abr/2023

Filme mostra o lado sombrio do “Sonho Americano”

Por André Barcinski

Filme mostra o lado sombrio do “Sonho Americano”

Por André Barcinski

Não tenho relação comercial com a plataforma MUBI, mas não canso de recomendá-la aqui porque considero sua seleção de filmes muito boa. Além de oferecer filmes novos de cinematografias pouco divulgadas aqui – títulos da África, América Latina e de cineastas menos conhecidos da Ásia – e trazer sempre retrospectivas de artistas importantes (Joseph Losey, Lina Wertmuller, Wong Kar-Wai, John Schlesinger e outros), a plataforma oferece filmes recentes que não mereceram a atenção devida.

É o caso de “Era Uma Vez em Nova York” (2013), de James Gray. Esqueça o título oportunista, que tenta surfar a onda de Sergio Leone e vender o filme como um épico histórico. O título original, “The Immigrant”, diz tudo: o filme é um drama comovente sobre pessoas que vieram tentar a sorte na “Terra das Oportunidades”, os Estados Unidos (obrigado ao Moacir, que informou que o filme está também na Amazon Prime).

A história se passa em 1921, quando chega ao país, vinda da Polônia, a jovem Ewa (Marion Cotillard), acompanhada da irmã, Magda. Por uma série de infortúnios e atos de corrupção, Ewa acaba sob os cuidados de um malicioso “empresário”, Bruno Weiss (Joaquin Phoenix, parceiro constante de James Gray). Sob a fachada de comandar um espetáculo burlesco, Weiss também é um cafetão que agencia mulheres. Logo depois, surge na vida de Ewa um mágico, Orlando (Jeremy Renner), que se apaixona por ela.

“Era Uma Vez em Nova York” não tente reinventar a roda. Não há grandes arroubos estilísticos ou narrativos. É simplesmente um ótimo filme, contado de maneira tradicional, mas com extrema competência. A fotografia do incrível Darius Khondji um craque que trabalhou com Woody Allen, David Fincher, Bertolucci e Bong Joon-ho, entre muitos outros, é linda em seus tons de sépia e em sua cara de fotografia esmaecida. Direção, atuações, roteiro, tudo é feito com muita sensibilidade e talento.

Uma das grandes virtudes do filme é confrontar o clichê do imigrante que chega à “Big Apple” e é recebido com flores e carinho. James Gray mostra que a realidade foi muito diferente: mulheres eram selecionadas por agentes da Alfândega e forçadas a se prostituírem; famílias eram separadas e pessoas, deportadas, se isso servisse à corrupção oficial.

Gray sabe o que está dizendo. Seu nome verdadeiro é Grayevksy, e sua família veio da Ucrânia na mesma época retratada no filme. Ele sabe que a lenda da América cordial é só isso, uma lenda. A vida lá, se por um lado realmente oferecia oportunidades que muitos expatriados por guerras e conflitos étnicos conseguiram agarrar, por outro lado, também cobrava seu preço. Uma ótima semana a todas e todos.

9 comentários em "Filme mostra o lado sombrio do “Sonho Americano”"

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