out/2023

A carta de amor de Bogdanovich a Buster Keaton

Por André Barcinski

A carta de amor de Bogdanovich a Buster Keaton

Por André Barcinski

Peter Bogdanovich dedicou a vida ao cinema. Não só foi um dos grandes diretores da chamada “Nova Hollywood”, fazendo filmes como “A Última Sessão de Cinema” (1971) e “Lua de Papel” (1973), como escreveu mais de uma dezena de livros – e incontáveis artigos – sobre cineastas como Orson Welles, Hitchcock, Fritz Lang, Howard Hawks e John Ford.

Bogdanovich morreu em 2022, aos 82 anos. Seu último filme, lançado quatro anos antes, foi um sensível e detalhado documentário sobre um dos cineastas que ele mais admirava: Buster Keaton. O filme, “The Great Buster: a Celebration”, entrou no catálogo da plataforma MUBI, numa seção curada pelo ator e diretor brasileiro Selton Mello, e merece muito ser visto.

É um documentário simples e sem arroubos estilísticos ousados, mas de rigor histórico impecável e que conta toda a vida de Keaton, da infância passada nos teatros de vaudeville ao fim triste, em 1966.

O próprio Bogdanovich narra o filme, e é um prazer ouvi-lo descrever as peripécias de Keaton na infância, sua descoberta e início no cinema ao lado do então astro das comédias mudas Roscoe “Fatty” Arbuckle, e a incrível sequência de dez grandes filmes que Keaton dirigiu e produziu entre 1923 e 1928, incluindo obras-primas como “Sherlock Jr.” (1924), “A General” (1926).

Bogdanovich costura o filme com depoimentos muito interessantes e inesperados: Johnny Knoxville, do programa de TV “Jackass”, fala da destreza técnica dos filmes e da habilidade acrobática de Keaton, que não usava dublês em cenas perigosas. Quentin Tarantino diz que considera “A General” um dos grandes filmes de ação de todos os tempos.

Comediantes como Mel Brooks, Carl Reiner e Richard Lewis fazem fila para louvar Keaton, e até Werner Herzog, que não é exatamente um cineasta conhecido pelo humor, conta como foi impactado pela arte e criatividade dos filmes de Keaton.

Bogdanovich tem muito bom gosto para escolher trechos de filmes e cenas de arquivo, e seu conhecimento enciclopédico sobre a história do cinema mudo resulta num filme cheio de informações e teorias interessantes sobre esse ícone do cinema mudo.

O que muita gente não sabe sobre Buster Keaton é que a sua carreira como cineasta independente, com controle total sobre seus filmes, durou muito pouco. Em 1928, aos 33 anos e no auge da fama, ele assinou – ignorando os conselhos do amigo Charlie Chaplin – um contrato com a Metro-Goldwin-Mayer, que lhe pagava um bom salário, mas lhe tirava a responsabilidade de produzir os filmes.

Nos anos seguintes, a MGM passou a controlar cada vez mais a carreira de Keaton. Ele ainda dirigiu bons filmes, como “The Cameraman” (1928), mas a crescente falta de liberdade artística, somada ao mergulho no alcoolismo e depressão, minaram sua força e criatividade. Depois que o cinema sonoro tomou Hollywood de assalto, na década de 1930, o nome de Buster Keaton foi sumindo. Quando ele morre, em 1966, estava falido e era considerado uma relíquia ultrapassada.

Quem bom que existiram fãs e historiadores como Peter Bogdanovich, que nunca deixaram que nomes como os de Buster Keaton fossem totalmente esquecidos. E que alguém faça o mesmo por Bogdanovich, por favor.

Uma ótima semana a todas e todos.

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