jan/2022

Crítica: “Kurt Cobain – Montage of Heck”

Por André Barcinski

Crítica: “Kurt Cobain – Montage of Heck”

Por André Barcinski

Publicado originalmente na “Folha de S. Paulo” em 2015

“Kurt Cobain – Montage of Heck”, de Brett Morgen, foi feito a partir de material inédito de fotos e filmes da família Cobain, mostrando a infância e adolescência de Kurt e cenas íntimas dele com a mulher, Courtney Love, e a filha, Frances.

Só de conhecer a família de Kurt dá para perceber que as coisas não vão acabar bem. A mãe, Wendy, tem um ar insano e parece falar com raiva sobre o filho; o pai, Don, admite que foi ausente. O casal se separou quando Kurt tinha nove anos, e o menino passou um tempão pulando de casa em casa, morando com parentes e sendo expulso de todos os lugares por mau comportamento e violência.

O “Montage of Heck” do título é uma fita cassete gravada por Cobain em 1988, em que ele mixa trechos de músicas com depoimentos sobre sua vida. A fita foi usada de base para desenhos animados que narram algumas passagens da vida de Cobain. O efeito é fantasmagórico, como se ouvíssemos um morto recapitulando sua vida.

O filme usa também cadernos de anotações e desenhos de Kurt, e os rabiscos mostram um cara inseguro, ambicioso e com muita, mas muita raiva do mundo.

As cenas mais impactantes do filme mostram a intimidade do casal Kurt e Courtney Love, claramente chapados de heroína, brincando com Frances, ainda bebê. A impressão é de que um desastre pode acontecer a qualquer momento. E essas são as cenas aprovadas por Courtney, o que leva a imaginar como seriam as imagens que a esposa não quis exibir.

O filme mostra a formação do Nirvana, o sucesso fulminante da banda e o efeito disso na cabeça frágil de Kurt. “Quando ele me mostrou [as demos de ‘Nevermind’], eu disse: ‘Filho, é bom você apertar o cinto, porque você não está preparado para isso”, diz a mãe, Wendy, como se antecipasse as consequências que a fama teria para o filho.

Krist Novoselic, parceiro de Kurt no Nirvana, diz se arrepender de não ter visto “os sinais” de que algo não estava legal na cabeça do amigo e que o levariam ao suicídio, em 1994: “Eu devera ter dito algo!”.

Mas a entrevista mais reveladora é a da viúva, Courtney Love. Ela conta que a tentativa de suicídio de Kurt em Roma, quando engoliu mais de 60 comprimidos tranquilizantes, ocorreu porque ele desconfiou que ela estava tendo um caso. “Eu pensei eu trair o Kurt, mas não o fiz. Mas ele parecia ter um sexto sentido e pressentiu a traição”, diz Courtney. Um mês depois, Kurt atirou contra a própria cabeça.

O filme pode ser visto na Claro TV, Apple TV, Youtube Filmes e Google Play.

Sexta, dia 7, publico o último texto não-inédito. O blog retorna com textos inéditos na segunda, dia 10.

12 comentários em "Crítica: “Kurt Cobain – Montage of Heck”"

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