Charlie Watts: foi-se a “cama” em que os Stones deitavam e rolavam
Charlie Watts: foi-se a “cama” em que os Stones deitavam e rolavam
Charlie Watts se foi.
Ele era a base – sempre econômica e elegante, porém sólida e confiável – sobre a qual a música dos Stones se fez por 60 anos.
Só para usar uma expressão que se tornou batida pelas injustas repetições, dá pra dizer que Charlie Watts foi um ícone. A exemplo de outros gigantes do rock que partiram recentemente – Lemmy, Little Richard, Chuck Berry, Eddie Van Halen – ele criou uma persona, uma figura que simbolizava algo maior que ele próprio.
Se Lemmy e Little Richard encarnavam a selvageria, Chuck Berry, a elegância, e Van Halen o virtuosismo, Charlie Watts representa algo muito menos evidente e, portanto, de mais difícil percepção: a simplicidade. E, no rock, só uma figura muito especial consegue se destacar pela simplicidade.
O rock’n’roll nasceu no pós-Segunda Guerra como um enfrentamento contra o racismo e a caretice das gerações anteriores, e seus pioneiros sempre fizeram questão de se diferenciar dos pais, tanto no vestir quanto nas atitudes. Rock sempre foi coisa de exibicionistas e “poseurs”. Como explicar, então, um rockstar como Charlie Watts, que desde os anos 60 parecia ser tio, e não colega, de Mick, Keith e Brian?
As bandas de rock dos anos 1960 eram pródigas em “personagens”: os Beatles eram vendidos como quatro personalidades complementares, e suas fãs escolhiam o que mais lhes agradava. Já os Stones tinham uma curiosa dinâmica interna, em que a base – Charlie e o baixista Bill Wyman, este chamado de “O Quieto” – não curtiam exibicionismos e cumpriam estoicamente a tarefa da deixar os holofotes para Mick e Keith.
Antes de o rock inventar seus próprios arquétipos, Watts já era o baterista que fica lá no fundo, não faz malabarismos técnicos, segura a batida e não quer aparecer. Ou, como dizia Keith Richards: “Charlie sempre foi a cama em que eu me deito, musicalmente”.
32 comentários em "Charlie Watts: foi-se a “cama” em que os Stones deitavam e rolavam"
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O século XX vai lentamente se despedindo de nós.
Bowie, Lemmy, Watts, Entwistle, Dusty Hill e tantos outros.
Em pouco tempo só vão sobrar o som e as lembranças desses velhos craques do classic Rock.
André, uma lástima a morte do Charlie Watts, e além de tudo o que já foi dito sobre ele e os elogios merecidíssimos à sua carreira, o irônico é que justo o mais sóbrio dos Stones foi o primeiro a partir dessa pra melhor…
Nunca fui fã dos Rolling Stones. Sempre achei uma banda superestimada e não vejo sentido em compará-la com os Beatles, infinitamente superiores em todos os aspectos. Mas reconheço sua importância para o rock britânico, apesar de que Zeppelin, Sabbath, Bowie e Pink Floyd, no meu entender são mais essenciais nesse contexto. E Charlie Watts dentro da banda é uma figura tão fundamental quanto os narcisistas e exibicionistas Jagger e Richards. Seu talento merece todo o reconhecimento, principalmente na seara muisical que ele gostava mais de praticar: o jazz.
Concordo com voce. A impressão é que os Stones seguiram uma linha mais comercial. Assiste um show deles: têm um repertório, mas nos shows o repertório é sempre o mesmo.
Texto primoroso Barça…
Brigadão!
Não poderia concordar mais, Barça! Watts era a tradução perfeita do “menos é mais”. A elegância e a simplicidade à serviço da genialidade. Vai fazer muita falta.
Simplicidade É elegância, não?
Belo texto. Ele e o Phil Rudd são os especialistas da simplicidade.
Putz que tristeza, não sei se alguém já postou aqui, mas essa entrevista dele ao Guardian é um primor de jornalismo musical. Vale a pena ler para ver o quão legal Charlie Watts era.
https://www.theguardian.com/theobserver/2000/jul/09/features.magazine27
Valeu pelo link, lerei.
Ótimo texto! Só acrescentaria a lista o Dusty Hill. Não sei se era gigante, mas eu sou muito fã….grandes perdas.
Era sim, bem lembrado.
Tenho a impressão que em determinado momento os Stones virou sua profissão.
Seu prazer real ela tocar jazz…
E fez de forma magnífica.
Cara, Stones virou uma empresa há tempos…
Sempre admirei o minimalismo.de Mr Watts com as baquetas tocando apenas o necessário, sem firulas e exibcionismos. Tocar apenas o essencial é fazer o difícil parecer fácil. Um artista, mais até do que um músico.
Saber o que é “essencial”, coisa mais difícil…
A precisão da baqueta do Charlie Watts era o coração pulsante dos Stones. Baterista de jazz, técnico sem ser virtuose, vai se juntar a outro discreto, o baixista John Entwistle, e formar uma das melhores cozinhas no céu do rock’n’roll.
Bem lembrado o Entwistle, outro elegante no meio dos selvagens.
O público adorava o Charlie. Nos shows, que vi pessoalmente e em vídeo, ele sempre ficava com o maior tempo dos aplausos na hora de apresentar os músicos. Só me resta agradecer.
Fato. Era adorado pelos fãs.
Excelente o texto!
Charlie deixa uma obra e um legado espetacular. Vai ser difícil ver os Stones sem ele, mas acredito que eles devem continuar.
Uma dica, o disco “Blue & Lonesome” de 2016… o som da batera é demais!
Abs
Também acho, já estavam até com datas fechadas e sem ele.
Descanse em paz, Charlie Watts. Parabéns pelo ótimo texto Barça.
No futebol, a expressão “jogar de terno”, descreve o jogador com classe absurda, que executa as jogadas com tranquilidade, maestria e elegância, fazendo o difícil parecer fácil. Charlie era o baterista que tocava de terno.
Excelente analogia, era isso mesmo.
O mestre Duda Neves me mostrou esse conceito de simplicidade e economicidade no tocar.
A partir de então, passei a admirar bateristas como Charlie Watts ( o “Exile On Main Street” é uma aula) e Max Weinberg.
Muito legal essa menção ao Duda Neves.
Barça, eu tive o privilégio de estudar bateria com o Duda Neves (turma 1993). As suas histórias eram ainda melhores que as suas aulas!
Muito privilégio isso…
Charlie foi “a cama” mais aconchegante que qualquer músico poderia ter em sua banda! Uma inestimável perda e um grande exemplo de músico.
Pelo menos viveu e gravou bastante. Um gigante.