "“A Garota da Agulha”: pare tudo e veja esse filme!"
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Excelente filme! Ótima indicação.
Crítica excelente, como de costume… Vale pontuar que os dois longas anteriores do diretor também estão disponíveis na Mubi.
“Sweat” eu vi na Mostra de Sampa à época e gostei bastante (“The Here After” ainda não vi), mas esse AGDA é de fato excepcional! Vai me assombrar por muito tempo…rs.
Curioso para saber o que esse Van Horn vai aprontar no futuro.
Abraços a todos!
Boa dica, verei!
A Garota da Agulha têm exuberância técnica e desempenho de elenco, em especial Victoria Carmen Sonne, Trine Dyrholm e, os que mais me tocaram, Besir Zeciri como o marido e Ava Knox Martin como a garotinha, impressionantes. O filme é muito bom, mas de Magnus Von Horn gostei bem mais de Suor(2020), uma sátira ácida, venenosa e repleta de humor negro que retrata a vida de uma influencer. Finalizo dizendo que, em uma época em que as feministas radicais querem impor a opinião de que as mulheres que desejam ser mães são umas doidas varridas, A Garota da Agulha não deixa de ser um ato de coragem e, quem sabe, de resistência.
Acabei de assistir. É uma obra – prima. Trine Dryholm é uma atriz soberba!
https://www.youtube.com/watch?v=D25JAJsaiYE&pp=ygUMY2luZWZpeCAyMDI0
André tá aqui uma lista que achei bacana de bons filmes do ano passado. Gosto muito desse canal Cinefix. Sabem do que estão falando.
André, você acha que depois dessa onda de divulgações de tweets antigos bem politicamente incorretos, acabaram-se as chances do Emilia Perez ganhar alguma estatueta do Oscar????
Já era.
Meu caro, faltou citar que a obra está na lista final de disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Será que leva?
Tem razão, vou incluir no texto, obrigado.
Vou ver hoje… e amanhã, “Rede de Intrigas”.
Vai passear de barco e comer aquele peixe especial esse final de semana?
Fomos ontem, que o tempo tava melhor!
Vi semana passada no Mubi e lamentei não ter sido no cinema.
Filmaço mesmo! Senti a opressão de uma bigorna no peito.
Sim, pesadíssimo.
Melhor filme que assisti nos ultimos tempos. Sua critica é excelente, como de costume
Legal que gostou.
Também fiquei impressionado com o filme, achei marcante a maneira como a fotografia captou o olhar “demoníaco” de determinado personagem em algumas cenas.
Achei bem melhor do que A Semente do Fruto Sagrado, que me decepcionou muito na segunda parte, com uma metáfora envolvendo perda de arma. Já viu este, André?
Tá na fila, veremos nos próximos dias.