“Hallelujah”: como Leonard Cohen fez sua canção mais marcante
Imperdível é “Hallelujah: Leonard Cohen, Uma Jornada, Uma Canção”, documentário de Dan Geller e Dayna Goldfine sobre o poeta, cantor e compositor Leonard Cohen (1934-2016).O título pode ser alugado no Youtube Filmes, Google Play, Apple TV, Claro TV, Microsoft e Amazon.
Na verdade, o filme não é só uma biografia, mas aborda um tema raro em documentários: o processo criativo. O tema central é a canção mais famosa de Cohen – “Hallelujah” – e como ela, de certa maneira, resume a carreira do compositor, tanto estilisticamente, com seu tema ligado à fé e sexualidade, mas também biograficamente, tendo sido rechaçada, a princípio, para depois ser redescoberta e adorada por muitos.
O filme usa raras cenas de arquivo e exibe os cadernos e diários de Cohen, dezenas de volumes em que ele anotava ideias para versos. Antes de ser cantor e compositor, Leonard Cohen era poeta. Começou a carreira musical aos 30 anos, e é fascinante acompanhar o lento e burilado processo de criação de suas letras.
A letra de “Hallelujah” levou cerca de dez anos para ficar pronta. E, na verdade, nunca foi finalizada, já que Cohen, quando a interpretava ao vivo, sempre mudava algo nos versos, diferenciando-a versão original gravada para o álbum “Various Positions” (1984). No filme, vemos Cohen, nos anos 80, sendo entrevistado pelo amigo Larry “Ratso” Sloan, repórter da revista “Rolling Stone”: “Lembro estar num hotel, de cueca, deitado no chão e batendo a cabeça no tapete porque não conseguia terminar a letra”, diz Cohen. Ao que Sloan pergunta: “Você acha que todo compositor pop tem o mesmo cuidado com as letras?” A resposta de Cohen é hilariante: ele simplesmente olha sem reação para Sloan, como se nunca tivesse se perguntado isso antes e não conhecesse outra maneira de criar.
A vida de Cohen é contada em cenas de arquivo: o início, como poeta beat no Canadá, a vinda para Nova York e a revelação tardia de seu talento, os discos maravilhosos que não vendiam nada, a admiração de poucos e bons – Dylan, Judy Collins, Joni Mitchell, John Cale.
Em 1984, depois de uma experiência tenebrosa com o produtor Phil Spector, que soterrou a poesia de Cohen em arranjos bombásticos no álbum “Death of a Ladies Man”, Cohen procura um antigo colaborador, John Lissauer, e grava o LP “Various Positions”. O disco abria com uma faixa antológica e que Lissauer tinha certeza que seria um hit: “Dance Me To End of Love”. A faixa que abria o lado B era igualmente marcante: “Hallelujah”. Cohen e Lissauer ficaram felicíssimos com o resultado.
Infelizmente, Walter Yetnikoff, então chefão da Columbia, gravadora de Cohen, não concordou, e mandou simplesmente engavetar o disco, que não foi lançado nos Estados Unidos (uma gravadora pequena lançou o LP alguns anos depois, mas sem nenhuma repercussão). Grande parte do seleto fã-clube de Cohen ficou sem conhecer “Hallelujah”.
Por sorte, John Cale (ex-Velvet Underground) ouviu Cohen cantando a música num show no Beacon Theatre, em Nova York, e resolveu gravá-la no álbum-tributo “I’m Your Fan”, lançado em 1991. Foi essa versão de Cale que ressuscitou comercialmente a música. Três anos depois, o cantor Jeff Buckley, que não conhecia a versão original de Cohen, ouviu a gravação de Cale e resolveu gravar a música em seu único disco, “Grace” (Buckley morreria afogado no rio Mississipi, em 1997, aos 30 anos).
Na voz de Buckley, “Hallelujah” se tornou um hino e se popularizou no mundo todo. Em 2001, a canção, na versão de John Cale, foi incluída no filme “Shrek” (na trilha sonora, a versão foi gravada por Rufus Wainwright), e dali virou arroz-de-festa em casamentos, cerimônias religiosas e em programas de TV tipo “The Voice”.
O documentário é um pouco longo – precisaria mesmo de 10 minutos de versões horríveis de “Hallelujah” para mostrar a popularidade tardia da canção? – mas isso não diminui o deleite que é ver as entrevistas de Cohen e cenas de seus shows.
Amanhã, sábado, republico um texto que fiz em 2012 sobre um show de Leonard Cohen em Madri.
Um ótimo fim de semana a todos.
11 comentários em "“Hallelujah”: como Leonard Cohen fez sua canção mais marcante"
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Lenda .
E hoje outra lenda partiu . Li por recomendação sua a fantástica biografia de J.L.L. por Nick Toshes (que merecia uma edição por aqui) .
Merecia mesmo.
Ops… parece que era fake news e o cara está bem.
André, eu confesso que eu peguei um certo bode dessa música justamente por ela ser um arroz de festa nos casamentos, cerimônias de praticamente todas as religiões e programas de calouros da vida!!!
E a história do nascimento de Hallelujah parece bem mais interessante que a música em si!!!!
Também não suporto, acho litúrgica demais.
É realmente uma canção linda, mas tanta gente regravou (e estragou) a canção que já ficou pelo menos pra mim, saturada… lembro de uma versão horrorosa do Bon Jovi… Gosto demais das versões do Cale, do Buckley e do autor, e só.
Grande dica André. Eu ouvi essa história no podcast do Malcolm Gladwell há uns anos atrás (Revisionist History: Hallelujah). Tem também um livro que conta a jornada da música até a popularidade com o Jeff Buckley (The Holy or the Broken: Leonard Cohen, Jeff Buckley, and the Unlikely Ascent of “Hallelujah”).
Não conheço o livro, obrigado.
Barça, doc muito bom mesmo. Longo, concordo. Mas vale a pena pela forma que mostram como as peças vão se encaixando para criar uma obra tão particular como essa. Como se Cohen durante esses 10 anos se sentasse em uma mesa para montar um Lego que nunca realmente montou (pelo menos para ele).
Sim, é um processo muito raro na música, especialmente na música pop.
é demais mesmo o documentário, tive a chance de ver no cinema e saí emocionado. Depois vi que o filme é baseado em um livro: https://www.simonandschuster.com/books/The-Holy-or-the-Broken/Alan-Light/9781982141363