Neil Young e o disco que ficou inédito por causa do Brasil
Nos últimos anos, Neil Young tem lançado uma série de discos que, por razões variadas, permaneciam inéditos. O mais recente é “Toast”, um álbum de sete canções gravado no fim de 2000 com a banda Crazy Horse.
O que pouca gente sabe é que esse disco só ficou inédito por 22 anos por culpa do Brasil. E a história é sensacional.
No fim de 2000, Young estava numa pior, vivendo um processo de separação da esposa, Pegi, e passando por uma fase triste e depressiva. Ele reuniu o Crazy Horse – Frank “Poncho” Sampedro (guitarra), Billy Talbot (baixo) e Ralph Molina (bateria), banda que o acompanha desde o fim dos anos 60 – e se trancou num pequeno estúdio em São Francisco, o Toast, para gravar um novo disco.
O resultado foi um trabalho pesado e melancólico, com faixas longas e tristes como “Standing in the Light of Love”, “How Ya Doin’?” e “Boom Boom Boom”, esta com 13 minutos de duração.
No meio das gravações, Young e o Crazy Horse foram à América do Sul pela primeira vez para shows em Buenos Aires e no Rock in Rio. E os dias na América do Sul mudaram a cabeça de Neil Young. “Eventualmente, eu desisti e abandonei o álbum”, escreveu o compositor. “Eu não estava feliz com ele, ou talvez estivesse num momento especialmente infeliz. Era um álbum muito desolado e triste”.
Assim que retornou da América do Sul, Young convocou a banda soul Booker T. and the MGs e, com o guitarrista Frank “Poncho” Sampedro, gravou outro disco, “Are You Passionate?”, em que regravou algumas canções de “Toast” em versões menos cruas.
E o que aconteceu na América do Sul para mudar assim a cabeça de Neil Young? Segundo os integrantes do Crazy Horse, em entrevistas à revista “Uncut”, os shows no Brasil e Argentina foram tão sensacionais e empolgantes que Neil deixou a tristeza de lado. “Nós estávamos pegando fogo”, disse o guitarrista Frank “Poncho” Sampedro. “Tocar para 200 mil pessoas no Rio de Janeiro foi insano. Quando começamos ‘Like a Hurricane’, a multidão cantou a melodia como se fosse uma torcida de futebol. Quanto mais intenso ficava o solo, mais alto ficava o canto. Eu olhei para Neil e ele estava com a cabeça jogada pra trás, de olhos fechados, solando. Foi um momento tão mágico, cara. Uau.”
O baixista Billy Talbot disse: “Nós temos vídeo daqueles shows. Estávamos tocando muito bem. As gravações de ‘Toast’ não refletiam aquilo”.
Tive a sorte de ver os dois shows deles na América do Sul. O do Rio foi realmente ótimo, mas o de Buenos Aires foi um dos mais emocionantes que já assisti. Leia aqui o texto que fiz para a “Folha” (inclusive, desconfio que “Poncho” se enganou na entrevista e confundiu os shows de Rio com o de Buenos Aires. Porque cantar a melodia como grito de torcida de futebol é muito comum na Argentina, mas aqui, nunca ouvi).
Com o lançamento tardio de “Toast”, agora é possível ouvir, na sequência, aos álbunsextraordinários que Young gravou com o Crazy Horse (e um com o Pearl Jam!) nos anos 90: “Ragged Glory” (90), “Sleeps With Angels” (94), “Mirror Ball” (95), “Broken Arrow” (96) e “Toast”. Que outro artista da geração dele lançou álbuns tão bons depois de 30 anos de carreira? Difícil pensar em alguém.
Um ótimo dia a todas e todos.
10 comentários em "Neil Young e o disco que ficou inédito por causa do Brasil"
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A banda não é sua praia, mas a plateia cantar uma melodia como grito de torcida aconteceu no Maracanã e ficou famoso no mundo inteiro. Faça um esforço…kkkkkk
https://www.youtube.com/watch?v=1eSlvoO3Vw8
André, essa história do Neil Young, guardadas as devidas proporções, lembra a história do James Taylor no Rock in Rio em 1985, que praticamente renasceu na carreira depois daquele show…
Tem toda razão.
Neil é Deus.
Dae André blz ? Sensacional a sequência de álbuns do Neil nos anos 90, vou ter que ouvir tudo de novo rsrs. Obs: Tinha dois textos da época da Folha que acho que tiraram do ar, um era uma lista sobre filmes de conspiração nos anos 60/70 e o outro era sobre o Peter Weir, será que um dia rola um do arquivo ? Um abraço!
Boa, vou procurar os textos. Abraço!
Barça, me desculpe mudar de assunto, mas acabei de assistir a entrevista do JOSÉ MOJICA ao RODA VIVA na qual você era um dos integrantes da bancada de entrevistadores…Cara, que entrevista brochante!! Alguns entrevistadores pareciam estar em um dia muito ruim, principalmente o IVAN CARDOSO, o que para mim foi uma surpresa bastante negativa.
Sim, ele é sempre uma presença negativa.
A propósito, e esse site El Foco do qual você era editor? Não cheguei a conhecer, era um blog seu?
Era um site, durou uns seis meses, mais um delírio da era ponto.com.