jan/2023

“Holy Spider”: à caça de um assassino no Irã fundamentalista

Por André Barcinski

“Holy Spider”: à caça de um assassino no Irã fundamentalista

Por André Barcinski

Nos últimos anos, o cinema iraniano tem dado provas de que é um dos mais criativos e talentosos do mundo. Mesmo sem seu maior nome, Abbas Kiarostami, que morreu em 2016, cineastas do país têm lançado filmes marcantes, ano após ano. Falo de gente como Asghar Farhadi, Samira Makhmalbaf, Jafar Panahi e, mais recentemente, Ali Abbasi.

Abbasi tem 41 anos e só lançou três longas: “Shelley” (2016), “Border” (2018) e, agora, “Holy Spider”, que chegou aos cinemas brasileiros e estará na plataforma de streaming MUBI em março. “Border” (no Brasil, “Na Fronteira”), é um dos filmes mais espetaculares que assisti nos últimos anos (leia aqui um texto que escrevi sobre o filme).

Abbasi vive na Dinamarca e conseguiu financiar “Holy Spider” como uma coprodução entre Dinamarca, Alemanha, França e Suécia. O filme foi selecionado como representante dinamarquês na disputa do Oscar de Filme Estrangeiro e recebeu uma ovação de sete minutos no Festival de Cannes, onde Zar Amin Ebrahimi venceu a Palma de Ouro de melhor atriz.

Em “Holy Spider”, Ebrahimi faz a jornalista Arezoo Rahimi, que em 2001 vai da capital, Teerã, à cidade sagrada de Mashhad, no nordeste do país, investigar uma onda de assassinatos de prostitutas na cidade. Rahimi logo descobre que as mortes foram cometidas por um assassino serial que autointitula “Aranha Sagrada” e deixa recados telefônicos num jornal local, contando detalhes dos crimes e os locais onde os corpos das vítimas podem ser encontrados. O assassino diz que comete os crimes para “limpar Mashhad do pecado” e como tributo a um líder religioso.

O criminoso, como descobrimos logo nas primeiras cenas, é Saeed Manahei (Mehdi Bajestani), um veterano da Guerra Irã-Iraque que, desolado por não ter morrido em combate e virado mártir, se radicaliza religiosamente e começa a série de crimes brutais contra prostitutas.

A jornalista começa a investigar os crimes, mas logo percebe que não pode contar com ajuda de autoridades, polícia e lideranças religiosas locais, que parecem satisfeitas com a “limpeza” promovida pelo Aranha e fazem de tudo para dificultar as investigações. Arezoo parte então, sozinha, para uma exploração do submundo de Mashhad.

“Holy Spider” é um ótimo filme policial, mas sua maior qualidade é mostrar como a sociedade conservadora iraniana abraçou o assassino e o tornou um herói local. Por esse aspecto, não é muito diferente das inúmeras histórias de “justiceiros” que conhecemos no Brasil, em que matadores são glorificados pela população.

Como era de se esperar, “Holy Spider” foi pessimamente recebido no Irã. O governo protestou contra a inclusão do filme em Cannes, e a atriz Zar Amir Ebrahimi, que vive na França, disse ter recebido pelo menos 200 ameaças de morte. Impossibilitado de filmar no país, Ali Abbasi rodou na Jordânia.

Comparado a “Border”, “Holy Spider” é um filme mais convencional, com uma estrutura e um tema que já vimos antes. Mas a ambientação, nas profundezas do Irã fundamentalista, e o fato de ter uma mulher liderando uma investigação num lugar tão misógino, o tornam imperdível. Mais um ótimo filme de Ali Abbasi.

Esse texto já estava programado quando chegou a notícia da morte de David Crosby. Escreverei sobre ele na segunda-feira.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

4 comentários em "“Holy Spider”: à caça de um assassino no Irã fundamentalista"

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