A Apple TV estreou “Tetris”, um “thriller” com toques cômicos sobre a briga pelo licenciamento do famoso videogame. Preciso dizer que meu conhecimento sobre videogames é nulo. O único game que tentei jogar foi o tênis do Telejogo, lá se vão 40 anos, e nunca mais me interessei por diversões eletrônicas. Mesmo assim, fiquei bem interessado em ver o filme, porque a história parecia muito interessante.
A trama é ambientada no fim dos anos 80. A história se passa, majoritariamente, na União Soviética, onde o game foi criado. Um norte-americano dono de uma pequena empresa de games, Henk Rogers (Taron Egerton) descobre o Tetris numa feira de jogos e fica obcecado pela ideia de licenciá-lo.
A busca o leva a Moscou, em plena Guerra Fria, e descamba numa briga entre empresas rivais para ver quem faz a melhor oferta aos russos, então lidando com uma gravíssima crise que descambaria, em 1989, na queda do Muro de Berlim e no grande “racha” do comunismo.
O início do filme é promissor. Henk é um personagem aventureiro e com uma convicção inabalável em seu próprio tino comercial. Ele vai a Moscou e, sem a mínima noção de geopolítica e conflitos Oriente vs. Ocidente, acaba no meio de uma batalha internacional que envolve muito mais do que um simples jogo eletrônico.
Enquanto se limita a contar a saga de Henk em Moscou e sua luta contra a burocracia e a espionagem russas, “Tetris” é bem divertido. O problema é que, lá pela metade, o roteiro dá uma guinada numa direção meio policialesca, e tudo que a história tinha de interessante – os conflitos de Henk com os russos, a descrição do dia a dia da Rússia dominada pela KGB, a certeza de que o comunismo estava ruindo – desaparece soterrado em perseguições bobas e cenas de ação que parecem completamente deslocadas.
Não vou dar spoilers, mas preciso dizer que a segunda metade do filme é uma decepção que culmina numa ridícula perseguição de carro pelo centro de Moscou e na inescapável sequência dos bandidos tentando entrar num avião para retirar os mocinhos. Difícil acreditar que “Tetris” tenha duas metades tão díspares em qualidade.
Enfim, acho que o filme merece ser visto por causa de sua história incomum e sua ambientação numa época muito interessante do mundo. Mas a segunda metade é uma aula de como transformar uma ótima história num pastiche de “thriller”. E a cena final é um arroubo americanófilo de dar vergonha em “Rocky 4”.
Um ótimo dia a todas e todos.
7 comentários em "Crítica: “Tetris”"
Deixe seu comentário
Faça login para publicar um comentário.
André, você já assistiu ‘Tetris – From Russia with Love’? É um documentário de 2004 que mostra a viagem do Henk Rogers à União Soviética para comprar os direitos do jogo. Uma parte do doc é a filmagem do próprio Rogers em Moscou. Tem no yt: https://www.youtube.com/watch?v=NhwNTo_Yr3k
Obrigado pela dica, não tinha visto.
André, por falar em Rocky 4, revi Cop Land esse final de semana.. já assistiu?
Sim, do James Mangold, lembro ter gostado. Stallone DRAMÁTICO.
O final de Rocky 4 é algo surreal rsrsrs.
Tem um ótimo documentário no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=_fQtxKmgJC8) de um canal muito bom chamado The Gaming Historian. Quando vi o trailer deste Tetris, deu pra ver que exageraram no tom (e eu acho o Taron Egerton bem fraquinho) mas a história é interessante o suficiente para não ser uma bomba total.
Obrigado pela dica!